domingo, 26 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XIX)

 

Bem sei que é estranho acabar em dezanove, normalmente o fim de uma rubrica acerta com um número par. Os passeios de Domingo iniciaram-se com a Primavera e terminam com o estio, este tempo seco e quente que nos amarra a um lugar outro e nos desata das teias que nos prendem aos lugares virtuais. Durmo mal no Verão, em contrapartida leio livros em papel e esqueço-me de quase tudo, deixo-me flutuar. Não sei se virei, se estarei ausente, prefiro deixar-me ir por esse veraneio, como se tivesse uma 125 azul. 

Este é oficialmente o último passeio de Domingo, por muito que eu queira refazê-los sempre, até quando a chuva chegar. Mas provavelmente outras vontades acontecerão, talvez música, livros ou cinema, ou apenas estados do corpo ou estadias da alma. É em setembro que tudo recomeça, mesmo que aqui venha antes.

Este passeio de domingo foi um revisitar do que é a família construída, 44 anos de amizade. Para combinar com isso uma praia de família, à moda antiga, com a barraquinha às riscas e o gelado na esplanada (quem adivinha?)



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A garganta rouca do tanto que tínhamos para dizer um ao outro, já não nos víamos há 3 anos. Entre nós nunca houve nada escondido e tudo é esquartejado na mesa de operações, sobretudo as nossas almas doridas e os nossos corpos com esperança de vida. Apontamos os erros um ao outro com sublime cortesia, noutros tempos usávamos a navalha, e somos gentis nos conselhos que damos, na expetativa de que o outro se os seguir cure com sabedoria as feridas que expõe.

~CC~

quarta-feira, 22 de julho de 2026

"Se me disseres que morreste não acredito, não posso" (Adeus Luís Represas)

 

Cantou a luta, o protesto e o desalento...

Mas para nós, as miúdas dos anos 80, ele foi o nosso John Lennon e os Trovante os nossos Beatles. Quando o Represas cantava canções de amor havia um arrepio coletivo no feminino e ia dos 15 aos 25. Os nossos rapazes não escondiam uma pontinha de ciúme e embora nos dessem a mão e até um beijo, não entoavam com tanto entusiasmo como nós as canções. Sabíamos várias de cor e os concertos dos Trovante foram a primeira grande festa, a vontade de estar quanto mais perto do palco melhor pois eram todos lindos, mas um deles, com aquela voz meiga, era o mais lindo. Desfiz-me algumas vezes da minha timidez para entoar a preceito, certa de que no coro das amigas, mal se ouviria o tom fora de tom.

Tudo isto se passou antes dos mil festivais que há agora e da respetiva banalização das vestimentas a levar e das pulseirinhas, antes dos bilhetes serem escandalosamente caros. 

E dentro do possível o Luís Represas soube reinventar-se, não perdeu o sorriso, não azedou. Mas tudo já tinha mudado e eu também, por isso não fui aos últimos concertos, não percebi que provavelmente eram uma despedida. Saudosismo também não é o meu forte.

Finalmente alguém disse que morreu de cancro e não de doença prolongada, um termo que detesto, até porque o cancro pode ser fulminante. 

O sentimento matinal foi igual ao da canção (Sorriso) que mais amo dos Trovante, "não acredito, não posso". Certo é que envelheci outra vez, com ele também desparece um bocadinho da minha adolescência. Mas só me apetece dizer: Obrigada pelas borboletas. 

~CC~




domingo, 19 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVIII)

 

Hoje seria passeio de protesto, estava planeado.


 

Porém a dor de cabeça, seguida de dores articulares intensas, ligeira dor de garganta e muito cansaço instalaram-se como algo que não consigo designar correctamente e espero que passe nos 3/5 dias estipulados para não ter que procurar profissional específico para algo tão pouco específico. 

O meu coração esteve lá.

~CC~



 


sábado, 18 de julho de 2026

Seis pistácios e um gelado

 

Modos de nos soerguermos das nossas sombras e cansaços, cada um tem os seus, e quando não, somos sugados mais rapidamente para as zonas obscuras que estão sempre à nossa espera, como pequenos monstros.

O condutor de autocarro que tinha um saquinho de pistácios junto a si e descascava um para comer a cada paragem, a cada sinal vermelho, estou certa que não tinha fome. Fazia-o com delicadeza e precisão sem falhar um único. Depois de uns seis pistácios, bebia um pouco de água da sua garrafa térmica. Era o modo de superar o dia longo, o trânsito, a separação entre e todos nós por aquela parede vidrada, talvez mesmo a ansiedade da profissão.

