domingo, 1 de novembro de 2026

O bichinho que se infiltra na maçã

 

A maçã ainda permanece na árvore e no exterior ainda parece vermelha e bela. Mas o orifício pequenino mostra que já houve infiltração, por dentro o bichinho engorda roendo do interior e depois mais e mais, por fim já pouco sobrará de polpa e sumo. E tudo na invisibilidade de quem não se acautelou contra a praga. Depois, no corte da faca, a maçã revela que já não há nada no seu interior. Ou cai da árvore podre.

Já havia um zumbido claro de mosca e não se quis ouvir, pensando que iria para longe ou atacaria apenas algumas das maçãs mais vulneráveis. Ninguém pensou que de maçã em maçã todo o pomar corria risco. Mas corria, corremos.

~CC~


domingo, 25 de outubro de 2026

Três andamentos

 

UM, que árvores tão belas

Fui longe, é certo que não foi para conversar com as árvores. Mas fiquei perdida nelas, embevecida e deslumbrada. Carvalhos, castanheiros, plátanos e faias que crescem assim apenas no frio e na humidade das terras altas, deixam no ar, no chão, no céu as suas cores intensas e vibrantes e uma esperança de que vão vencer muitos incêndios e ameaças humanas e estarão lá para que outras gerações as olhem com o mesmo olhar embevecido que eu tenho.


DOIS, as pessoas ainda acolhem

O senhor perguntou, no átrio do hotel, se eu ia para o congresso e lhe dava boleia. Eu ia sim, mas numa carrinha com mais 8 pessoas, sendo que a carrinha levava apenas 9, e não era minha. Mas disse-lhe que esperasse, se não fosse o nosso lugar vazio, outros deveriam ter algum. Mas lá nos apertamos e o senhor coube, coube uma vez e muitas mais e até voltou connosco para Lisboa. E era de longe, lá de Salvador da Bahia, onde todo o mundo ficou convidado para ir. Aconteceu com ele e com mais alguns. Não perdemos algo que era muito nosso, deste grupo que se graduou em conjunto, em que determinada altura pareceu-me estar a desvanecer-se. Mas desta vez fomos esse grupo que acolhe, adopta e faz pontes. A academia não corroeu e roubou tudo o que tínhamos de bom, não deixámos ainda morrer o riso.

TRÊS, este país triste

Na volta, já esta manhã, as notícias que ouvi na rádio fizeram-me chorar. Receei ter que parar. É isto que a velhice nos traz, esta fragilidade, vi isto tal e qual na minha mãe. Mas limpei as lágrimas. Quando recebi os vídeos, alguns até de amigos que tiveram filhos ou outros familiares no Rossio e foram corridos à bastonada, já não chorava, sentia muita revolta. A desigualdade de tratamento com situações semelhantes é muito grande, lembro-me perfeitamente dos chefes de cozinha nas tendas em frente ao parlamento e de serem bem tratados, de se designar a iniciativa como uma ação de protesto e não como algo ilegal e atentatório. É um país triste este.

~CC~



quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Oxalá aconteça assim

 

Dias de tensão e tristeza.

(violência, roubos, gritos, vítimas...)

Imagens que não achávamos possíveis de acontecer nestas cidades europeias...

Dias de esperança e alegria.

(tendas, vozes, cartazes de papelão, música, assembleias, jovens que acordam...)

Imagens de Madrid, do Porto, de Lisboa...

O meu coração adere, o meu coração hesita, o meu coração abana, o meu coração abraça. Gostava que a revolta tomasse um corpo firme, unido, mas pacífico. Entendo, contudo, o grande cansaço dos privilégios, são muitos anos à espera da justiça. Tentam isolar o descontentamento e situá-lo nos extremos, cortando o elo com os mais moderados e com a população em geral.

Pior que tudo, a relação feita do descontentamento sobre a habitação e o custo de vida com a Imigração, inimaginável. 

