domingo, 1 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XX)

 




Até à Primavera os Domingos terão música, depois abrirei as janelas e salto por uma baixinha para as manhãs verdes. Espero trazer nos bolsos vestígios de flores a despontar.

Deixo-vos com estes murmúrios, vozes inspiradoras enchem as igrejas do calor que elas deviam sempre ter. 

~CC~




sábado, 31 de janeiro de 2026

Os choros de perto ecoam mais alto

 

O cansaço silencia a voz e toma-me o corpo como se fosse um boneco preso entre as suas mãos, não abre um espaço e é preciso a custo escavá-lo para que entre a música. Faltar ao Clube de Leitura quando estava a gostar do livro, custa-me. 

Mais me custa o silêncio das árvores tombadas pelas ruas e jardins, elas que não têm voz para nos apelar. Já as pessoas, a essas ouvimos os choros, os lamentos, os gemidos e ficamos ora tristes, ora inquietos, ora revoltados. Agora é aqui perto que choram, os choros de perto ecoam mais alto, cortam mais o coração.

Esta é uma ténue faixa de terra à beira do mar, a consciência que disso temos é diminuta, estamos tão mais impreparados quanto mais deixarmos crescer as palavras de grandiosidade que insuflam os egos do povo.

Volto a mim para absorver este pequeno risco de sol que entrou agora pela janela, talvez seja o único que vem visitar-me nestes próximos dias. 

~CC~


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Tricotar janelas

 O que se faz com um dia menos bom? Ou devo dizer mau? 

Embrulha-se devagar, rolando-o na sua sombra para o dia seguinte. Talvez o cinzento não largue ainda o dia seguinte, ainda te lembrarás por mais alguns de que a notícia má te atingiu no cerne do teu orgulho profissional. 

Mas virá uma pequena luz e sabes que a deves beber, afinal não é tao importante assim e ficará cada vez menos se souberes deslocar o peso para fora do teu coração. Sabes, em segredo, que só há três ou quatro coisas na vida realmente más. O que te custará realmente são as condolências, sobretudo se chegarem disfarçadas de sorrisos e terás que lhes dizer que ganhar e perder são coisas que a vida tem. E que há dia adiante e já estás a tricotar janelas.

~CC~

domingo, 25 de janeiro de 2026

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Da Botânica da paixão e do amor (II)

 

Há amor que nasce sem paixão.

Os nossos amigos são como um tapete de malmequeres, uma rede de apoio e conforto. Por vezes não conseguimos destacar nenhum deles. Mas por vezes há alguém que se evidencia. Aproxima-se mais, passamos mais tempo, sentimos que precisamos mais. Dessa necessidade maior, surge aqui e ali um toque mais prolongado, uma pele que parece precisar da outra, é uma mão que se dá, um abraço que se aperta e sentimos o corpo do outro. Às vezes duvidamos, hesitamos, temos medo de estragar aquela amizade. Mas aquele malmequer já não é igual, ganhou outra cor. E já não podemos mais ignorá-lo. Não houve paixão mas a transformação da amizade em amor. E o desejo chega com uma roupagem diferente da paixão, vem com a luz das coisas conhecidas, não com a incandescência das desconhecidas. Há amor sem incêndio, há amor que é lume e fica muito tempo a arder até termos a certeza que aquela temperatura é boa, é a do clima ameno das ilhas.

E se não correr bem, pode ficar menos um malmequer no nossa verde manta, isso pode custar, mas também custa não arriscar.

~CC~