Sim, talvez pudesse ser o meu. E tanto que queria espreitar para dentro do teu.
terça-feira, 19 de março de 2013
As senhoras
Juntas à roda da mesa com os cabelos bem penteados e os rostos pintados suavemente. Ao canto de um dos cafés mais emblemáticos de Lisboa e de gente que outrora foi rica, agora já não sei.
Elas tomam o chá como se nada neste mundo pudesse perturbar o ritual que lhes está entranhado no sangue quase azul. Uma delas parte o bolo de chocolate, talvez seja ela que faz anos. Não cantam contudo, nem há velas. Sorriem de modo doce e com cumplicidade e falam baixo. Talvez se juntem todas as terças para poderem saber como envelhecem. Talvez comemorem alguma coisa e por isso tenham trazido as flores que estão na mesa. Se calhar festejam sem nenhum homem por perto o dia do pai, na ausência daqueles que foram os seus pais ou pais dos seus filhos.
É uma mesa bonita, composta, são talvez mulheres que foram na vida apenas esposas. O modo como nada ali parece fora do lugar ilustra bem a classe social, o mundo em que viveram. Com que olhos poderão encarar o andar no prédio em frente que diz: casa em leilão. Já não se vende, já não se aluga, o banco simplesmente faz um leilão. Será que alguma delas é senhoria? Inquilina?
Aparentemente não sofrem, sorriem docemente como se o mundo delas não fosse aquele mesmo em que vivemos nesta danada convulsão.
~CC~
Vila Real, Verão de 2012
segunda-feira, 18 de março de 2013
Saber, compreender mais
Sim, ela explicou muito bem que somos nós, cidadãos contribuintes. O(s) governo(s) são apenas aqueles que gerem mal o nosso dinheiro.
~CC~
terça-feira, 12 de março de 2013
Lágrimas e sorrisos
Podia chorar hoje de alegria, afinal a minha filha faz dezassete anos. O beijo que lhe dei de manhã tinha de facto a luz da Primavera que ela anunciou.
Mas na volta do trabalho tinha a antena 1 ligada e o programa que não ouvi de início era, segundo percebi, sobre nutrição. Como é da praxe tinham uma convidada nutricionista para recomendar como se deve resistir a comer mal, mesmo em tempos de crise. Contudo, todas as vozes ecoavam ora uma tristeza grande ou uma revolta que se deixou completamente de conter e se espraia numa zanga que antes parecia inimaginável.
Comoveu-me apesar de tudo mais a tristeza que se indignava mas ao mesmo tempo continha as lágrimas e guardava as armas de fogo. Chorei assim com o arquitecto que perdeu o seu trabalho e depois disso o subsídio de desemprego, entregou o filho à avó para que ela pudesse alimentá-lo convenientemente e que disse à senhora nutricionista como se alimentava: pacotes de bolachas e latas de conserva. Talvez ele pudesse fazer uma sopa, talvez. Mas a tristeza quando se abate sobre nós também nos tolhe a criatividade, a imaginação, a vontade de fazer o que quer que seja. As bolachas estão ali no pacote e é só tirá-las, não alimentam, mas nada exigem.
Ele dizia que tinha mesmo que se ir embora mas nem sabia bem para onde, é que se os mais novos nasceram com mapas que lhes mostraram na escola um mundo grande, os mais velhos estão longe de ter crescido com esses horizontes.
A minha menina, inevitável pensar que mundo será o dela.
~CC~
domingo, 10 de março de 2013
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