sexta-feira, 29 de maio de 2026

Sobre a fragilidade dos laços humanos

 

Desde que Bauman lançou o livro "O amor líquido", instalou-se, com alguma clareza, a similitude entre a sociedade de consumo e o modo como se encaram na modernidade as relações afetivas, vulgo consumir o produto até haver produto melhor. Escuto os mais criativos nomes para essas relações, há quem lhes chame leves, coloridas, descomprometidas, voláteis, nomes até bonitos para outros que possam soar mais feios. 

E, contudo, a mim só me parecem nomes para colocar a uma coisa: não há amor.

Quem ama sabe da cola que une, do abraço que protege, do desejo que assoma à pele, da vontade do outro que é semelhante à fome que nunca se sacia completamente. Sabe que o amor é uma prisão mas não é aprisionar o outro, é querê-lo livre perto de nós.

Prefiro os que amam, os que sabem que o amor acaba, os que sofrem porque o amor acaba, os que esperam que o amor volte, os que desistem do amor, os que não querem amar, os que querem amar.

Só os seres generosos amam e eu amo os seres generosos.

~CC~

10 comentários:

  1. Quer dizer, chegamos a um ponto em que se pode dizer "o amor é um desassossego".
    Um abraço.

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    1. Pode ser, mas também pode ser confiança e paz, saber que há alguém à nossa espera e nos acolhe. Um abraço

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    2. Pode ser, mas também pode ser confiança e paz, saber que há alguém à nossa espera e nos acolhe. Um abraço

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  2. Entendo e concordo plenamente com "só os seres generosos amam". Amar os seres generosos é bonito, mas existem amores desaustinados por seres de curta generosidade.
    O mundo sofre estreitezas de amor, afunilamentos sentimentais; adensa-se a volatilidade que a CC descreve tão poeticamente.
    Bom fim de semana:)

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    1. Creio que era Camões ou alguém que o interpretou que o amor significava sair do centro e colocar o outro no centro, é dessa generosidade que falo. Há porém que muitas coisas que se chamam amor e não são, são paixões, desejo de posse, etc
      Bom fds Bea.

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  3. Essa é uma síntese perfeita do pensamento de Zygmunt Bauman sobre a volatilidade dos afectos contemporâneos.

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    1. Tudo tão fácil, igual aos produtos da prateleira do supermercado, sempre prontos. Bom fds Teresa, desfrute Portugal.

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    2. Quando tudo está sempre pronto, perde-se a ligação com a origem das coisas e o esforço necessário para as construir.

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  4. Não conheço esse livro CC, mas deve ser na esteira da Insustentável Leveza do Ser. O amor não é permanente como era a rainha de Inglaterra e mesmo essa morreu.
    Como se diz e eu concordo, o amor é bom e eterno enquanto dura. Mas quando ele acaba, talvez pelas pequenas coisas, pequenas coisas que também o fizeram florir, o melhor é a separação. Dói, mas é o melhor, pois não há pior que viver uma relação de obrigação, de comodismo e de comodidade.
    O ser humano é muito complexo (pode ler-se complicado) e o amor, como produto humano, também.
    Nas relações (casamentos) muito duradouras, o amor transforma-se em outra coisa, chame-lhe hábito ou amizade, mas essa outra coisa não é necessariamente má. E isso sim, cola.
    Obrigado CC pelo tema, estive ausente mas reparo que tanto aqui como ali, as primavera inspirou-vos. Vou levar para ler. Tudo, tudinho.

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    1. Separação não tem mal, o amor também acaba e isso se amámos entristece, mas é uma tristeza natural que o tempo vai curar. Há também quem fique por amizade depois de uma relação de amor, se ambos aceitam e é claro, nada contra. Não é de uma, nem da outra coisa que este livro fala, mais de uma outra forma de viver relações afetivas. É um livro de sociologia Joaquim, não é ficção, mas bastante acessível ao público em geral. Espero que esteja bem e que tenham sido umas belas férias!

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