terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Entulho natalício



Vi num pequeno largo três laranjeiras carregadas de laranjas, alinhadas na continuidade umas das outras, formavam um conjunto de verde harmonia. Ao olhá-las senti o aroma da laranja e do limão que acompanham esta quadra, só faltava a canela. Foi a única coisa que me tocou.

Deviam deixar a natureza vestir-se por si própria para festejar o Natal. Ela veste-se sem nós, há laranjas, limões, pinheiros, azevinho, castanheiros, nogueiras, água, neve.

A maior parte dos enfeites de rua são puras aberrações natalícias, como não chamar isso a pacotes de prendas penduradas em candeeiros? Quando há pinheiros naturais nas rotundas, estragam-nos com bolas gigantes brilhantes.  Há ainda umas árvores compostas de arame e luzes, uns cilindros enormes que parecem competir entre si para dizer qual é a cidade com a árvore mais alta, deve ter sido uma empresa a vendê-las a todas as câmaras, pois são praticamente iguais. E que dizer das aldeias de natal que são amontados de casinhas com um pai natal e vária mães natal, elas quase sempre de mini saia? As ruas estão cheias de entulho natalício, um carnaval antes de tempo, um desperdício.

Tudo isto fez com que não coloque em minha casa mais do que um apontamento minimalista que este ano ainda nem sequer encontrei. E isto é escrito por alguém que gosta muito do Natal.

~CC~








sábado, 10 de dezembro de 2016

Esta manhã




Uma semana sem a bomba infusora da quimioterapia. Sem o fio que me atrapalha e condiciona os movimentos, pude tomar um banho completo e enrolar-me numa toalha, isto, que é quase um nada, foi a suprema maravilha.

~CC~

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Ele, Daniel




É verdade, o Daniel também sou eu, tu, ele. Todos somos Daniel.

Afogados pela burocracia que tudo engole como um mostro silencioso, inumana, feroz, insaciável.

Ontem ao telefone para o centro de saúde; eu queria saber...Do outro lado: não é aqui! Telefone pousado com estrondo sem me deixar fazer a pergunta seguinte que me ficou a morrer na garganta. Sou eu quando o médico me interrompe depois de me ter perguntado pelos meus sintomas e continua a falar como se estivesse dentro de mim, somos nós sempre que somos atendidos por gente que nem nos olha e apenas se fixa no computador.

Daniel é todas as pessoas idosas que quando as bilheteiras estão fechadas não conseguem comprar um bilhete de comboio, remetidas para as máquinas que não sabem usar. 

Daniel sou eu a ler o decreto lei sobre incapacidades (desafio-vos), um objecto intragável que classifica ao pormenor cada parte do nosso corpo como se estivéssemos no talho. Daniel são todas as pessoas que não usam caixa directa e esperam ordeiramente na fila da CGD, agora que os balcões desataram a fechar (e pelos vistos ainda fecharão mais).

Ele revolta-se, ele deprimi-se, ele resiste. Não precisava morrer para nos mostrar o absurdo que é este sistema, mas é verdade, muitos morrem quando estão à beira da solução, é a exaustão.

Não percam, além de verem Daniel Blake, vão ver-se a vocês próprios, ao tio, a uma avó, um vizinho.

~CC~






terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Mas que loucura tão boa...



O barco, uma traineira pequenina veio andando devagar, quase de meio do estuário. Aproximou-se mais e mais da fina margem de areia, parecia prestes a encalhar. Lá de dentro um homem acenava, apenas um. Estaria talvez a sentir-se mal, pensei. Gritava qualquer coisa mas não se percebia bem. Preocupei-me com a manobra perigosa, com o pescador que a arriscava. Até que consegui ouvir o que dizia: olha o avô, aqui o avô!! Acenava e acenava mas era com alegria. Consegui então ver melhor, na estreita margem de areia uma mulher com uma criança ao colo, o bebé não conseguia ainda acenar mas a mãe fazia-o por ele. Que loucura trazer o barco até tão perto da margem para o neto o ver. Mas que loucura tão boa. 

~CC~

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Quase feliz



Nunca tinha achado o Outono tão belo. Demorei tempo e tempo a olhar o modo como as folhas vestiam o chão. Demorei tempo a ver as árvores daquela alameda, os seus troncos ocos onde as aves fizeram ninhos. Demorei tempo para espreitar se entre as sebes havia cogumelos. Abri e fechei o guarda chuva muitas vezes, ainda assim sempre contente por poder sentir a rua, o dia, o vento no início da noite.

Encontrei também uma aldeia a que poderia chamar minha. Não chamarei porque não fica no meu caminho, apareceu do nada para manter o meu sonho vivo de um dia ter uma aldeia. Pensei em tudo o que faria nela, com ela. Os amigos riram e comentaram que seria uma revolução. Mas não sou já capaz de tal, faria antes umas ondas pequeninas, qual mar em dia sereno.

Fui capaz de dormir fora, mesmo com a bomba infusora presa à cintura. Senti-me bem, quase feliz. Não sou, contudo, capaz de tirar este quase.

~CC~