Cetim azul, regresso aos pássaros.
Conheci esta espécie numa oficina que escolhi fazer sem saber bem o que seria, gosto tanto de ir por ai a descobrir coisas, lugares em que não sabem quem sou, tão pouco o que faço.
Era uma oficina de relação entre as artes plásticas e a natureza e dedicada à cor azul, mas com designação metafórica que não deixava adivinhar. Curiosamente eu também ia vestida de azul, as formadoras perguntaram se eu sabia, obviamente não. Tiraram-me fotos: eu azul entre as muitas coisas azuis que elas levaram.
Mas o meu fascínio focou-se nas histórias que contaram, entre elas a do pássaro Cetim azul, do qual nada sabia. Têm olhos azul violeta, a única coisa comum entre machos e fêmeas. Eles têm uma plumagem azul escura brilhante, elas penugem verde oliva, com algumas pontuações de cinzento.
Os machos constroem estruturas (caramanchão) com ramos e raminhos para o ritual de acasalamento, enfeitam-nos com tudo o que apanham de cor azul, seja natural ou artificial. Com o seu bico pontiagudo apanham penas, bagas e flores, mas também tampas e tampinhas, palhinhas e bocados de plástico azul. Cada um deles é um criador, não há duas estruturas iguais. Esta orgia de azul é uma oferta à fêmea, acompanhada de uma dança bastante ostensiva de chamamento em que há chilreios e assobios. Não sabemos se ela avalia a riqueza das tonalidades de azul, a intensidade do brilho, a estrutura da peça ou mesmo a qualidade da dança, mas se gosta entra. O amor, mesmo na natureza, tem o seu mistério. Elas escolhem. Mas eles estão disponíveis e esforçam-se na conquista. Mas sabemos que se corre bem, haverá pelo menos dois ovos grandes, às vezes três, e serão em tons de terra, dos quais sairão novos apreciadores de azul.
Os poetas são mestres nas palavras, mas poesia vive em nós e nas coisas, é preciso descobri-la e vivê-la.
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