quarta-feira, 4 de novembro de 2015
Um ligeiro tremor
Tudo normal, ela saiu. Estava na idade certa para ir estudar para outra cidade, morar lá, fazer lá a sua vida. Aceita-se, compreende-se, racionaliza-se, uma mãe habitua-se. O ambiente ficou apenas mais silencioso, as noites maiores, mas não chega a haver sofrimento ou dor. E ela não gosta de choraminguices.
Contudo, às vezes paro um bocadinho à porta do quarto vazio, tão estranhamente arrumado. Há uma dor fininha que chega, um ligeiro tremor que não chega a tornar-se lágrima, uma ausência que se faz sentir. Depois a roda viva continua, está tudo certo, tudo normal, uma mãe habitua-se.
~CC~
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Emoções que correm como rios
Dias que sinto que correm contra mim, mesmo que corram a meu favor. É o tempo para viver em pleno cada coisa que me falta, fica tudo por arrumar cá dentro, solto, o que me causa grande cansaço. De noite, não durmo grande coisa, todos os meus projectos, todas as pessoas, várias aulas, pedaços de seminários já feitos e outros por fazer, tudo aparece nos meus sonhos.
Começo pela última coisa. Os alunos emocionaram-se muito hoje na aula, muitos choraram e uma aluna chorou durante toda a aula. Já tinha feito este exercício antes, é simples, trata-se de trazer de casa um objecto amado, depois fazemos vários exercícios com ele, desde explicar o sentido que tem, até pensar em oferecê-lo a alguém, não obstante nos ser querido. Nunca antes isto aconteceu, uma lágrima ou outra, mas não tantas, várias situações de choro quase convulsivo. Várias interpretações possíveis, uma delas é que a escola deixou totalmente de trabalhar as emoções dos alunos, a escola é só informação, nem sequer é formação.
Rir e chorar é vida, eles não têm é espaços colectivos onde tal possa acontecer, tanto telemóvel, tanta internet, tanta vida digital e afinal desfazem-se aqui como crianças sem colo, alguns com efectiva dificuldade de se controlarem. A emoção tem que passar nesse equilíbrio entre a contenção e a libertação, há que aprender.
~CC~
domingo, 25 de outubro de 2015
Acordai
Sobrevivi a uma semana particularmente difícil, quando as palavras secam é porque estou muito triste ou muito feliz. Se estou muito feliz até me esqueço deste blogue, se estou muito triste, não sou capaz de vir aqui, fico a pairar no meu silêncio, a cavar buraquinhos para o sol entrar.
Acordei várias vezes da tristeza para me rir e para pasmar. A minha mãe ligou-me às 8h30m da noite na terça feira, estava eu a dormir no sofá, o cansaço a tomar-me conta do corpo. Nos seus 87 anos estava preocupada com a situação política do país, fazia análise política da melhor enquanto eu mal conseguia dizer palavra. Isto aconteceu um pouco durante toda a semana, na mesa do bar da escola, nos cafés, nas lojas, pela rua. De repente toda a gente a falar de política...ou talvez, de poder. Onde estava este país? Onde dormia o interesse das pessoas pelo seu próprio destino? Pouco mais de meia dúzia de deputados separa uma maioria de uma minoria, de repente há outra vez esquerda e outra vez direita, quando pensávamos que tais termos já não dividiam ninguém.
Finalmente a palavra "acordai" da música do Lopes Graça que tantas vezes ouvimos em manifestações de protesto parece ter surtido algum efeito. Vamos ver o que dura. Estou mais interessada no comportamento do povo do que no governo.
~CC~
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Por mim
Uma vida é cheia de tantas coisas boas, algumas más, realmente más. As últimas têm batido pouco à minha porta mas às vezes acontece. Aconteceu.
O que tenho tentado em cada amargura, em cada desilusão? Não transbordar, levando de um lado para o outro a tristeza vivida, delimitar a nódoa com uma fronteira que a contenha, não fazer com que outros paguem o que não devem. Mal refeita de uma grande chatice, acho que consegui construir uma das minhas melhores aulas.
O que tenho tentado em cada traição, em cada queda ao chão? Não secar por dentro, não odiar, não responder usando a mesma linguagem, a mesma atitude. Longe de dar a outra face, longe de ignorar, longe de não ir à luta. Trabalhar o sangue que corre nas veias, a raiva que nele se gera, o desespero que desponta, o desprezo que mata. Tenho trabalho, dá-me trabalho, muito.
Quando a luz começa a querer rasgar aquele negro que sufoca, aproveito-a, vou com ela. Não esqueço, não posso esquecer, com esquecimento não se aprende, não evoluímos. Outro dia, não esquecendo o anterior.
~CC~
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Dois dedos de conversa.
Um fim de tarde com sol, três colegas mas quase desconhecidos sentam-se para o lanche no sítio de trabalho. A conversa aparece, curiosamente não é sobre trabalho, nem se diz mal de ninguém, tão pouco se fala de política. Os dois primeiros motivos são aqueles que me afastam de aprofundar amizades no local de trabalho. As pessoas falam de si próprias, uma delas até tem a coragem de falar do psicólogo dela, do que ele lhe disse sobre ela própria, sobre uma das suas fragilidades ou medos, nem sei bem. As pessoas escutam, coisa rara também, não se interrompem. São estes momentos que me fazem gostar das pessoas, quando elas são assim, quando se mostram sem outra intenção que não seja o encontro. Era para ficar 5 minutos, chegou aos quarenta, ficava mais se fosse noutro espaço, aquele cansa-me porque passo lá muitas e muitas horas da minha vida. Dois dedos de conversa ao acaso, sem nada marcado, é do melhor que há.
~CC~
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