sábado, 7 de janeiro de 2017

Meus amores, meus queridos



Entre as terras das quais me sinto um bocadinho filha, piscatórias e a sul, há lugares onde se come bem e barato. Ontem e hoje, duas tascas diferentes, uma de peixe e outra de comidinha de panela. Em comum o sermos tratados por "meus amores" e "meus queridos", com um acentuar do "r" que era muito típico desta cidade, sobretudo nos bairros mais antigos. Não há nada de falso ali, fazem-nos sentir como família, como parte integrante da cozinha ou do grelhador, como alguém que voltará sempre e não está ali de passagem. Não conseguimos bem distinguir quem são os empregados ou os donos, embora haja uma mulher que num e no outro caso se destaca, é ela que nos cumprimenta quando chegamos e saímos, que recomenda a comida, que vem saber se está tudo bem, se queremos mais um bocadinho de alguma coisa. E isto de querer mais um bocadinho, sabendo que não o vamos pagar, faz toda a diferença e a sério, não uma mera cortesia. Hoje foi uma travessa de arroz de tomate que estava absolutamente delicioso.

Na tasca de ontem somos de facto clientes mais ou menos habituais mas estreámos a de hoje, ocupando uma das três mesas lá existentes. E saímos como se há muito a frequentássemos, com a certeza de que vamos voltar. Anos luz das mesas dos chefes com estrela mas tão, tão bom. E rimos tanto e com tanto gosto, uma coisa que se faz só nestes sítios em que a comida é mesmo um conforto, um laço.

E que receio tenho de que a cidade, cada vez mais referida nos roteiros turísticos, perca estes sítios. Estes lugares onde somos amores e queridos.

~CC~


PS. Hoje até me esqueci de tomar os comprimidos para o enjoo e vá lá saber-se porquê...não enjoei mesmo nada.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Deus, deuses, deusas



Não posso deixar de dizer que sim, nestes últimos quatro meses senti algumas vezes vontade de entrar numa igreja. Mas não foi para encontrar Deus, apenas o silêncio que a civilização me roubou. Talvez alguma paz. As conversões a um culto religioso quando a morte se intromete no caminho da vida são mais que muitas. Algumas impressionaram-me por serem de ateus convictos, percursos inteiros ligados a outros horizontes, outras crenças (por exemplo, Maria Barroso, perante o acidente do filho João). 

Já eu seria incapaz de rezar por mim própria, de pedir a Deus que me salve, se existe, parece-me profundamente injusto fazer-lhe esse pedido com tanta coisa que lhe poderia pedir, quantas vidas se poderiam salvar de uma vez só se certas coisas não existissem (por exemplo, alguém a entrar a disparar numa discoteca na Turquia). Também não me posso converter pensando numa outra vida, num suposto além no qual eu ou parte de mim teriam continuidade, pois isso seria apenas um negócio, oferecer a minha fé em troca de um poiso no infinito. Também não me atraem outros percursos alternativos, integrados de uma mística susceptível de sossegar-me, pois há muito que eu acho que somos meros pontinhos no universo, só os pontinhos que nos tocaram é que sentirão a nossa falta. Sou pequena, sou finita, sou mortal. Bem sei que assim tudo é mais difícil, mais penoso, mais labiríntico. E se eu tinha razões para acreditar pelo menos nos deuses. Primeiro porque tenho o nome da deusa terra, coisa com que o meu pai me brindou para enfrentar a vida, depois por já me ter salvo da desgraça e da morte uma série de vezes. Coisas mirabolantes que não acontecem a quase ninguém ou que parecem de filme. Perante isso, isto é tão terreno, tão real, acontece a tanta gente, está a acontecer-me algo que me pode matar mas que é quase trivial. Sou uma entre milhares, mesmo com o meu nome de deusa.

~CC~






quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Magia



Ao 3º ciclo de quimioterapia, 3º dia, o corpo parece estar a ceder, o milagre de ir até ao fim do ciclo sem mal de maior parece estar a gorar-se. Na segunda feira, o vaticínio das análises já anunciava, os glóbulos brancos baixos, a anemia em crescendo. Ainda assim como não decidiram parar o tratamento, continuei a achar que a minha vitória seria certa. 

Se a alma não existe, não sei o que é isso que move sempre o meu corpo, talvez um cérebro com doses extra de vontade, como há pizzas com dose extra de queijo. Mas a poção é mágica mas não milagrosa, é isso que me diz a dor na garganta e no ouvido direito, é o lado direito sempre a ressentir-se mais, se já pensava à esquerda, agora faço quase tudo à esquerda, afinal não há nada nos hemisférios que não se possa educar. Ensaio as minhas manobras de resistência, entre as quais ler, ler muito. Quando no Natal só me deram livros e um pijama, constatei que para os outros eu estava mesmo doente, coisa que me custava muito a acreditar. Afinal tinham razão, os livros são uma excelente companhia neste percurso. Também a escrita dos outros nos blogues. E até se consegue ler com dor de garganta. Se não há milagres, suspeito que há apenas magia e que alguma está na ponta dos dedos de quem escreve, nos olhos de quem lê. 

~CC~






terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Cerejas



Uma caixa inteira de cerejas, tão grandes, tão vermelhas. Como podia ser em Janeiro estarem ali a olhar-me como se fosse Junho. Satisfiz a minha curiosidade já que na frutaria não havia rótulos de origem. Vinham do Chile, eram cerejas do Chile. Podia comê-las a ler poemas de Pablo Neruda. Tão lindas, tão sumarentas, do outro lado do mundo.

O Chile estava na agenda de hoje, já em casa, a notícia. Valparaíso estava a arder, mais de 100 casas consumidas pelo fogo. Como pode a poesia morrer assim? Mas Valparaíso não era afinal só um lugar arrumado no canto das minhas mitologias literárias, existia e sofria. Seriam de lá as cerejas? Não havendo cerejeiras nas cidades, seriam de lá perto? Talvez não, o Chile é uma imensa cordilheira que vai do calor ao frio.

Com cerejas ou sem elas, bem gostava de ir a Valparaíso. Que se salve, a bem deles e de todos nós. As cidades poema não podem morrer.

Imagem retirada de http://www.zedge.net/wallpaper/9189540/



~CC~

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Quem eu sou



Consegui uma proeza única, perdi as 12 passas que devia ter comido na passagem de ano, não é uma metáfora, aconteceu literalmente. Como não estava em casa, não tinha mais. Também não tinha champanhe, por isso molhei os lábios com aguardente velha. Pensando bem, deve dar tanta sorte como beber champanhe e comer as doze passas. Afinal a sorte é mera convenção humana, como as passas e o champanhe. Não me senti muito feliz, mas também não costumo sentir-me feliz nestas ocasiões. Uma vez ou outra estive feliz numa passagem de ano, menos do que aquelas em que não estive. Entristece-me a alegria, ou a falsa alegria ou o dever de ficar alegre. Nada disto por querer ser contra a corrente, nada por contestação do que aos outros alegra, mesmo só por seu eu, quem eu sou.

~CC~