sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Capa negra

Essa maldita morte que vem buscar gente boa que nos faz falta. Nem sequer era meu amigo mas amigo de amigos meus. E ainda assim cobriu-me uma noite escura, uma sombra interior, um medo tão grande cá dentro. Talvez precise apenas de chorar. 

Ou então é saber que aquilo que o levou tão perto esteve de me levar. E dizem que não raro volta. Os fantasmas nunca nos largam e já não são iguais aos que eu inventava na minha infância, tinha um como amigo secreto que só eu via e me protegia, agora são vários e vestem capa negra.

~CC~

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

São fortes as correntes e arrastam tanto

O sabor de uma coisa é parcialmente desfeito quando uma parte de nós já tem que estar na coisa seguinte. 

Damos por nós a pensar que já a podemos riscar da lista e, ao fazê-lo, entendemos que já estamos na noutra e na outra e na seguinte. E há erros porque a velocidade é muita. E o corpo dói.

E sabemos tão bem que a vida não é para ser vivida em curto circuito, em emboscada, em apneia. Sabemos e não conseguimos, são fortes as correntes e arrastam tanto.

Valem as paragens, em cada uma delas abro bem a boca para sorver o oxigénio e continuar a respirar com alguma convicção e encanto. 

~CC~




sexta-feira, 21 de novembro de 2025

És bandeiras e balões

 

O que gosto em ti é essa vitalidade, essa forma de comer o mundo e saboreá-lo, e mais do que isso, é como conseguiste manter essa alegria com tanto negrume que o mundo traz hoje. Estás sempre em movimento como se fosses vento e sei que já nem disso precisas, o teu brilho já foi apreciado. Quando te oiço a voz há nela a frescura de quem nunca envelheceu, de quem engoliu dores e triturou-as algures no coração, transformando-as em bandeiras e balões.

~CC~

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Nesse mundo já não estarei.

 

Sebastião da Gama ficava feliz quando sentia que a aula tinha sido boa e ele uma parte dessa obra. Acho que grande parte do que ele diz é de uma total actualidade. Sinto que a felicidade dele ocorre não apenas pelos alunos se demonstrarem capazes de aprender mas também seres capazes de bondade. Esta segunda parte é cada vez mais omissa, tenho sentido que os grupos são cada vez mais desavindos e competitivos, sem cola que os una.

Quando ontem lhes disse que tínhamos que negociar pois tinha seis locais para o desenvolvimento dos Projectos e muito provavelmente quereriam os mesmos, sabia o que me recomendariam. E assim foi: tirar à sorte. Recusei porque não podemos ceder à sorte a capacidade humana de ouvir, analisar e negociar. E foi difícil, não fora o frio, teria suado. Fiz recuos estratégicos para evitar obrigá-los ao que não queriam colocando outras e outras hipóteses. Por fim, aceitei que um dos lugares não lhes interessava mesmo. Iria tentar duas vagas no mesmo local. De repente um grupo disse que queria ir. Indaguei da razão do recuo. A resposta foi surpreendente: não queremos que fique triste. Que gentileza. Disse que não ficaria, que aceitava. Respondeu outro de outro grupo: queríamos ver como é que a professora negociava, se era capaz, se não nos obrigava. Dei uma gargalhada. Fiquei contente como o Sebastião ficava, tinha ali seres humanos.

Ninguém nunca me irá avaliar por isto, pelo suor da palavra, da negociação e do encontro. A avaliação incidirá em quantos artigos publiquei e se foram ou não em revistas internacionais, mais métrica, menos métrica, algo quo que para os estudantes não tem, nem nunca terá grande efeito. E é por isto que hoje abandonaria a carreira ou nem sequer a começaria, porque a essência está adulterada e perdida. 

Se calhar é mesmo melhor um tutor digital para cada aluno. Nesse mundo já não estarei.

~CC~