O meu coração ainda está cheio de cravos vermelhos, desse romantismo que anima todos os protestos que são coros, canções e pessoas a sorrir, dessa força que faz caminho pela via poética de ser e estar. Oxalá aconteça assim, sonhar não custa.

~CC~


sábado, 17 de outubro de 2026

Conversas pequeninas (III)

 

Ele não disse assim mas foi o que quis dizer, que nesta escola era tudo meio louco, que dançávamos à volta do sobreiro, naquele extenso relvado que já foi verde. Confirmei, dançámos, contámos histórias, lemos poemas, alguns talvez tenham chorado.

E de repente deixei de o ouvir, a ele e a todos, os meus olhos enfiaram-se no coração daquela árvore que me conhece há 27 anos. O que ela sabe de mim. Olho-a e acho-a infinitamente bela, mais bonita do que alguma vez a vi, embora esteja mais frágil. 

Não me deixes, pensei. Não morras, não desapareças, não definhes.

E este pensamento mostrou-me o quanto este medo de perder as coisas, as pessoas que mais amo é o buraco negro em que tantas vezes caio. Nas outras sou eu própria a desparecer. 

É só um minuto entre mim e o sobreiro, depois alguém me chama. Chamam-me sempre por dois nomes, ou às vezes só um ou às vezes só o outro. Não sei como consigo sempre responder. E rir, como consigo sempre rir e nesse riso enfiar todos os buracos negros.

Gosto de sábados, gosto muito do sobreiro.

~CC~



quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Um homem gentil

 


Dirão dele tudo o que ele, sem pudor nem disfarces, afirmou na sua fala pausada, por vezes arfante, como quem não está habituada a paragens sem frio nem vento cortante. Mesmo assim, Óbidos é húmida numa noite de Verão, para ele provavelmente não.

Jon Fosse não fez os pedidos habituais, que não lhe fizessem esta ou aquela pergunta, não ficou sem responder, não hesitou entre perguntas tão difíceis como qual era o seu escritor preferido, sabendo que ao nomeá-lo não escolheria todos os outros. Deu respostas simples a perguntas complexas como o uso da sua língua materna, minoritária na Noruega, não disse que que a usava como bandeira ou para a defender, mas simplesmente porque era a sua. Cortou rente e direto na mística da inspiração alcoólica dos artistas, sem muitas análises sobre a sua anterior dependência e sobre a sua atual sobriedade, evidenciando que simplesmente escolheu a vida. Assumiu a timidez, a reserva, a melancolia, mas sorriu sempre, reconheci-lhe o sorriso dos tímidos. 

Só li um livro e vi uma peça de teatro. O meu conhecimento da obra está longe de ser aprofundado e nunca o será. Sou apenas alguém em visita. Mas alguém fascinado por uma obra nas antípodas da sua vida. Creio mesmo que só através dos livros poderia conhecer territórios como os que ele traz, pessoas como ele traz.

E também gostei muito de conhecer, em eventos dados à soberba, um homem gentil.

~CC~

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Este dia que acordou como amavas, cheio de sol

 

No último 9 de outubro, em 2025, escrevi "este dia que acordou cinzento". 

E hoje digo: este dia que acordou como amavas, cheio de sol.

Mas acordou sem ti e ao acordar sem ti, também é afinal um dia cinzento. De todo o amor que perdi e toda a perda do amor, seja de de que tipo for,  é uma dor inigualável por nos deixar mais sós, o teu amor é o que mais falta me faz. Talvez por o ter conhecido tão tardiamente, quando já por ele não esperava. Talvez por ser a recuperação daquele desamor mais básico que creio ter afetado a minha infância e adolescência. Talvez por conseguir, por fim, entender-te.

A noite, agitada, trouxe-me em sonhos um bebé do qual eu cuidava. Estranhos sinais. Quando cuidei de ti eras frágil mas não eras igual às crianças, inteiramente diferentes os cuidados dos quais os velhos necessitam. A única coisa igual é que uns e outros chamam pelas mães e nelas reconhecem essa porta que vai de um mundo ao outro e se agarram a essa memória básica como o chão do qual podem nascer flores.