Eu às vezes saio de casa apenas para comer um gelado e faço-o devagar, porque não é o gelado que importa, mas o modo como o saboreio e como cada pedacinho  de açúcar com sabor de fruta é um consolo. Entre mim e o condutor que come pistácios há a vaga semelhança de sermos pessoas que aliviam o peso que têm algumas obrigações, usando o sentido do paladar para evitar lamentos em excesso e projeções em terceiras pessoas.

~CC~

domingo, 12 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVII)

 

No último dia de estadia em Barcelona, consegui finalmente visitar o mercado mais conhecido da cidade. A variedade e tipologia dos presuntos e dos múltiplos fritos é o seu traço cultural mais original, ilustrando de forma clara que os mercados resistem à globalização, não obstante uma ou duas bancas de frutos secos iguais às que se encontram em todo o lado.

Entrar no mercado da minha cidade é assim viajar por si só na história, metade do espaço é ocupado pelas bancas de peixe e é lá que se respira o que é esta pertença ao lugar. É também prova de que é possível que o deslumbramento não seja uma coisa volátil e exclusiva da primeira vez, que possa acontecer uma e outra vez, sempre que levamos os olhos da alma a passear. Saio com os sacos repletos de beleza e os bolsos mais vazios mas também com um contentamento que estou longe de sentir quando saio de um supermercado. E nem me importo com os dez minutos que esperei porque o vendedor discorreu longamente sobre o tamanho descomunal das cerejas com o casal que estava à minha frente, apenas aguçou a minha vontade de as provar.

Poderão considerar que isto não é bem um passeio, mas se caminho, apanho sol, vejo cores e trago renovação e ainda resisto, isto deve se poder classificar nesta categoria. Perto de vós há certamente um mercado, não o deixem morrer, nem transformar-se num gigantesco recinto de restaurantes e casas de comida de uma cadeia qualquer,  uma coisa é poder comprar-se um acepipe, outra é transformar todos os mercados à imagem do Mercado da Ribeira (uma mostra de bancas de chef promovida por uma revista de Turismo).

~CC~


sexta-feira, 10 de julho de 2026

As meninas Gaudi

 

É verdade que as construções de Gaudi são abraço intenso entre arte e natureza, um desafio permanente ao equilíbrio das formas e uma ode às cores do universo, uma oração à capacidade onírica, um conto de fadas, ogres e de monstros entrelaçados nos nossos sonhos, um retrato de como as emoções circulam em nós. Tudo em absoluto contraste com a cama modesta e minimalista em que o arquitecto dormia e com o abrigo em que se escondeu, por fim, na Sagrada Família, em fusão com a excentricidade do templo que queria erguer. Infelizmente os apontamentos imersivos, feitos à medida do turista, com poesia fácil e efeitos de inteligência artificial,  estragam o que queremos ver e sentir só por nós. 

Assim, a minha imersão mais bela e genuína aconteceu com duas meninas, gémeas, saídas do universo Gaudim, banhando-se na praia, em frente à Barcelonete. Vestidas como dois seres fantásticos, fatos de banho rosa, azul e branco, com brilho ligeiro, toucas cor de rosa com longa crista de bicho, óculos de mergulho pretos, elas não eram bem seres humanos, mas quase animais marinhos. As meninas entravam na água, mergulhavam e emergiam em longos bailados exóticos, enquanto a jovem mãe (suponho) as fotografava com desvelo. Quando a mãe desistiu das fotografias, a festa tornou-se mais livre, mais surpreendente e mais autêntica, contudo nenhuma delas se livrou da vestimenta, como se a tivessem incorporado no seu modo de ser. Entre os seus mergulhos e as ondas do muro do pátio principal do parque Guel tudo se alinhava nessa homenagem ao mediterrâneo que eu própria senti pela primeira vez.

~CC~ 

domingo, 5 de julho de 2026

Passeio de Domingo (XVI)

Desta vez o voo, aquele desejo de não ir. E ao mesmo tempo de ir.

Depois o deslumbramento de uma nova cidade, de um outro país. Barcelona, quase quarenta anos depois.

