segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Fazer parte



A minha filiação às cidades é ténue. Contudo e pouco a pouco começo a fazer parte desta. E fazer parte é importante para todos os desenraizados como eu, talvez mais do que para aqueles que têm um lugar, que podem com facilidade voltar ao sítio em que nasceram. Uma coisa simples que quis fazer hoje foi tornar-me leitora da biblioteca municipal, afinal só os munícipes o podem ser. Para além de não ter casa para guardar mais livros nem dinheiro para os comprar, interessava-me explorar a ideia de integrar uma comunidade de leitura.

Começou mal, a pedirem comprovativos da morada. Mas alguém quer ser leitor de uma biblioteca onde não possa ir com regularidade?! Mas a prova foi superada com a apresentação da carta de condução. Depois de tudo tratado, ia subir. Mas a funcionária impediu-me, teria que deixar a mala, subir sem nada, nem telemóvel. Acho que só me pediram isto para entrar na prisão e bem me custou fazê-lo, mas compreendi. Mas numa biblioteca? São os roubos, justificaram. Mas há alguém a roubar livros usados? A biblioteca da minha escola está quase sempre vazia. Não podia deixar a minha mala que aliás é minúscula (garanto que não cabe lá nenhum livro), já que ali está o infusor. Pensei que seria didáctico mostrar-lhes e assim fiz. Prova superada, pude entrar com a malinha. Lá dentro, o que esperava: quase vazia.

Perguntei pela comunidade de leitura, clube, ou como chamavam a pessoas que se encontram para conversar sobre um livro que leram. Não sabiam de nada mas achavam que sim, que havia. E uma lembrou-se da frase chave: está tudo na página da biblioteca, é lá que está a informação. Ou seja teria que voltar para casa para saber o que ali, local em que as coisas se passavam, não conseguia saber. Tudo bem, lá voltei para casa e fui à dita Internet pesquisar mas a página ou está muito bem escondida ou apenas permite a pesquisa de livros. Nem fazer parte virtualmente é possível, quanto mais ao vivo e a cores.

~CC~






sábado, 26 de novembro de 2016

Maçãs casanova



É sabido que com a quimioterapia o apetite se vai de todo, diria mais, todo o tipo de apetite. Comigo até demorou a acontecer, cerca de um mês. Aprendi a comer apenas não o que me apetece pois nada apetece mas apenas o que não rejeito. As maças casanova são agora o meu produto de eleição, desconhecendo, contudo, a razão de tal designação. A pesquisa feita não correspondeu aos meus intuitos literários, afirmando apenas a componente científica, indicando-a como a que mais fibra possui, entre outros aspectos nutritivos. Desconheço também a razão desta minha paixão já antiga mas agora completamente reavivada, não sou capaz de alinhar nada de racional sobre o fruto, nem bonito é. 

~CC~

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Tantas eu!



Assim sou eu...de Celina da Piedade*
Para além da música, vale mesmo a pena espreitar a animação.


* com um beijinho especial para a Ana

~CC~


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Manhãs



Lembro-me com exactidão das manhãs passarem tão céleres que quando tomava consciência do dia, já era hora de almoço. O almoço era quase sempre um pesadelo, cantina cheia, muito barulho, por último já levava a minha própria comida. Às vezes conseguia vir almoçar a casa ou à cidade, sozinha ou acompanhada era bom. Raramente parava para pensar nas manhãs dos outros, ainda que às vezes pensasse nos velhos, nos mais velhos, imaginando-os quase todos parados em frente à televisão. Pensava muitas vezes nas manhãs da minha mãe, era em quem mais pensava. 

Descubro agora as manhãs de quem não tem um horário regular, de quem não acorda no frenesim de ter que correr para o trabalho. Pensava que as praças, os jardins, os lugares junto ao rio, os cafés, tudo estaria vazio. Mas há muitos velhos a passear, a pares, ou sozinhos, mais homens que mulheres. Há gente jovem e menos jovem a fazer exercício físico. Há pessoas de todas as idades cuja grande companhia é o cão. Há casais jovens com filhos muito pequenos e mulheres sozinhas que gozam ainda a sua licença de parto. Depois o que mais custa: adultos, em plena idade de trabalhar. Estes últimos distinguem-se claramente dos outros por não parecerem tirar especial prazer da manhã livre que são forçados a ter. O olhar é mais parado, as mãos não têm onde poisar, desviam os olhos se encontram os nossos. Lembro-me só de uma excepção: o grupo das raspadinhas e das minis junto ao centro comercial. Mas nesse caso, penso que ali também se geram outros expedientes, outras fontes de receita. Afinal as manhãs estão cheias de gente, gente que nunca tinha visto. Dentro delas haverá também almas semelhantes à minha, suspensas, presas por um fio.

~CC~




terça-feira, 22 de novembro de 2016

Frágil



Uma necessidade tão grande de silêncio, de calma, o corpo a pedir-me repouso, recolhimento, eu espantada com ele, com a sua capacidade de mandar em mim, eu que tanto o massacrei a pedir-lhe sempre mais e mais e ele a seguir-me sempre e sempre, a puxar até ao limite. Procuro habituar-me a esta pessoa que se deita no sofá a meio da tarde e que se sente incapaz de sair de noite, esta outra.

Eu, na metade da minha energia, da minha capacidade, do meu ânimo. Eu, uma borboleta prestes a entrar no inverno. 

~CC~