segunda-feira, 9 de maio de 2016

Granizo


Não tenho só amor e respeito pela natureza, tenho medo dela.

Como não ter?! Hoje a temperatura desceu 6 graus em 10 minutos e caiu um granizo intenso que parecia capaz de me amolgar o tejadilho do carro. Certas ruas ficaram inundadas numa hora e dei voltas e voltas para conseguir transitar de um lado para outro da cidade. Tocaram as sirenes num céu chumbo. 

Não me senti apenas pequena mas uma partícula ínfima, capaz de se afogar numa poça de água. O que é que o homem controla? Uma pequena parte do universo, tão pequena como a que controla em si mesmo.

Gelou-me o granizo, tive dificuldade em dar continuidade ao dia.

~CC~

domingo, 8 de maio de 2016

Um velho escultor


O que fazemos é lutar contra o tempo, contra o pó que ele traz e se insinua nas coisas e nos corpos. 

O desgaste das coisas entranha-se tanto nos objectos como nos equipamentos, depois de 10 anos tudo parece precisar de ser trocado nesta casa. A máquina de lavar avariou várias vezes. O chão que aparentava ser uma coisa moderna, mostra ruir nas suas várias ligações entre as partes da casa, o alumínio do lava loiças está a escurecer a olhos vistos e a loiça da casa de banho adquiriu um tom amarelado que nem a lixívia, se usada todos os dias, parece capaz de tirar (acresce que odeio o cheiro). A luta contra o tempo a degradar a casa exigiria uma batalha diária que sou incapaz de travar. Debato-me assim entre a impotência e a luta, ora num lado, ora no outro.

Isto é também o que acontece nos nossos corpos por dentro e por fora. Uma nódoa negra não custa nada a fazer e demora a curar. Uma dor no ombro prolonga-se por dias. Já os cabelos brancos, esses não se querem esconder e disseminam-se como se fossem cogumelos em dia de chuva. O que fazemos com o tempo? Deixamos que invada as coisas e os corpos com dobras, rugas, amarelo e branco ou lutamos para perdurar o brilho e o cheiro do que é novo?

É mesmo um velho escultor.

~CC~





quarta-feira, 4 de maio de 2016

0 momento diário de beleza




Todos os dias deviam incluir uma parte como a de ontem: saí do trabalho e fui ver o mar e com ele um pôr do sol de cortar a respiração. Embora o que é belo não me canse, talvez não precisasse de mar e de sol todos os dias mas de um momento de beleza sim.

Às vezes o momento de beleza até acontece dentro do trabalho e já volto preenchida. No outro dia uma sessão de expressão dramática com um grupo de sem abrigo emocionou-me como nenhum filme o fez nos últimos tempos. Por duas razões: pessoas adultas com uma capacidade de entrega fora de série e um aluno que sempre tinha sido frágil a crescer como um gigante.

Dias piores são aqueles em que esse momento não ocorre e o quotidiano não se ultrapassa a si próprio. Também os tenho como toda a gente. Mas gosto de viver também porque os momentos de beleza têm sido muitos e extraordinários. Cabe-nos também encontrá-los.

~CC~

segunda-feira, 25 de abril de 2016

E tudo enche de papoilas....



Têm sido dias intensos, de múltiplas festividades, algumas mesmo muito trabalhosas pois implicaram preparação prévia de longa duração com alunos e picos enormes de tensão. No dia da festa tudo parece esbater-se e eles, embora com diferentes níveis de envolvimento, parecem felizes, alguns mesmo muito felizes. Creio que metade do que temos explicado em múltiplas aulas, se resume numa tarde, talvez mesmo o curso inteiro. E percebo que alguns deles entendem muito bem o que se passa aqui, o que é o envolvimento com as pessoas, com a comunidade e outros não, não vão além de entenderem tudo isto como mero entretenimento. No final deste ano e principalmente deste projecto, sei os que deixaria ficar e aqueles a quem diria para escolherem outra coisa para fazer. Não será coisa que possa fazer, mas sei que não poderei deixar de lhes dizer algo. Estas conversas custam-me muito e levam alguns às lágrimas, alguns passarão a detestar-me, outros irão agradecer. A verdade é que metade deles chegam aqui perfeitamente perdidos, poderiam estar neste curso ou em qualquer outro, talvez isso nem seja grave, mas será se chegarem ao fim com a mesma sensação.

Os meus dias intensos têm felizmente incluindo vistas sobre o estuário e o rio e ainda ontem o cruzei e quase molhei lá os pés, por mais que vos pareça estranho passeio em trabalho, ainda que esteja longe de ser a sortuda que faz os guias de lazer para as mais diversas revistas (uma profissão de sonho, sem dúvida).

Falhei os concertos e as festividades de Abril por cansaço puro, mas tenho cá dentro um amor inteiro por este mês que grita e grita liberdade e tudo enche de papoilas.

~CC~










sexta-feira, 22 de abril de 2016

Terra



Como não poderia?

Terra entre todos os elementos. Signo terra, nenhum interesse especial pelo universo, grande demais para lhe chamar casa, atracção e receio pela água, do fogo apenas o calor que emana, alguma beleza.

Eu sou tão terra que me torno na própria Primavera, ando cansada mas cheia de energia, começo a trabalhar às 7h da manhã, acordo com o primeiro sol. Não, nenhuma tristeza me apanhará até à chegada do Outono.

Andam pássaros à minha volta.

~CC~