É uma cidade vibrante e resistente e os habitantes querem que ela lhes pertença. Pela segunda vez não consegui bilhetes para a Sagrada família, pela segunda vez não me importei, o que eu mais gosto nos lugares são os lados avessos ou os monumentos incríveis que estão nos rodapés dos guias turísticos. 

Amanhã o roteiro desvia-se para a universidade, deve ser também um coração que bate com força mas não venho com a capacidade de me entregar o suficiente a essa vibração.

Mas a cidade e a companhia lavaram-me de outros cansaços. Doem-me os pés de tanto caminhar e os olhos estão cheios de beleza, metade da pele já se renovou, a outra metade é uma obra demorada.

~CC~

terça-feira, 30 de junho de 2026

Largar a pele

 

Hoje, um estudante, numa troca de mensagens, acabou a sua comunicação com um "ah, ah, veja se descansa". Não faz o estilo bom aluno, é reservado, às vezes parece não estar lá, e vive num mundo muito particular, do qual sai com esforço para interagir connosco, mas quando o faz é normalmente acertado, e muitas vezes até contesta as coisas. Achei, por isso, muita graça que ele terminasse a comunicação comigo assim, não apenas pela audácia mas pelo conhecimento que parece ter revelado sobre um momento muito particular da minha vida.

É difícil explicar-vos porque é difícil explicar a mim própria, hesito em dar nome ao que se tem atravessado dentro de mim. Numa visão optimista, considero que é apenas o cansaço do final de um ano letivo, numa visão pessimista tendo a pensar que há algo mais. Às vezes tento a explicação do cansaço pela biologia, devo estar com uma anemia como aqui há alguns anos em que mal conseguia subir uma escada, mas depois acho que não é, ou não é apenas. Aconteceu-me no outro dia algo absolutamente estranho, estavam muitas pessoas sentadas à mesa, muito animadas e a falar e a opinar pelos cotovelos. E eu não conseguia dizer nada, não conseguia que me saísse da boca uma única palavra, como se de repente tivesse ficado muda. E só desejava que todos se calassem para eu poder ouvir os pássaros. Levantei-me e fui até um sítio em que não podia ouvir a voz humana, fiquei lá um bom bocado, mas não completamente tranquila, com receio que viessem à minha procura. Era outra vez a adolescente que se escondia do mundo, como era isso possível?!  Eu, em geral, costumo descrever-me como alguém que gosta muito de pessoas, achava mesmo que era o traço mais consistente da minha personalidade.

Sou neste momento um liquido com demasiado sal e/ou demasiado açúcar, a densidade do que em mim circula está a fazer-me implodir, não consigo conter mais informação, mesmo quando ela é boa e preciosa, necessito de uma espécie de purga para voltar a ser água límpida, transparente. Acontecem coisas demais ou sou eu que as faço acontecer em excesso. Se calhar é de mim própria que estou cansada e tenho que largar a pele como fazem os bichos.

~CC~




domingo, 28 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XV)

 

A de Alentejo, A de Alvito.

Todo o cante inteiro, o que ainda nasce na Taberna da Associação.

O Alentejo que ainda não morreu, não cedeu, não se vergou, o que não está intocado mas mexe como um corpo vivo. Uma parte igual, uma parte reinventada, uma vontade tão grande das pessoas em permanecer e fazer renascer, umas que nasceram lá a primeira vez, outras que nasceram lá a segunda vez.

Aprendi tanto sobre o lugar, desde a história, à arqueologia, à comida e ao cante, que poderia encher muitas e muitas páginas, sei que voltarei às palavras que de lá trago pois é demasiada beleza para guardar só para mim. Pensava saborear o vagar mas só provei o pulsar e cheguei exausta do muito que ouvi e vi porque escutar com todos os poros é intenso. Há coisas que parecem uma coisa e depois são outra e segredos que só se sabem quando se priva com quem os quer partilhar. Diria até como legenda para as três fotos que vos deixo: uma gruta não é uma gruta e uma ermida não é uma ermida e alguém que descansa pode não estar a descansar.


 






~CC~

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Tirar apenas metade do mel

 


Hoje, ontem, amanhã, sempre com os que sofrem, dores que estão lá e podiam estar aqui. Sabemos que a terra tem as suas iras, manhas e rugidos, mas nós não queremos saber ou ouvir e por isso colocamo-nos à sua mercê, com habitações em leitos de cheia, falhas sísmicas, falésias e barrancos de terras instáveis. Esgotamo-la e com isso nos vamos esgotando também. O azar existe, mas não é apenas o azar que faz os mortos nas catástrofes, são anos e anos de indiferença e de ganância.