~CC~


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Da lista das escritoras desconhecidas

 


Se outras e boas razões não houvesse para querer viver muitos anos, havia o prémio Nobel da Literatura.

Mais uma da lista das escritoras desconhecidas. Feliz por ser mulher, afinal são só 14% dos laureados, sendo que a população está mais ou menos dividida ao meio, alguma razão deve haver para a desproporcionalidade.

Se a saúde e a vida me permitirem, tenho que ler pelo menos uma coisa de cada pessoa que ganhou o prémio, com a possibilidade de deixar o livro a meio ( e já aconteceu com dois deles, um homem e uma mulher).

Para não ser ambição desmedida e meta concretizável, a começar desde os anos 60, porque foi nessa década que nasci.

Quem a leu, que me diz?

~CC~

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Conversas pequeninas (II)

 

Fui ver a árvore bebé Ginko Biloba, cresce vagorosamente e só tem outras espécies próximas de si, nenhuma igual a si. Como as pessoas, se comunica, tem que aprender a comunicar com quem é diferente, uma coisa que entre humanos parece cada vez mais difícil. Falo-lhe, encorajo-a, pouco importa se me ouve ou sabe que ali estou, só me importa o que lhe dou, um bocadinho de atenção e tempo. 

Uns dias depois fui à procura da tal rua onde há muitas árvores como ela, irmãs noutra parte da cidade. Não são gigantescas como me disseram, mas bem maiores. É bom ter alguém a quem falar do meu interesse por árvores. Curioso é que estão alinhadas lado a lado árvores macho e árvores fêmea e as fêmeas estavam repletas de frutos, muitos já caídos no chão, enquanto no outro do lado da fila nada havia no chão. Sábio quem o fez, dominava como funcionam as anemófilas. Incrível fenómeno de acasalamento no meio natural, usando  o vento, insectos e pássaros como transporte polinizador. O fruto tem um cheiro intenso e pouco agradável, o que o torna pouco apetecível para os animais, por isso estavam ali no chão sem um único carreiro de formigas por perto. O pólen é leve, perde-se a grandes distâncias, mas ali está a acontecer o que a natureza prevê, sem a interferência humana. Estragámos tanta coisa à nossa volta, mas também há pessoas capazes de alinhar árvores daquela forma, alguém que não sei quem é, nunca saberei.  Talvez o mundo viva mais de anónimos capazes e talentosos, os que o arruínam tornam-se mais conhecidos, o mal propaga-se de forma muito mais célere do que o bem.

Fui ver a árvore bebé Ginko Biloba, falei-lhe e ela não me respondeu, mas não precisei. Tantas vezes falamos com pessoas e não temos qualquer resposta.

~CC~



quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Veio pela manhã um cheirinho a goiaba

 

Havia na sala de pilates uma caixa de goiabas. A aula foi assim inebriante, um mergulho na infância e depois, muito mais tarde, na minha idade adulta. 

Elas diziam que cheirava ao seu Brasil, eu dizia que cheirava a Angola, mas bem vistas as coisas,  as goiabas eram portuguesas, um praticante simpático que as trouxe do quintal.

Trouxe uma da caixinha, estavam à disposição dos clientes. Agora estou em dúvida se a devo comer ou deixar o cheiro perdurar e perfumar a cozinha por mais uns dias. É uma luta entre perfume e sabor.

~CC~

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Conversas pequeninas (I)

 

O mar não é o mesmo, não tem o mesmo cheiro, o mesmo murmurar, tão pouco a mesma cor ou a mesma ondulação, não são os mesmos peixes, nem as mesmas conchas que dão à costa. Em cada lugar em que o sinto, sinto-me também diferente ao pé dele. 

