segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Tão fácil julgar



Na minha adolescência, vivida alguns anos com amigos de extrema esquerda, imersa num grupo de teatro que misturava grande qualidade com mensagem política clara nessa mesma linha, dizia-se com frequência: os americanos são estúpidos. Também acreditava nisso na altura. Mas havia os espirituais negros, a luta contra a escravatura, a revolução americana (é tão bonita a declaração da independência), o jazz.  Gosto de ver o pauzinho na engrenagem.

Com a vitória de Donald Trump essa frase (os americanos são estúpidos), dita de modo mais claro ou mais refinado, tem surgido com frequência. É tão fácil julgar um povo, todo ele como se nessa amálgama de gente não houvesse mais heterogeneidade do que homogeneidade. Que dizer dos portugueses que aguentaram 50 anos de fascismo? Que dizer dos italianos que escolheram Berlusconi e o aguentaram por mais do que um mandato (não era tão ou mais misógino?) E não falo já das manchas negras que o futuro pode trazer, mas claramente do que o passado recente nos trouxe. 

Os americanos são uma pluralidade de gente, estados claramente diversos, realidades distintas. Votaram por Obama para dois mandatos seguidos, se esquecermos que o fizeram, estaremos a desacreditar as pessoas que terão voz para lutarem lá dentro, para se oporem, para protestarem. O meu ADN é claro/escuro, mas sei que a luta está em puxar pelo claro, se a esperança morre, morremos com ela. E os nossos filhos?

~CC~






sábado, 19 de novembro de 2016

Entre nós (que ninguém nos ouve)



Vi-a à minha frente, empurrando um carrinho de bebé, uma mulher jovem, pensei: afinal não sou só eu que uso boinas. Entramos no mesmo restaurante e aí ficou claro que tal como eu, ela não tinha cabelo e por isso a boina. Encostou o carrinho à mesa e pude observar uma bebé de poucos meses, pequenina, muito cuidada, dormindo. Sorrimos imediatamente porque as boinas eram exactamente iguais, estilo basco, apenas de cores diferentes. Também as colocávamos de forma diferente. Ela viu o meu olhar para a bebé e disse; descobri ainda estava grávida. E eu respondi: ainda mais difícil. Sorrimos e ficámos caladas, ela estava acompanhada e eu também. Tive vontade que não tivesse sido assim, de saber se sozinhas nos sentaríamos uma ao lado da outra, por mim não sei, mas ela era menos reservada, bem disposta, falava muito com as amigas e sorria-me de quando em quando. Eu retribuía. Quando saí, pisquei-lhe o olho e fiz-lhe um sinal com a mão, esticando o meu polegar (vai correr bem!). Ela tinha um sorriso lindo e piscou-me o olho também, não teria mais que uns 35 anos.

As grávidas na rua só vêm grávidas, é um clássico. As carequinhas também se encontram por aí, debaixo de chapéus, com cabeleiras ou mesmo a descoberto em lugares interiores. Eu, como detesto o que é artificial e tenho uma pele ultra sensível não suportaria uma cabeleira, pelo que tenho um enxoval de boinas e chapéus que nunca julguei coleccionar. A verdade é que me mudou o estilo e que tento vestir-me de baixo para cima, agora sim, da cabeça aos pés. Já recebi os mais diversos comentários, todos simpáticos (creio que por ninguém ter coragem de dizer mal nesta situação) mas o que mais aprecio é aquele em que dizem que pareço uma parisiense, estando eu certa, que mais não é que a representação que as pessoas têm de uma parisiense. Já o meu amor inclina-se mais para as russas, tendo o cuidado de acrescentar que as russas são as mulheres mais bonitas do mundo. Enfim, nunca fui tão mimada, ainda me habituo ao que é bom neste estatuto.

~CC~

PS. Iniciei ontem o 2º ciclo da quimioterapia, serão 3 antes da intervenção cirúrgica. Apenas ligeiramente enjoada, a aguentar-me.







terça-feira, 15 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

Domingo



Seguro ao colo o bebé de três meses. Tem um cheirinho tão bom. Já esboça um sorriso de quando em quando. Os olhos rasgados são parecidos aos da sua mãe. Sinto esperança cada vez que alguém nasce, felicidade se é de  alguém próximo. Mais ainda num ano em que morreram tantos, tanta gente boa. Nunca gostei de anos pares, a minha preferência é sempre pelos ímpares. O bebé olha em redor, fixa os objectos, fixa-se em mim, mas é na mãe que ira mergulhar dali a nada, no seu calor, depois adormece tranquilo. O sono dos bebés é um sono de anjos, há muito pouco de inferno dentro deles. 

Depois fui ver o mar. E a lua chegou tão enorme, tão cheia. 

~CC~

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Felicidade



Uma semana sem a bomba infusora. Poder usar o braço direito muito mais à vontade, poder mexer-me na cama, poder sair de casa sem ter que disfarçar o fio, poder tomar banho muito mais livremente.

Até me esqueço da carequinha.

~CC~