Neste filme lindíssimo, a mulher sabe que só deve tirar metade do mel e deixar a outra metade para que as abelhas se alimentem. 


 


Vivem anos nesse equilíbrio mágico. Mas um dia chega alguém que a querendo imitar não o consegue fazer, não tem a sabedoria ancestral e não ouve quem a tem. Torna-se presa fácil do primeiro comerciante que quer vender mais e mais. E quebra o equilíbrio, destrói a fonte e o recurso e com isso chega a fome, a tristeza. 

Aguentei o frio do terraço (este terraço do Cineteatro S. João arrefece até nas noites mais quentes) para saborear um filme que nem julguei próprio e possível para pessoas que têm medo de abelhas. 

~CC~




domingo, 21 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XIV)

 


São 19km a partir da estrada principal, mas se tomar essa estrada sei duas coisas. Uma é que terei que ir mesmo muito devagar, contornando os buracos e as crateras. Outra é que dada a velocidade lenta, demorarei o dobro do tempo do que seria expectável. Como recompensa terei a paisagem verde dos arrozais, as cegonhas a debicar minhocas, os pinheiros mansos verdíssimos em diversos tamanhos, uns a despontar e outros já a contarem vidas antigas. Cruzarei apenas dois ou três carros neste caminho. E chegarei pelo lado mais improvável à vila que uma associação dedicada à leitura* decidiu colocar no mapa, assinalando em murais e árvores todos os nomes dos escritores que por lá passam a falar da sua obra, num desfile de temas que os agrupa de forma interessante. Já não temos apenas Óbidos, agora temos a Cabrela. O tempo dirá se apenas teremos um desfile de glórias que mercê de boas doses de conhecimentos no meio e saber de relações públicas consegue atrair públicos de vilas e cidades próximas, ou se mais alguma coisa se enraizará por dentro desta vila. Oxalá se trate de diálogo e de imersão e cresça como um rizoma, sustentando e sustentável.

Hoje houve um piano ao final da tarde, muito bonito o relvado intergeracional e o bilhete, ainda assim, acessível. Foi um bom modo de comemorar o dia mais longo do ano, mas ao mesmo tempo que é o mais luminoso, anunciando o começo do verão, mas também já o leve declínio que virá dia a dia roubar-nos um pouco de luz. Mas é assim quando nos sentimos felizes, temos receio que acabe ou não volte e apetece-nos emoldurar para desfrutar nos dias mais sombrios.



~CC~

* Lar, doce ler.


sexta-feira, 19 de junho de 2026

Todo o amor é atenção

 


Ele disse duas vezes: tem que ser aqueles queques com nozes, a minha mulher só gosta desses...e quando veio embrulhado, repetiu bem alto para todos nós que lhe levava um de surpresa, sorriso na cara: é para a minha mulher.

Tenho para mim que um dos sinais do amor é esse apontar do que o outro gosta e que, quando se esboroa, é como se se perdesse também a memória dos pequenos gestos que podem fazer o outro feliz. Mas nem é preciso que seja amor entre homem e mulher, de forma genérica todo o amor é atenção. Lembro-me do chocolate que a minha mãe gostava mais, de lhe levar várias vezes esse bocadinho de felicidade, enquanto o pode comer.

Na fila do supermercado o senhor, por sinal bem obeso, elogiou a funcionária: cada vez mais elegante! Ela sorriu meio envergonhada, e notando a mulher ao lado dele disse: a sua mulher também está bem. Ao que o homem respondeu: não, ela está cada vez mais gorda! Por mim, teria ali acabado um casamento. Mas há sinais semelhantes, não tão ostensivos, entre muitos casais. A falta constante de atenção, de elogio, de consolo, é isto a morte do amor.

Os gestos que guardamos são estes pequenos, sinais de que o outro nos vê.

~CC~


domingo, 14 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XIII)

 

Por vezes a agenda contrai o Domingo e o desejo de expansão esbarra nas tarefas inadiáveis, no cansaço da semana e na antevisão de muita gente em lugares desejados. Sobra-nos o que é próximo, seguro e familiar. Certos lugares são mesmo como a extensão da minha casa e assemelham-se assim à voltinha de Domingo da qual a minha mãe falava com uma certa tristeza, ela a querer ver mundo e ele a mostrar-lhe o quintal. Conforto-me mais do que ela porque sei que depois haverá uma volta maior, ela passava a vida à espera desse alargar do círculo.