Conversei com ele um pouco mais a sul e um pouco mais a norte. Nem num, nem no outro consegui mergulhar. Mas respirei-o e disse-lhe que não se esqueça de mim, agora que voltarei menos vezes, não rareio por falta de amor mas por não ter encontrado (ainda) a forma de o viver em pleno. 

Antecipo saudades. Venha, contudo, a chuva.

~CC~






terça-feira, 22 de setembro de 2026

Equinócios

Equinócio de Outono no Hemisfério Norte é simultaneamente dia do meu nascimento, não obstante ele ter acontecido no Hemisfério Sul. E no Hemisfério Sul começa a Primavera. Nesta constelacào de hemisférios e equinócios, aprecio a folha que fica dourada e o ovo que se parte para deixar sair uma avezinha.

~CC~

domingo, 20 de setembro de 2026

Defeitos Perfeitos (outra vez?!)

 

Ninguém respondeu à questão central que deixei e na qual fiquei a pensar após o espectáculo, no jogo de palavras que o Pina usa: defeito perfeito.

Também para mim é mais fácil pensar no dia perfeito. Mas talvez consiga juntá-los. O convite para ir dizer poesia em voz alta chegou através de um grupo habitual, embora não façamos isso muitas vezes e, muito menos de forma estruturada ou contínua. São coisas que acontecem, quase sempre encaixadas noutras, neste caso uma homenagem a uma escritora muito singular, dona de uma obra que funciona como um puzzle e que não é prosa nem poesia, não é ficção nem é auto ficção, creio que ela já estava muito à frente do seu tempo, até na forma como ligava os entes humanos e não humanos numa única cosmologia: Maria Gabriela Llansol. Era leitura da minha adolescência, nunca mais lá tinha voltado.

Um dia perfeito também pode ser aquele em que nos confrontamos com os nossos defeitos e os desafiamos. Primeiro, encostar a timidez a um canto. Mas isso é coisa que já me habituei a fazer para este tipo de eventos, verdade que sobretudo se de natureza técnica científica. Segundo, esquecer que toda a vida fui sopinha de massa, ou ainda melhor, saber que é possível melhorar isso, que o treino, a segurança, a vontade, tornam isso algo muito menos perceptível. E assim foi, achei que consegui tão bem, o meu defeito era um defeito tão perfeito que nem se notava. Depois veio o vídeo do evento e, claro, não era bem assim. 

Este defeito nunca desaparecerá completamente, é um defeito perfeito, colou-se a mim para sempre mas consigo pensar nele como um sotaque, incorporado e trabalhado, talvez seja apenas o meu modo de falar. Um defeito perfeito saiu à rua para um dia perfeito.

~CC~



quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Defeitos perfeitos

 

O que é um dia perfeito?

É um dia em que assistimos a um espetáculo maravilhoso, espantados por haver pessoas capazes de fazer coisas tão bonitas, em equilíbrio de forma e conteúdo.

Falsas Histórias Verdadeiras: Uma Pina Colagem - Teatro Nacional São João

(eu vi no CCB no último sábado, mas já tinha pensado ir ao Porto para o ver)

E um defeito perfeito? Será um dos que queremos disfarçar ou um do qual gostamos muito? Ou outra coisa qualquer? Arrisquem...

(a brincar de Manuel António Pina, porque era esse poeta que sabia chorar mas também rir...alguns dos seus poemas sabem a gelado e a gargalhadas).

~CC~

domingo, 13 de setembro de 2026

Fim de estação, coisas nada amadas

 

Não tenho pressa, é verdade, o Verão poderia só ir acabando devagarinho, diminuindo o calor, a quantidade de luz por dia e, sobretudo, a indolência que comporta. Mas reconheço que há coisas no Verão que não são nada interessantes e muito menos confortáveis, e com isto vou pedindo, ainda que com moderação, que venha lá o Outono. Deixo cinco coisas que não gosto, aposto que os amantes de Outono acrescentariam com afinco esta lista (cá vos espero), enquanto que os amantes do Verão por certo as consideram de relativa ou nenhuma importância (também podem dizer).

