A tristeza cobre-me por vezes o corpo com o seu manto de desconsolo. Esgravato-a para lhe dar nome. Mas foge, ora tem um nome, ora tem outro. Com essa ambiguidade, não posso dissecá-la no divã para a partir em bocadinhos que possa classificar e tratar com o remédio adequado. As coisas indistintas que habitam a tragédia particular de cada um escondem-se da racionalidade, mergulham noutras águas mais difíceis, trazê-las à tona é procurar noutro território, há que mudar de lanterna, de barbatanas, de âncora.
Quando consigo escutar o corpo com essas outras lentes e a tristeza que nele mora, fala-me da falta das ondas, da espuma, das conchas, do sol, diz-me que a tristeza é a falta prolongada desse afago doce e morno. Falo-lhe então dos braços como asas e da possibilidade que há neles de se tornarem pássaros e fazerem do vento esse afago, digo-lhe que não é já no mar, nem na terra, que existe a possibilidade de abrigo, que é outra a arte, já não a de procurar o lugar mas a de viver sem o lugar, apanhar a carícia em pleno ar, como se o corpo estivesse numa dança.
~CC~
A CCF descreve o estado de alma que pesa sobre o corpo, tratando o tédio e a angústia como mantos e névoas que a isolam do mundo.
ResponderEliminarProvavelmente estou errada, mas é a minha leitura do texto.
O leitor tem o direito de interpretar à sua maneira, é ainda mais comum quando a escrita é tudo menos factual e objetiva e se inscreve numa poética muito própria, passível de muitos sentidos. Agradeço e respeito-a.
EliminarBoa tarde
ResponderEliminarUma prosa poética, melancólica mas delicada, que nos leva a repensar os nossos estados de alma.
Quase um sussuro ou quicá um desabafo impregnado de nostalgia.
Muito a meu gosto!
Tenha uma semana abençoada, com saúde e paz.
Deixo um beijo.
:)
" Quase um sussuro"...que bonita forma de dizer o que por ali passa, sim, se o fosse dizer alto, era assim que faria. Um beijinho.
EliminarViver sem o lugar, sem as pessoas e até sem as coisas desejadas é o que mais fazemos. Sem essa arte quase desconhecida que a CC refere. Há quem a não consiga; gente que tem braços que são só braços e tanta vez nem o seu ser funcional conseguem activar. Acho eu que mentalmente voam; é fuga na mesma..
ResponderEliminarVivemos do que temos e do que não temos Bea, é como diz. Mas vivemos também da forma como encaramos o que não temos, como lidamos e trabalhamos isso em nós e compreendemos a parte que nos cabe nisso. A escrita é um espelho longo e fundo onde mergulho para me entender. E quem sabe... alguém também mergulha, alguém gosta, alguém aproveita, por isso partilho.
EliminarA tristeza, a melancolia, são bons estados de espírito para escrever. Veja-se o exemplo da sua crónica de hoje. Que apreciei.
ResponderEliminarUm abraço.
Não as procuro para matéria literária, é a vida que conduz a escrita e não o contrário. Tenho aliás para mim que escrever felicidade é ainda mais desafiante. Veja que o texto embrulha essa tristeza e solta-a com isso encontra a paz que permite respirar, ser afinal feliz à sua maneira. Um abraço
Eliminartodo o texto foge a um carpir de mágoa, mas caminha no sentir melancólico que tantas vezes nos atravessa.
ResponderEliminarmas seria ingratidão da minha parte não assinalar a beleza do texto e mais imperdoável seria não destacar a beleza destas palavras: "... fazerem do vento esse afago, digo-lhe que não é já no mar, nem na terra, que existe a possibilidade de abrigo, que é outra a arte, já não a de procurar o lugar mas a de viver sem o lugar, apanhar a carícia em pleno ar, como se o corpo estivesse numa dança."
Também eu lhe fico muito grata por vir até esta rua e pelo que aqui me deixa.
ResponderEliminarestava à espera que escrevesse 'não procurar o lugar, mas ser esse lugar', essa ideia tão batida hoje em dia... mas este texto espelhou bem o que se passa aqui dentro, também. obrigada :)
ResponderEliminarAi é diz-se isso Ana?!...estou sempre fora de moda:) As palavras correm por si próprias, é muito raro eu retocar um texto ou voltar a escrevê-lo. Obrigada eu, será algo próprio do dia em que nascemos? (A Ana é que sabe muito dessas coisas).
Eliminarnão é moda, CC, é um propósito :) têm que se cruzar muitas mais linhas no céu para que possamos coincidir :)
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