A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no burburinho
...
Sérgio Godinho
Eu diria exactamente o contrário face aos processos de doença prolongada. No princípio estamos muito acompanhados, chovem as mensagens, os telefonemas, os mails, até desejamos alguma paz, que se esqueçam um bocadinho de nós, não temos mãos nem cabeça para responder a todos. A princípio também nos querem incluir, ou seja, dão-nos ainda um bocadinho do espaço profissional que era o nosso, mas com o tempo vão-se esquecendo dessa partilha de territórios, assumem o barco a todo o vapor.
Vão rareando mais e mais os contactos, os pessoais, os profissionais, todos eles. Não o digo com mágoa, muito menos com algum tipo de repreensão. Compreendo muito bem a velocidade a que a vida corre, o modo como as pessoas se ocupam entre emprego, casa, família, com pouca ou nenhuma disponibilidade para o resto. Até se lembram de nós, mas o pensamento foge entre as últimas compras à pressa e a urgência de uma tarefa que se trouxe do emprego para casa para acabar. Eu fui assim. Eu sei como é. Por isso acho que me preparei mais ou menos bem para contar quase só comigo e com ela, a solidão. E não adianta dizerem-me que tenho este ou aquele, que o outro ou a outra vem ou que posso sempre ligar a alguém. Eu não preciso de me preparar para a companhia, para os momentos em que não estou só, para aqueles tempos mais calorosos em que os outros fazem questão de dizer que nós ainda contamos para eles. Eu preciso de me preparar para um vazio que é só meu, que eu tenho de saber preencher, se possível, até desfrutar. Ter a solidão por companhia numa vida em que ela era quase coisa rara é uma aprendizagem difícil e não vejo só por mim, mas por outras pessoas que neste momento estão tão ou mais doentes que eu.
As pessoas que estão muito ocupadas mas não estão doentes, irão ansiar pelo tempo que temos, quase invejá-lo. Eu sei, eu já fui assim. Quando sabia que alguém estava com atestado médico, pensava nas múltiplas coisas que aquela pessoa poderia fazer com o seu tempo. Mas nada é bem como parece. Nem sempre podemos ir a correr ao teatro, ao cinema, sair, passear na praia, ler, comer, beber, desfrutar a vida. A doença é bicho que rói o corpo e às vezes também a vontade. Nos tempos mais difíceis quase que não conseguia sair de casa, nem para tomar a injecção que devia, tal era o cansaço. Por isso há que aprender a estar com ela, a solidão, ou nós connosco.
~CC~