1º - Os preços sobem bastante, sobretudo em zonas turísticas e perto do mar, assinalo que paguei no Verão o dobro do preço do que paguei no Inverno por uma água com gaz. A fruta, mesmo aquela que é denominada como fruta da época, como por exemplo, os pêssegos, assumiu este ano valores como nunca tinha visto.

 2º - A hipermania de festas e festivais por todo o lado e a toda a hora, já não se aguenta. Antes convivíamos com festinhas de aldeia populares e dois ou três festivais de música de grande produção, agora já perdi a conta, a imaginação delirante tomou conta de tudo e de todos, desde as coisas mais alternativas, às artísticas, às gastronómicas, às de luz, cor, religião e afins, muitos afins...isto é uma moda que incomoda porque já não se consegue sossego em lado nenhum. Por causa disto, não fui a único festival ou festa este ano, e não é que algumas não me chamassem, mas já não suportava a ideia em si. Há demasiado ruído no Verão, nesse aspeto prefiro o silêncio do Inverno.

3º - A ideia que nos é transmitida que temos que estar felizes, quase tão irritante como a que temos que estar bonitos ou usar todos o mesmo. Olhei para os pés das mulheres este ano, mais de 50% tinham o mesmo tipo de sandálias, assim percebi que eram moda, nem é um modelo especialmente bonito nem torna os pés elegantes, mas é como se te dissessem que se não sabes que é aquilo que se calça estás fora da comunidade. As outras estações comportam, apesar de tudo, maior variabilidade, ou talvez andemos mais ocupados com outras coisas.

4º - Estes malditos golpes de calor, a temperatura não sobe ou desce gradualmente, há uma espécie de picos infernais a que se convencionou chamar onda. Não gosto do termo porque as ondas são bonitas. Deixam-nos não só com falta de ar como com a sensação que o mundo não dura muito mais e que ninguém quer seriamente saber disso.

5º - O lixo, consideravelmente em maior quantidade, mais desordenado e por vezes com um cheiro insuportável quando o calor abrasa nas cidades. Não me convenço que este sistema não tem que ser radicalmente alterado, não tenho soluções já feitas, mas estamos há demasiado tempo a fazer o mesmo da mesma forma, a questão é que sabemos perfeitamente que temos que diminuir a quantidade de lixo que produzimos mas o cidadão comum não sabe como. 

Que tal esta preparação para a mudança de Estação?! Chamo, contudo, devagarinho...porque o banho matinal, devidamente salgado e gelado, nesta Arrábida linda, ainda soube muito bem.

~CC~



quarta-feira, 9 de setembro de 2026

No escurinho do cinema (lá fora)

 

Às vezes vejo filmes com uma história algo linear e até expectável mas gosto por um pormenor ou por evidenciar esta ou aquela faceta humana, histórica ou social ou simplesmente pela beleza. África minha não é um filme linear?! É, e no entanto, como não gostar dele?! Também gosto bastante de documentários, quase todos.

Um filme pode ser bom, mas se mostra a violência de forma frontal e óbvia, mesmo que seja no retrato de uma realidade, afasta-me, não sei nem consigo lidar com a agonia que me provoca, ecoa no meu próprio corpo. Sim, fecho os olhos até o pior passar se o filme valer a pena, saio se assim não for.

Mas são os filmes estranhos, poéticos, ambíguos, com finais abertos que me apaixonam. Os que de alguma forma me desconcertam e não têm uma mensagem óbvia, aqueles que me deixam a pensar e ficam muito tempo comigo, levando-me a questionar, a procurar saber mais, ficam a pairar na minha vida muito tempo, sem que saiba explicar inteiramente aquele efeito.

