sábado, 25 de fevereiro de 2023

Rosário (V)

 

Quantos anos levou apenas a olhá-lo? Quanto tempo pode durar uma paixão quando não se consome em boca, em corpo, em cama partilhada e dias azuis? Quando fica no limbo do tempo, em esperanças colocadas em banho maria?

Via-o todos os dias naquele seu ar desengonçado, modos envergonhados e olhar deslumbrado pela cidade. Ligava muitas vezes à namorada que tinha ficado no interior, no lugar em que ambos tinham dado as mãos pela primeira vez à saída da escola. Quando vens, dizia ele, quando vens, dizia ela. Nenhum deles ia, ela bem podia ver. Por isso aguardava que aquele namoro pudesse chegar ao fim e um dia ele dedilhasse para ela uma canção, erguesse os olhos e visse os dela cravados nele. Nada acontecia porém, um dia atrás do outro eram vividos em círculos de amigos. 

Não se lembra do dia em que ele não apareceu mais no café em que se encontravam, certo é que lhe disseram que a aventura na cidade tinha chegado ao fim, certo também que nem se tinha despedido dela e isso confirmava as suas suspeitas, a sua ligação era um vento fátuo e sem força. 

Guarda-o no baú das paixões breves e não correspondidas, mas também no das que não doem e quase não têm rosto. Os olhos eram trigueiros e os cabelos cor de mel, é disso que se recorda, e também do seu nome. Rosário preferia as paixões platónicas como aquela, eram histórias que acumulava num lugar de uma existência vivida no centro da timidez. Apenas uma vez alguém tinha tido coragem de romper a sua bolha, avançara para a sua boca com ímpeto e ferocidade, tinha ficado assustada e feito tanto esforço que aprendera a gostar, depois a desgostar. E agora era assim, apaixonava-se pelos vizinhos casados, pelos músicos de rua, pelos escritores nas feiras de literatura, por certos actores em certos filmes, em síntese, pelos homens impossíveis.

~CC~





quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Lá na minha rua

 


Lá minha rua passam às vezes estas mulheres com um sorriso tão grande. Olho-as e vejo outra vez a estrela do mar que passou ao meu lado no oceano índico, quanta beleza.

~CC~


terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Terça de Carnaval

 

Os olhos tão secos ardem e incham. Estão cheios de uma tristeza que não consegue tornar-se lágrimas. Precisava de chorar um rio inteiro.

Como não consigo, vou contigo ver o mar transparente e manso desta nossa península. 

E volto melhor.

Outro dia talvez consiga chorar. Ou ainda melhor, talvez consiga rir.

~CC~

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Breves fugas

 

Voltam as poeiras do outro lado do mediterrâneo. Tento que me digam coisas sobre esses outros lugares que não conheço nem conhecerei. Tenho cada vez mais a consciência de onde não poderei ir, marco esses vazios do mundo. De outros não chegam poeiras mas ecos lancinantes de tragédias múltiplas, a Turquia de construções feitas mortalhas.

Ao mesmo tempo sonho ainda com aqueles sítios alcançáveis, variando entre o frémito do desejo do Mindelo e a paz da ilha da Flores. E com estes exercícios faço as minhas fugas, os intervalos de trabalho, como aqueles que se levantam para ir fumar um cigarro e espalham no ar os círculos de fumo (tanto que o meu pai fez isso).

~CC~



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

O mesmo e ainda assim já outro

 

Desta vez apenas fotografei com os olhos aquele Alentejo.

Não fora a sopa de cação e a fatia de sericaia e tudo seria outro lugar qualquer, não o território que antes era celeiro. Agora há hectares e hectares de olival e amendoal, com rega gota a gota e proprietários sem nome nem rosto conhecido. Assim que a noite cai grupos de jovens de tez mais ou menos escura vagueiam pela cidade como pirilampos sem luz. Usam mochilas onde parecem levar tudo o que têm. Acho que são as novas ceifeiras, os novos explorados do mundo. Nas aldeias não há já tendas de circo como nos livros do Manuel da Fonseca. 

Saio de madrugada e chego ao anoitecer ao centro e já não vejo velhos, nem cães vagabundos, nem sequer gatos. O sítio em que estou é também um não lugar, uma casa antiga restaurada mas mobilada a móveis baratos suecos que no pequeno almoço tem 3 tipos de leite vegetal e 3 tipos de pão (des)congelado. 

Onde estás Alentejo que não te sinto. Sobrou a pronúncia tão bela nos miúdos enregelados nas manhãs de escola deste mês de Fevereiro. 

~CC~





terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

O que festejo

 

Seis anos, seis anos.

Uma manhã que se prolongou até à noite desse dia, dez horas a dormir no lugar frio, no lugar escuro.

E estou aqui, mais do que sobrevivente, viva.

Festejo isso que é tanto. 

~CC~


sábado, 11 de fevereiro de 2023

Outros carnavais...

 

Iniciar o dia com crianças tão pequenas, mal me lembro como era conversar com elas, mas tento.

Então meninos, de que se vão mascarar?

Vamos de fruta saudável!

De quê?!

Eu vou de morango e ela de maçã.

Não estou preparada para estas respostas, fiquei sem saber o que dizer. E fiquei algum tempo a pensar no assunto, com pena destes miúdos que já não se vestem de fantasmas, bruxas, piratas, dragões...

~CC~

domingo, 5 de fevereiro de 2023

A forma

 

Não procures apenas as palavras certas mas o modo de as dizer. É no tom, na modulação, no gesto que as acompanha, no modo como olhamos, a forma transmite tanto quanto o conteúdo. 

É assim que chega o calor ou o gelo, que chega a doçura ou a distância. Se eu pudesse escolhia apenas formas redondas de falar. Escolhia formas que fossem balões soltos no céu, formas que fossem peixes vagarosos a esgueirar-se entre os corais, formas que fossem sopros de vapor a cortar o frio.

~CC~

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Voltas para mim?!

 

Cheguei ao inevitável estado de secura da alma, parece ter fugido de mim para me poder tornar a máquina das dez horas diárias de trabalho.

Oxalá volte, não gostava de ficar assim.

~CC~

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

A pior

 

Tarefas domésticas?!

Hesito na que será pior para mim: passar a ferro ou levar o lixo? Claro que esta é uma conversa para quem as tem que fazer todas e não tem separações entre os membros do casal, filhos, ou outros afins. Numa eventual divisão há pelo uma que não me importaria de fazer amiúde.

Então e vós?

~CC~