Este largo é o dos meus lugares favoritos e esta janela abre-se para outro deles, acresce que em junho há cinema naquele terraço, já lá vi belíssimos filmes, por vezes resistindo a um frio de rachar. Este ano o programa é curtinho, e já vi pelos menos um dos deles (o espantoso Valor Sentimental), mas recomendo-vos estes lugares que no Verão nos oferecem um tecto debaixo das estrelas. 

Fiquei quase no meu sofá, se bem que um domingo em que me deixe ficar literalmente nele só pode ser por duas razões: doença ou tempestade. 

~CC~





quarta-feira, 10 de junho de 2026

Hei-de voltar para comprar um fato de banho

 

Com a idade ganhamos manias, pequenas coisas que nunca pensámos condizer connosco. Eu gosto de comprar soutiens sempre na mesma loja e preferencialmente do mesmo feitio e da mesma marca, desde que me senti confortável com aqueles nunca mais quis outros. Mas estou sempre em pânico que a loja feche, a senhora já é idosa, é uma retrosaria pequena, na baixa da cidade, não é fácil lá ir. Já procurei noutras lojas e não encontrei.

Finalmente, num pequeno rasgo de tempo, consigo lá ir. Quando chego e vejo a loja ainda aberta, sinto uma grande alegria e desta vez exprimi-o alto: ah, ainda bem que não fechou! Ora a senhora, para quem eu não olhei bem ao entrar, começou a lacrimejar. Só depois reparei que estava toda de preto e que tinha encarado a minha frase como se eu soubesse de tudo. Tinha perdido o filho em quinze dias, quando assim é, já sabemos que é o maldito pâncreas que, sem avisar, resolve claudicar. Lá lhe disse que não sabia, que tinha só receio porque as lojas da baixa estão sempre a fechar. Fiquei ali de mão dada com a senhora, a ouvir a sua história, marido e filho perdidos para a mesma doença que, no caso específico, dizem não ser hereditária. Já nem sabia como voltar à compra do soutien. Optei antes por lhe contar em versão resumida minha história para ouvir dela aquelas palavras que me fazem sempre muito bem, que não parecia nada, que ninguém diria. Mas o que importava mesmo era elogiá-la, estar ali aos 82 anos depois de ter perdido dois entes tão queridos, isso é que era mesmo heroico. Estamos vivas, conclui: a minha mão na mão dela. 

E por fim: hei-de voltar, disse-lhe, para ver os fatos de banho, mas hoje só queria mesmo um soutien daqueles...e ela, pois claro, pois claro, sabia perfeitamente o que eu queria...2 minutos tinha o soutien, provavelmente também uma multa de estacionamento, mas que importa, dei por bem gastos os 45m que lá passei.

~CC~


domingo, 7 de junho de 2026

Passeio de Domingo (XII)

 

Querida Sophia, da Lagos que amaste sobra a tonalidade cristalina daquele azul do mar, creio que essa será mais ou menos imune à fúria do lucro que assolou este nosso Algarve amado.

Querido Zeca, dos Índios da meia praia e da sua luta pela habitação digna, sobram poucas casitas, mas cresceram os hotéis e apartamentos de praia, creio que na sombra dos teus olhos já morava esta certeza.

Querida Lídia, por aqui o vento continua a assobiar nas gruas, porque há ainda gruas a ocupar pequenos terrenos que sobraram e que depressa se tornarão novos hotéis como se fossem necessários mais. Ainda assim, valha-nos o vento, o seu assobio é como se fosse a revolta da própria natureza.

Falo convosco como se vos conhecesse porque o vosso olhar é uma companhia, é como se nunca estivesse realmente sozinha.

De Lagos posso dizer-vos que pouco sobra, por todo o lado é só Albufeira, é essa ferocidade sem nome que atinge todos os lugares tornando as lojas, os cafés, até os vendedores de rua, tudo e todos são iguais. Núcleos de resistência existem, há que alimentá-los.

E procurar o que ainda conta histórias, mesmo que histórias tristes, não para as revisitar na sua tristeza mas porque é preciso transportar memória para o futuro. Não deixem de passar por aqui: Rota da Escravatura – Museu de Lagos.