Foi que aconteceu com  Amiga Silenciosa. Levei muito tempo a digerir o filme, a pensar nele, pior que isso, a investigar os gerânios e a Ginkgo Biloba, uma das poucas árvores que se reproduz de forma primitiva (ou seja, há um macho e uma fêmea). E não há dúvida, tenho uma pontinha de loucura. Imaginam-me a mapear os exemplares em Portugal?! A procurar o mais perto de mim? A ficar feliz porque existia e depois a procurá-lo num jardim com mais de cinquenta árvores? Como descobri-lo? Como é que alguém vai de árvore em árvore sem que alguém nos estranhe? Confesso que houve uns quantos olhares. E descobri-a, um exemplar na primeira infância da sua vida, atendendo a que pode durar entre 2000 e 3500 anos, ou seja há na terra exemplares que estão cá antes de Jesus Cristo...as folhas em leque são deslumbrantes e vivem todas as estações do ano.

Não contei a história do filme, pois não?! Acho que não a sei contar, a sinopse como sempre é redutora e eu não quero ser como a sinopse.

~CC~





quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Fim de estação, coisas amadas

 

É verdade que a despedida ainda não é efetiva, mas já se anuncia. Fiquei em choque ontem ao olhar uma montra cheia de camisas de manga comprida, casacos de lã e até uma gabardine. É matéria séria portanto, está a chegar o fim do Verão. Como os meses de Junho e de Julho me são roubados pelo trabalho, fica apenas Agosto e esta primeira semana de Setembro, é pouco. Sabe-me cada vez a menos. É que há coisas muito amadas que se tornam (quase) impossíveis noutras estações. Eis seis delas ou meia dúzia (gosto desta expressão).

1º- Tomar o banho da manhã no mar, é um primeiro banho de sal e água fresca, deixa-me contente para o resto do dia, ainda que por vezes mole, sonolenta e, sobretudo, preguiçosa (e que boa é a preguiça, dantes não sabia). Por vezes fui a primeira pessoa a tomar banho numa praia, há silêncio, as gaivotas ainda por ali andam e o mar é todo meu.

2º - Andar descalça em casa, é tão bom, parece-me que me liga à terra, ainda que seja apenas um apartamento, mas também gosto de pisar relva, terra e areia (ainda que com um bocadinho de receio da bicharada).

3º-  Ver cinema ao ar livre, com tecto de estrelas, lua e até um avião ou outro, isto liga-me à minha infância e às matinés a que o meu pai me levava, o meu primeiro cinema foi em Luanda, ao ar livre, chamava-me Miramar e parece que já não existe como tal.

4º - Comer gelados, e atenção que gelados é um cone que se leva pela rua e se saboreia, em manobra de constante equilíbrio, não algo que nos sentamos a comer num copo ou numa taça enfeitada.

5º- Ler só por prazer, apesar de tentar noutras épocas do ano e às vezes conseguir, não se compara ao desfrutar do Verão, sem pressas, sem culpas, sem objetivo.

6º -  Comer sem cozinhar, qualquer coisa se mistura e se torna comida, basta inventar um pouco entre conservas, queijos, saladas, fruta, ovos cozidos (que cozo à meia dúzia e deixo no frigorifico) às vezes uma refeição leva 5 minutos e é boa, sabe bem.

Não posso, porém, entristecer ou tudo será ainda mais difícil. Talvez me possa lembrar de seis coisas menos boas, será uma boa manobra para receber o Outono com menos fel.


~CC~






segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Pessoas que esperam o pôr do Sol

Há muito que queria conhecer a Escola da Bordeira em Aljezur, dinamizada pela Associação Lavrar o Mar. Um sonho antigo meu, encontrar uma dessas escolas primárias de Plano Centenário e torná-la um lugar de Cultura e Comunidade. Ver que outros o conseguem deixa-me feliz, mostra que era possível o que acalentei muitos anos. Tentei no lugar errado, na ocasião errada, já pouco importa.

O título do livro em discussão e elaboração gastronómica foi-me assaz apetitoso: Somos animais poéticos. Gostei bastante do ensaio. Fiz assim muitos quilómetros. Escapou-me, porém, alguma coisa, talvez a própria poesia.

