sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Nove anos

 

Há nove anos fazia uma malinha para a cirurgia, supostamente a dita duraria 8 horas e a minha estadia 3 ou 4 dias. Mas foi mais, muito mais, é o que acontece quando as coisas correm mal. Antes já tinha perdido a cor e o cabelo e trazia sempre comigo aquele odor a quimioterapia e o cheiro apurado que nos torna permanentemente enjoados. Mas ainda não era um farrapo humano, só um mês depois.

Não obstante a data não me merecer grande atenção, é mais uma fortemente canibalizada pelo comércio, não somos imunes, nunca somos. De tal modo que, pelo facto da cirurgia ter acontecido no dia dos namorados, fez com que nunca mais me esquecesse da data. Não consigo assim localizar nesse dia outro amor que não seja o de uma mão que se agarrava à minha e o da família que esperou horas a fio por notícias que não chegavam e depois debandou certa que tudo tinha corrido bem. Aparentemente sim, só depois descambou. 

A minha filha dormiu comigo naquela noite, já no hospital. Quando penso nela naquela altura, é ainda numa adolescente, apesar dela já não o ser. Tinha ainda aquela inocência de estudante de medicina, parecia inabalável a sua perspectiva de que tudo seria simples e positivo. 

A força que encontramos para lutar pela vida só a sabe quem está perto da morte e não é ainda tempo de morrer. Só mais tarde, muto mais tarde nos tornamos fracos, quando já nos autorizamos a chorar. 

~CC~



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Afinal era simples

 

Estava a vê-lo intrigada há um bom bocado. Um homem talvez da minha idade, talvez mais velho. Não consegui distinguir-lhe as feições pois mantinha o capuz colocado. Estava parado a olhar para a bancada dos bolos de aniversário, quase com o nariz colado à vitrine. Eram bonitos os bolos, com muitas cores,  texturas e brilhos, também fico sempre maravilhada com essa arte de quem os confecciona. Mas tanto tempo?! Quereria um e não teria dinheiro? Planeava fazer ir pelos ares aquela vitrine? Estava com algum problema e não era capaz de sair dali, nem de se sentar?

Acabei o café e já não tinha tempo de prolongar mais a minha observação e muito menos de obter resposta para as minhas questões. A chuva intensa (ainda me lembro de quando não se saia de casa por causa dela) tinha subitamente parado. Saí, já ia na rua e instantaneamente voltei-me para trás, ali estava, mesmo perto de mim, o homem da vitrine. 

Ri-me de mim própria, afinal era simples. 

~CC~

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXI)

 


Tanto que gosto de Alcácer. Tanto que passeei naquela avenida com amores, amigos, sozinha. Impressionou-me tanto, não julguei possível. Na maior parte das vezes aquele caudal de rio preocupava-me, sempre a descer, às vezes parecia uma ribeira em vez do meu Sado. 

Mulheres de Alcácer, hoje uma das que tem um comércio na Avenida disse: está tudo estragado mas eu estou viva, para a semana haverá bolos. 

Hoje a homenagem possível, em formato de música, ao meu amado sul, olhar perdido em aves e arrozais.

~CC~




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Somos humanos, não deuses.

 

Uma docente competente, sempre pronta, sempre empenhada. Não lhe faltarão muitos anos para a reforma, não consigo exactamente calcular.

A reunião hoje era bem cedo, com entidades externas, eu uma delas, ainda que eu tenha (quase sempre) um estatuto hibrido. E ela não chegou. Não, ela chegou, cerca de uma hora e meia depois, aquela reunião em específico já tinha acabado. Um enorme desalento, uma tristeza na voz, mas sem desculpas tontas, simplesmente o despertador não tinha tocado e ela tinha adormecido, cansada. Penalizava-se, pedia perdão pela falha, estava inconsolável. Coloquei-lhe a mão no ombro e lembrei-a de que somos humanos, não deuses. Sorriu timidamente, agradeceu. Eu tenho receio é das pessoas que não falham ou que ocultam as suas falhas em mentiras e artifícios. 

Pensei em quanto tempo eu demorei a saber perdoar-me pelas minhas falhas, muitos anos certamente. Talvez ainda mais do que a perdoar as falhas dos outros. 

~CC~

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Entre flores

O homem das tatuagens de aspeto muito másculo, sempre de T-shirt, move-se entre flores. Tenho ideia de já o ter visto lá muitas vezes, mas só hoje reparei bem. Trata-se de um maravilhoso contraste.

Na pequena banca no meio do centro comercial mais periférico e pobre da cidade aquela banca está sempre colorida e com  flores que não parecem de estufa. 

Esta manhã escolheu três gérberas amarelas para o velhote de boina, mas não ficou contente, armou-as com três rosas vermelhas mescladas de amarelo e uns raminhos verdes. Era um ramo de encher o olho, exótico, muito vivo e tão contrastante com aquele a quem o vendia, que por momentos pensei que o recusasse. Mas o velhote fez um pequeno sorriso e levou-o. Não consegui visualizar a destinatária daquelas flores. Estou certa, porém, que para ela, por momentos, a chuva parou.

~CC~