segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Coragem (I)


É linda sim, é linda porque tem esta coragem.


Roubei à Sem se Ver (mas nestes tempos de indignação já deve ser viral)

~CC~

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Mulheres vagueando


Tenho pensado nela.
 
Na mulher dentro do carro a tricotar na última sexta feira, pelas 9 da manhã. A mulher na mesma praceta em que os homens bebem minis à conta do que lhes vai saindo nas raspadinhas. Eles em grupo, ela sozinha. Teria entre os quarenta e os cinquenta anos e deve fazer parte daqueles a quem a retórica dos governos já não trata como desempregados, como se a longa duração do seu desespero os atirasse borda fora.
 
Observei-a disfarçadamente algum tempo enquanto fazia tempo para o meu encontro com o mediador de seguros. Tricotava, parecia um cachecol e era creme, um tom quase igual ao da cara dela, aos cabelos dela, aos olhos dela, uma cor triste.
 
Talvez as mulheres espalhem a solidão de uma forma diferente, elas ocupam-se, elas sentem menos culpa. Imagino que não faz mais nada aquela mulher, sai de casa como se fosse trabalhar, no carro que já fez dez anos e pelo qual reza por ser o que lhe resta. Sai em direcção a uma praceta qualquer, escolhe-as ao acaso, nunca a mesma. Liga o rádio e tira as agulhas, ao menos assim não está em casa, as paredes não se apertam no seu coração. Assim passam as manhãs.
 
~CC~


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Estes inquéritos...


Na sequência do acidente de viação, espero ansiosamente pelo questionário do mediador dos seguros, vão lá já quinze dias. Hoje finalmente fui objecto de inquérito. Ia respondendo pacientemente sobre o meu estado civil, existência e idade dos filhos, habilitações, etc...até que chegou à questão: a senhora tem empregada doméstica?

Percebem qual a relação da questão com o acidente de viação? Eu também não.

~CC~

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Papoilas amores



Vi hoje as primeiras papoilas, é sempre um dia feliz quando as vejo assim a gritar nos campos, tão bravias, tão meninas.

É talvez o único vermelho que me podia entusiasmar dado o enjoo da cor que enche as montras e os mil objectos mais ou menos ridículos expostos. Sei muito bem que todo o amor inclui uma dose razoável de absurdo e se alimenta de muitos sinais que são construídos socialmente. Mas deve haver um equilíbrio qualquer entre a recusa total destes rituais e entrada num território tão artificial como este. Não, não me apetece nada ir jantar a um restaurante com uma velinha pelo meio.

Assinalando a data com a cor bravia do meu sangue doce, se vires por aí uma papoila ou a lua a espreitar, pensa num beijo meu.

~CC~

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Abcedário caótico - T de Tristeza




Conheço-a tão bem, vem sem que a espere e inunda tudo com o seu manto espesso de impossibilidade. Aparece a dizer não onde antes havia só sim e a espalhar negro onde tudo parecia luz. A tristeza, esse lugar nenhum que vem assolar-me. Hei-de aprender a resistir à sua sedução maldita.
 
~CC~