terça-feira, 18 de junho de 2013

Nunca foi feliz



Mais uma vez habitaram o meu dia de hoje meninas e meninos desencontrados da vida, retirados quase sempre à força da casa das suas famílias. A palavra professora fez com que cerrassem os dentes e me olhassem desconfiados, a escola é quase sempre uma cruz a mais nas suas vidas repletas delas. Pouco a pouco lá se foram esquecendo de mim e mostraram quem eram, no seu pior e no seu melhor.
 
Numa parte da actividade, o animador pediu-lhes que recordassem momentos felizes. Um deles disse sem hesitar: eu nunca fui feliz. Era uma voz crua e cortante de desencanto com apenas 14 anos de vida e eu sentia-a como uma lamina a cortar-me a carne.
 
~CC~
 

domingo, 16 de junho de 2013

O cansaço de Junho


Junho deixa-me exausta. Este Junho ainda mais por causa de um ministro  da Educação incompetente e dos sindicalistas do costume, sempre prontos a esvaziar de sentido o que tem realmente sentido. Já não os aturo.
 
Ao mesmo tempo que este mês combina com tudo o que mais amo, sufoca-me com a falta de tempo para usufruir de cada coisa que ele oferece. Olho para a minha pele branca a combinar com a ausência das ondas de mar dentro dos meus olhos e sinto-me uma mulher gorda e feia.
 
Leio incansavelmente os trabalhos dos meus alunos, são em catadupas durante este mês. Chego à conclusão de que a sua aprendizagem está muito aquém das metas traçadas e  sinto uma angústia ambígua, ou seja, tanto me acho uma má professora pois devia ser capaz de ensinar (e mudar) qualquer um, como me sinto perante uma tarefa impossível e que nenhum destes alunos devia sequer ter chegado ao ensino superior. Preocupa-me ainda mais que isto só se traduza em números e procuro conversar com eles antes da publicação das pautas, o que torna os meus dias absurdos em tempo gasto na escola, chego a entrar às 9h e sair às 20h. Teria até valido a pena se sentisse que compreenderam mas nem um terço compreende o que está dentro da classificação. A verdade deve estar algures entre a má professora e os maus alunos  Quando Junho passar, terei discernimento suficiente para ver o caminho.
 
Além de mulher feia e professora má, há ainda dentro de mim uma mãe e uma filha em apuros face as necessidades que a mais nova e a mais velha apresentam de momento, cada uma delas com as suas prioridades absolutas. Há ainda uma mulher namorada, uma mulher amiga e umas outras tantas, todas elas também devem andar perto do incumprimento. Junho, é a exaustão de Junho.
 
E como adoro Junho, este mês das luas coloridas a raiar a terra, do início do calor, das cerejas.
 
~CC~
 
 
 
 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O novo eduquês


Como as coisas se transformam. O anti eduquês produziu agora um novo eduquês. O que o antigo se revoltava contra a possibilidade dos alunos se poderem insurgir face aos professores, construiu-se em torno de um discurso de autoridade do professor, o que até foi apreciado. Agora os professores que deviam ser antes de mais respeitados, são acusados de tudo e mais alguma coisa e os alunos passaram a ser os coitadinhos. Cá em casa tenta-se travar a força desta guerra que se quer instalar entre professores, alunos e famílias mas não é fácil. Os miúdos são novos e se lhes dão alento acham que o mundo começou agora e é deles.
 
O ministro talvez não se dê conta mas está a edificar um novo eduquês, como este é o seu, deve ser bom (assim mais ou menos como o programa de Matemática). Agora os que antes eram bons passaram a ser maus e a poder ser recrutados em massa no dia da greve, como se fossem mais ou menos uns malandrecos que não querem é trabalhar.
 
O ministro pode não estar, contudo, a pensar bem...salas de professores apinhadas são terreno onde a revolta pode crescer muito mais.

~CC~

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ninharias boas


No último fim de semana fiz a primeira salada com alfaces da minha varanda. Menos um dinheirinho para os híper e supermercados.
~CC~

segunda-feira, 10 de junho de 2013

É muito mais que mobilidade...



Entrei para o Ensino Superior por concurso (em 1999) depois de 11 anos como professora do Ensino Básico. No Ensino Básico consegui a proeza de pertencer a um quadro que estipulava um vínculo a um distrito, ou seja dentro do mesmo poderia mudar de escola de ano para ano ou mesmo a meio do ano. A mobilidade já existia, sempre existiu para os professores...o que não existia era a possibilidade de despedir alguém a pretexto da mobilidade, essa é a questão importante, as pessoas não mudam para outra instituição, elas são colocadas na antevéspera do nada.
 
No Ensino Superior comecei a carreira do zero, ou seja,  varrendo liminarmente os 11 anos anteriores e o facto de ter sido já professora. Fui assistente de 1º triénio e depois de 2º triénio. Obrigava a lei que depois de seis anos podíamos concorrer ao quadro da escola mas para tal era necessário haver lugares nesse quadro e não havia. Passei a ser contratada ano a ano e muito raramente de dois em dois, sabendo que no final de cada contrato podia ser simplesmente despedida e sem direito a subsídio de desemprego.
 
Em 2009 foram aprovadas duas importantes alterações: a atribuição de subsídio de desemprego por despedimento no Ensino Superior; a possibilidade dos docentes em situação precária há 10 anos numa instituição, poderem, caso obtivessem doutoramento, passar a ter um contrato por tempo indeterminado, não sem um período experimental de 5 anos. Não era bom mas apesar de tudo era menos mau.
 
Foi o que me aconteceu, depois de cinco anos de doutoramento, só parte deles com direito a ter algum tempo para o mesmo, entrei em período experimental em 2011 - reparem que o mesmo avalia a competência do trabalhador para aquele posto de trabalho, um posto que eu já ocupava há 12 anos. Depois de 12 anos de precaridade tinha agora finalmente um contrato de cinco anos - que luxo! (é verdade que ao fim desse tempo, poderia na mesma ser despedida). Somos felizes com pouco se era ainda menos o que tínhamos...
 
Com a nova lei da mobilidade esse contrato pode ser interrompido em qualquer dia e hora de qualquer ano, ou seja não chegar ao término dos cinco anos para os quais está efectivamente assinado, bastando para tal que a instituição estabeleça uma fusão de qualquer tipo com outra. Ora sabemos que depois do Mega agrupamentos terem chegado ao Básico e Secundário, a nova onda será no ensino superior, mesmo que não lhes venham a atribuir esse nome. Eu estou longe de ser um caso único, há muitos como eu.
 
A mobilidade não é novidade e não é necessariamente um mal (iria trabalhar para qualquer outra instituição, não obstante o prejuízo que isso me pudesse causar) não é dela que se trata, trata-se de despedir professores independentemente do número de anos de serviço e do vínculo que eles tenham, a mobilidade é apenas areia de deitar para os olhos da opinião pública. Não se deixem enganar.
 
~CC~