quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Dias de escola


Os "trabalhos", é assim que os (meus) estudantes falam da escola, do ensino superior. Dantes, no ensino secundário, diziam "os testes". Tenho a sensação de entre uma e outra coisa, não há mudanças significativas. O gosto pelo que se tem que aprender é diminuto. A vida é cheia de coisas que lhes dizem para fazer. Quando chegam ao 3º ano da licenciatura e lhes digo que lhes estou a propor uma actividade que é voluntária, são poucos os que se inscrevem. Quando lhes pergunto o motivo, aparecem "os trabalhos", preferia que me dissessem que não têm interesse por aquilo que lhes estou a propor. A questão é, porém, inversa, eles dizem que até gostavam, mas não podem. Para mim é difícil porque não sei bem o que é não poder, conheço sobretudo o não querer e às vezes também não quero. Consigo infiltrar nas aulas coisas que são outra coisa, de repente cantam, dançam e até podem dizer um poema, depois gostam, gostam muito. Cantaram uma música do José Afonso mas nunca tinham ouvido falar dele, estranharam a melodia e ainda mais a letra. Mas aquilo não é a escola, afinal não deu trabalho nenhum. Sei que é disto, destas coisas, que um dia se lembrarão. 

~CC~

domingo, 22 de novembro de 2015

Esta também é a minha gente (apareçam!)




Logo eu que não tenho aldeia, tenho vindo a gostar muito desta, ou não fossem as pessoas a matéria fundamental de cada lugar.

E se quiserem ficar por lá, não faltam locais onde o fazer, desde os de preço mais módicos aos menos (alguns muito bonitos, a valer a pena o esforço económico). Se necessitarem de alguma informação desse tipo não hesitem em escrever para o mail da associação.

~CC~

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Novembro neste lugar



Um mar de nevoeiro com muitas gaivotas paradas no areal, ondas grandes a baterem na areia, o som delas a enrolar-se em mim. Bravio este atlântico, tão diferente do meu. É tão perto vir até aqui e não vinha há cerca de vinte anos. Pergunto-me porque gastamos a vida nos mesmos lugares de sempre, até eu que não gosto de rotinas. Todo o mar é o mesmo e é ainda assim um outro, razão mais que suficiente para o espreitar em diversos miradouros. 

As ruas pequeninas não têm os mesmos objectos de rotina e não há lojas da moda, prendo-me nos cestos de vime, nos cavalinhos de pau, nas mantas de cores, nos  ouriços que são os doces que inventaram para ser daqui. 

Não te tenho para namorar e aqui apetece-me mais porque tu e eu em sítios diferentes somos os mesmos mas somos ainda assim outros diferentes. Sonho que um dia sentes e sabes isto e o queres tanto como eu. Amanhã acordo e vou ver este mar na certeza de que o quereria fazer com a tua mão na minha, com um beijo a interromper a vista em comum. Há em nós um encontro cheio de desencontros, eu aqui, tu aí, cada um a fazer o que gosta mas um sem o outro. 

De repente tenho saudades de tudo e de todos e até do meu passado, uma vontade enorme de ir até Colares, subir pela praia das Maçãs, parar nas Azenhas do Mar. Ter saudades dos lugares é como ter saudades de uma parte de nós que não queremos deixar morrer, precisamos de ir lá para saber que um dia a nossa essência passou por ali.

Ericeira, terra escarpada no nevoeiro de Novembro, guarda-me.

~CC~


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

yoga (1)



O yoga deve ser o único lugar em que o(a) professor(a) diz:

- Feche os olhos e observe.


~CC~

sábado, 14 de novembro de 2015

Um sol de chumbo





Achei que não ia conseguir dormir ontem, tamanha foi a perturbação que senti, mas acabei por adormecer. Foi, contudo, um sono triste. Penso na minha filha, na dele, nas minhas sobrinhas, em como não conseguimos deixar-lhes algo melhor, um mundo outro para a entrada delas na idade adulta. Lembro-me de ter crescido num mundo ordenado pela guerra fria, numa paz de gelo é certo, mas ainda assim menos confuso, com mais esperança. Talvez no seu interior já estivesse a crescer a desordem mas não era perceptível, não era tão perturbador como agora. Como entender que as religiões possam dividir e matar como na idade média? O mesmo ódio tantos anos e tantos depois. 

Não obstante a guerrilha política a que se entregam os nossos partidos políticos, os dias andavam tão luminosos, de repente vimos com clareza um sol de chumbo, a dor vivida não num lugar recôndito do mundo que não vem nos jornais, mas no centro da Europa.

~CC~