quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Um lugar


Escolhi uma aldeia que me é desconhecida para passar férias.
Vou no rumo das cascatas para repousar no canto das cigarras.
~CC~
 
 

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A menina loira e o rapaz gordinho



Ela tirou a roupa leve que trazia e ficou a brilhar com os seus 18 anos, morena-loira,  no seu biquíni laranja. Ele passou-lhe levemente o protector pelo corpo, encolhendo a sua barriguinha branca de bom rapaz. Ela deixava que os dedos dele adorassem a pele dela, enquanto punha o creme, sorrindo às palavras dele: és tão linda, perto de ti estou perto do sol. Como? Os rapazes de 18 anos não dizem estas coisas às raparigas?!
 
A menina loira não corou mas disse-lhe: tu dizes cada coisa, coisas que mais ninguém diz. E ficou a história explicada, percebemos como o rapaz gordinho, branco, e com ar de bom rapaz roubou a menina loira luz de biquíni laranja aos rapazes maus lá da escola. Dizem que elas gostam dos maus, gostam lá agora.
 
~CC~

terça-feira, 30 de julho de 2013

Finalmente mergulho


Eis a coisa que mais faço um ano inteiro: leio.
 
Leio textos técnicos e trabalhos de alunos.
Leio blogues onde algumas crónicas são realmente bonitas, são sempre bonitas. Qualquer viagem à Natureza do Mal ou ao Novo Mundo é garantida pela prosa dos autores. Descubro às vezes poetas novos ou leio poemas dos mais antigos - há bons blogues de poesia ou poesia em blogues.
 
Mas não leio, não sinto que leia.  Só quando às férias chegam leio três ou quatro livros de enfiada, esperando por esse tempo de ler como uma das coisas melhores que este tempo me traz. Durante o ano ando à tona, no Verão mergulho. Venho depois coberta de letras até ao Outono.
 
Primeiro empréstimo de Verão: Madrugada Suja, de Miguel Sousa Tavares. Uma abertura interessante para se ir tornando um amontado de lugares banais, despejados numa escrita sem chama. Já todos sabemos o que denuncia, conhecemos aquelas personagens, já enjoámos delas pois há muito que constam dos telejornais. O final quase feliz pretende criar alguma esperança mas não chega lá. Piorou desde o Equador que não li por puro preconceito até pegar nele numa tarde em que não havia mais nada para ler e o livro estava por ali, confesso que gostei e engoli o preconceito do bestseller. Mas neste caso arrisquei e perdi.

Primeiro livro oferecido: Contos da Lídia Jorge. Gosto muito dela, uns contos são melhores do que outros mas é certo o retrato social bem contado. O problema é que como lemos obras magníficas dela (pelo menos três), as outras coisas parecem sempre menores.
 
Primeiro livro de Verão comprado: Rolando Teixo, de Pedro Bidarra*. Tem um defeito, é muito pequenino e li em dois dias com afazeres pelo meio. Não chegou às férias plenas. É uma história escorreita, bem contada, a escrita não é barroca como na maior parte dos livros de autores portugueses (o único barroco de que gostei foi mesmo do tropical do Agualusa). Dois ou três pormenores fazem a diferença numa história que a princípio também nos parece banal: um homem enredado na sua normalidade sem nada querer ou desejar da vida que não seja essa mesma normalidade. Mas há qualquer coisa que o mata ou que o faz nascer de novo e não é o amor nem um filho nem um projecto, nem nada do que seria de esperar e é essa qualquer coisa que torna a história bonita. Em breve irei à Tapada das Necessidades ver o protagonista do livro :). Arrisquei e ganhei.
 
Darei conta de mais mergulhos, à medida que aconteçam.
 
* O autor é um dos tristes que aqui escreve: http://www.escreveretriste.com/

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Especialização natural


 
O arrumador de carros que estaciona junto à casa da cultura da minha cidade especializou-se. Pergunta-me se gosto de Cézanne, Botticelli...e diz-me que o meu vestido combina com a pintura deles. Afirma-se tocador de saxofone e pergunta-me qual o meu instrumento musical preferido, arriscando dizer-me que o meu estilo de música predilecto deve ser o jazz. Admiro o seu grau de especialização face aos destinatários dos carros que arruma e fico a imaginá-lo à porta do mcdonalds indagando os clientes sobre os sundae (s) que dali a nada irão escolher.
 
~CC~

sábado, 27 de julho de 2013

Imperativo categórico e dúvida existencial



Não sei o exacto momento em que todas elas começaram a pintar unhas de pés e mãos. Dizem por aí que foram as mulheres brasileiras as responsáveis pela cor vermelha e que depois tudo se generalizou. Agora há unhas pintadas de todas as cores, não apenas nas mãos mas também nos pés. Vieram as de gel: cheias de flores, abelhinhas e pintinhas. Primeiro incomodou-me e depois comecei a sentir-me cada vez pior nas minhas unhas descoloridas. Não posso fazer nada às das mãos, estou outra vez com as unhas estupidamente roídas: sim, é muito feio. Olho para as dos pés e hesito a cada Verão. A pintura é transversal às idades, às classes sociais, aos estilos. Passei a sentir-me um ET. E, no entanto, pintá-las seria sentir-me estranha em mim. É isto a moda, um imperativo que nos condiciona e que nos faz sentir ao lado de qualquer coisa e não lá dentro.
 
Ninguém é tão vulnerável a isto - o imperativo da moda- quanto as mulheres. Se têm aquela idade em que já não são novas e lindas mas não querem ainda dobrar a idade para o lado das mais velhas, pior ainda. Se em parte nos incluímos nisto e em parte nos excluímos (um bocadinho na moda e outro nas tintas para ela) lá ficamos naquele limbo com o espelho das dúvidas sempre pendurado em nós: pinto ou não as unhas dos pés?!
 
 
~CC~