Escavando, encontramos tesouros. Também eu tive aqui um: uma casa, pertença da mana mais velha, tinha muito encanto, uma luz que se abria para encontrar o azul, sempre achei que um dia moraria lá. Mas o destino foi outro.

~CC~

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Breves do Sul (II)

 

Para entrar no mar, neste sul, há uma faixa de pedras e pedrinhas a ultrapassar. Não há conchas, não sei o que lhes aconteceu. Não é muito agradável pisá-las, mas também não ferem os pés. Mas há ali uma clareira, talvez de uns 3 metros, sem qualquer pedra, aproximo-me para ver. Alguém as apanhou e juntou todas num monte, obra de paciência. 

Não vi nada nem ninguém, por isso tento imaginar quem seria e porque razão o fez. Hesito entre o altruísmo e a ociosidade, e por momentos foge-me o pensamento para amor. Imaginem alguém a tirar as pedras do caminho do seu amado ou amada para que pudesse entrar em pleno na água, sem o mínimo desconforto. Também poderia ser amor filial, uma mãe e um pai, que no seu desvelo, quisessem que a criança brincasse sem tropeços na orla do mar. 

Tendo, porém, a considerar a ociosidade da praia um aspeto mais provável, há nesta altura muitas pessoas que parecem estar aposentadas e que poderão encontrar labor alternativo, preenchendo o seu tempo nas artes efêmeras da areia, das pedras, das conchas, pessoas engenhosas. Ou alguém de coração grande, criando um corredor para uma entrada na água mais veloz ou mais tranquila, sem destinatário específico.

Estão ali as pedras e não me contam nada, por mais que lhes pergunte.

~CC~

terça-feira, 2 de junho de 2026

Breves do Sul (I)

 

Vejo-o ao longe, é branco e azul, belo carrinho de bolas de berlim. Atrás dele vem uma senhora, talvez entre os 50 e os 60 anos, por certo não é nova no ofício, até porque o carrinho ostenta o seu nome em versão de diminuitivo, creio que é um marketing doce muito antigo, quando esse nome talvez nem se desse às coisas. A primeira paragem é junto ao nadador salvador, penso se ele, estando em funções, irá inaugurar assim a sua manhã, talvez não tenha tomado o pequeno almoço.

Mas não, apenas se cumprimentam efusivamente, dois beijinhos e um abraço. Mais um Verão, dizem ambos alto e riem assim juntos, em pleno reencontro. 

~CC~

domingo, 31 de maio de 2026

Passeio de Domingo (XI)

 

Já vos falei da estrada para o Sul?!

Há nela três nuances de paisagem. Até Grândola, os pinheiros mais pequenos ou mais altos e o terreno arenoso combinam com a proximidade do mar, não obstante ali nada se adivinhar e há tantos pinheiros novos este ano, devo ter sido do Inverno chuvoso. Depois de Grândola e até Aljustrel, é planície, com o aproximar do Verão e o calor das últimas semanas, desapareceram as flores amarelas e roxas que vi em Fevereiro,  aquelas altas giestas de encher os olhos. Nesse ondular suave e sereno de cor dourada, sobressaem aqui e ali os sobreiros, chaparros que abrigam pessoas e animais, árvores casa. Depois de Ajustrel a paisagem é serrana, crescem as curvas, os barrancos, há mais arbustos, mais mato. 

Contei apenas dois rios, um deles, o Sado que se repete duas vezes e numa delas diz em letras pequeninas Sul, fico sem saber se o que corre na minha terra é Norte. Há várias ribeiras, mas nunca nelas vi correr água, apetece-me segui-las, ir ver se algures mais adiante a ribeira do Roxo e a da Messajana são mais do que meras tabuletas que se anunciam na estrada, lavar o rosto nelas. Mais tarde diria: era quase Verão e fui lavar os olhos na Ribeira do Roxo. Estes desvios, queria ter tempo para eles, imagino que um dia sigo estas vontades, perco mapas e destinos. As cegonhas também parecem já ter partido, não as vejo ao longo de todo o caminho.

Ao Km 141 há um vislumbre de um novo Alentejo, cheira intensamente a azeitona e adivinham-se os olivais intensivos. Reconheço este cheiro, já lá vão uns bons anos que se atravessa no meu atravessar.

A estrada para o Sul não é um passeio, é um anunciar de passeios, ou mesmo um estado de espírito, e a sê-lo, é algo que combina com o canto das cigarras. Uma metade de mim já está com elas, a outra não pode.

~CC~