E só a encontrei depois, na volta, enquanto esperava o por do sol. Reparei que não apenas eu o esperava, outros aguardavam pacientemente, contemplando, fotografando, filmando, conversando. Porque aguardamos que o sol se ponha no mar num entardecer azul de Verão? Porque somos animais poéticos.  Todos nós, os que aguardamos.



~CC~

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Neste cuidado reconheço-me inteira.

 

Deixei-me simplesmente ir nestas férias, sem grandes planos, nem projetos. A expetativa, tantas vezes gorada, de tirar delas um deslumbramento capaz de me recarregar baterias para um novo ano, deixou de existir. Fiz coisas vulgares, à medida do que me apetecia, e nem sequer me obriguei a ir onde supostamente seria expectável ir como à festa de teatro da minha cidade, eu que tanto amo essa arte e que costumo tudo fazer para conseguir estar presente quando ela acontece. A cabeça precisava de se esvaziar, não podia conter mais nada, nem sequer uma obra de arte de qualquer natureza ou mais um espetáculo. Percebi a exaustão a consumir-me e que ela me poderia arruinar e parei de ver, de ir, de planear, de querer. Li pouco, apenas um ensaio e comecei um outro livro. Vi dois ou três filmes. Depositei energia, contudo, em coisas que costumo detestar, como arrumações e limpezas. Em caminhar sem plano nem destino.

E precisava de estar mais tempo assim a flutuar, noto isso a cada tentativa de regresso às tarefas que se acumulam à minha espera, faço-as muito devagar, resistindo. Nem a chuva ajudou.

E depois ele pediu ajuda, e só não farei por um amigo algo se não puder mesmo. Acabei assim nesta cidade tão mais a norte, à qual trouxe tantas vezes a minha mãe, no mesmo hospital ao qual a acompanhei regularmente para fazer a injeção que durante uns bons anos lhe salvou a visão. Nada previsto, nada suposto, nem sabia onde iria ficar, ele programou, não eu, uma raridade, toda a vida eu planeei tudo, excepção às últimas férias com a minha filha onde as coisas já não eram, nem são bem assim.

Ao mesmo tempo isto devolveu-me a mim, ainda sou eu, aquela que gosta de cuidar e tem jeito para o fazer, não tanto pelo cuidado do corpo do outro, mas pela capacidade de escuta, de fala, de humor. Alguém que acompanha, alguém que é companhia, sou capaz, ainda sou capaz. Neste cuidado reconheço-me inteira.

~CC~




terça-feira, 25 de agosto de 2026

Há sempre alguém que nos faz rir (III)

 

Eis o que não esperamos que um vendedor do Leroy Merlin nos pergunte, depois de nos dizer que não tem, nem é capaz de executar o nosso pedido, não obstante toda uma grande encenação com hora marcada e comercial designado.

- Já foram ao Ikea?

~CC~

domingo, 23 de agosto de 2026

Domingo de Saudade

 

Não me lembro dela festejar os anos, a não ser na época mais tardia da sua vida, talvez nos últimos vinte anos.

Não sei se era exatamente assim com todos os adultos das famílias pobres, festejar anos com bolo e parabéns em voz alta era uma coisa de crianças, só o fazíamos até à adolescência. 

Depois ela tornou-se um pouco menos pobre ou fomos nós que nos tornámos e com isso a tornámos também. Envelheceu, enterneceu-se, tornou-se mais frágil, mais doce. Com isso vieram as festas de anos, por fim, cada ano era também uma vitória sobre a morte. Queria sempre ficar bonita, sair, bolo de anos e prendas, queria festa e queria família. Tive duas mães, uma até aos 60 e outra que foi nascendo gradualmente dessa, cada vez mais diferente da anterior. Claro que transportava algumas coisas, a acutilância, a ausência de rodeios, o gosto pela beleza, o desprezo por quem não se cuidava, a vontade de viver, sempre ela, cada vez mais forte.

Hoje é Domingo de saudade, faria 98 anos.

~CC~