segunda-feira, 12 de junho de 2017

Uma aldeia



Cada vez que estou uns dias numa aldeia, fico com a certeza que precisava de uma para morar. Precisava do silêncio e das noites cheias de estrelas, dos passeios matinais ou de fim de tarde, de me demorar a olhar as árvores, de saber de cor as rotinas dos vizinhos como eles ficariam a saber a minha. De ter a horta e as árvores de fruto, no limite um cão, depois de lhes perder o medo, mas nunca temos medo dos nossos próprios cães. Sim, uma aldeia que não fosse muito longe do mar, que não fosse muito longe de uma cidade onde pudesse ir ao café, ao cinema e a concertos, afinal são esses os fios que me ligam às cidades.

E já não é romantismo, sei também dos contra. Saberem-nos a vida de cor, separar os que são de fora dos que são de dentro e ser de dentro é ter nascido lá, ou pelos menos os pais terem nascido lá. É por vezes nos sentirmos como numa ilha, com algum sufoco. Mas respiro menos nas cidades cheias de prédios e cheiro a gasóleo, nestes muros que me parecem cada vez mais altos a tapar horizontes, na estreiteza de vistas, nos vizinhos estranhos.

Quero uma aldeia para me mudar a vida e desespero por ela não acontecer, por não a vislumbrar no meu horizonte.

~CC~

sexta-feira, 9 de junho de 2017

No reino da cidadania



Hesitei em tirar a senha prioritária e acabei por não o fazer, mesmo sabendo que iria esperar mais. E fiz bem, atendendo a que a loja do cidadão é um observatório humano, não devemos ter pressa.

Se pudesse tinha gravado em vídeo aquele casal cigano, mesmo considerando que como grávida, ela tinha tirado a senha prioritária depois de mim e sido atendida à minha frente, mea culpa. Ele deu-lhe a cadeira para ela se sentar, fez-lhe festas e abraçou-a enquanto era atendida e deixou-a falar sem interromper, só falava quando ela se virava para ele e o questionava. Demoraram muito tempo e nunca perderam a calma, a simpatia, a harmonia. Cidadãos de primeira!

Já foi mais difícil encarar a situação do homem negro que não falava português e que pura e simplesmente não percebia o que a funcionária lhe estava a explicar, ela dizia que as senhas para o pedido específico que ele tinha que fazer já tinham esgotado, que teria que voltar outro dia, ele continuava a mostrar-lhe os documentos, tentando explicar-lhe com gestos o que queria, de alguma forma com desespero, embora calmo. Demorou muito tempo esta cena confrangedora.  

Quando chegou a minha vez, a funcionária perguntou-me se já tinha preenchido o impresso, ora eu tinha estado ali uma hora mas desconhecia que era necessário ter previamente um impresso, nenhuma informação sobre isso estava disponível. Temi pelo "volte amanhã", mas ela acedeu a esperar. O que veio a seguir teve sorte pior, enganara-se na senha e tinha que voltar a tirar outra senha, tendo sido encorajado da seguinte forma " Isso é no IMT, tem que tirar outra senha, e prepare-se, são cerca de quatro horas de espera". 

Não sei bem de que cidadão são estas lojas nem porque se chamam lojas, sempre quis acreditar que eram um avanço face aos serviços tradicionais, mas hoje tenho algumas dúvidas.

~CC~




quarta-feira, 7 de junho de 2017

Outra vez



Outra vez a aula de yoga centrada praticamente só no relaxamento.

Outra vez a viagem à infância, à felicidade do brincar. Consegui lembrar-me das bolas de sabão feitas em cana de mamão, das mangas sumarentas apanhadas no quintal, das comidas exóticas que as bonecas comiam, do tio da TAP que trazia magníficos chocolates...o problema é que também me lembrei dos carreiros de formigas desviados do seu caminho, dos objectos colocados no meio da rua e puxados pela linha de pesca assim que as pessoas os iam apanhar, dos duelos que o meu irmão fazia com o galo...pensamentos pouco zen, pouco adaptados à aula, ao lado. Não sei o que fazer comigo...

~CC~

terça-feira, 6 de junho de 2017

Um coração a correr à solta



Quase tudo igual, só eu estou diferente. Por fora comentam muito, é a magreza a que chamam elegância, a cor do cabelo que até perguntam se era igual àquela com que nasci. 

Por dentro não sabem, não se vê.

Nunca fui quieta nem calada, mas agora há uma revolução interior. Cansei-me de usar filtros. Apetece gritar e gritamos mesmo. Perdi o medo de me indignar em voz alta. Todos me dizem para não me irritar, que me fará mal. Descubro, contudo, que não é a irritação que me faz pior, é abafá-la. 

Devolvem-nos a vida e é isto, um coração a correr à solta.

~CC~


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Um selo?!



A Ana deu-me um selo, ou melhor, um selinho, estes selinhos costumam empreender a sua viagem a partir de um qualquer sítio de origem. A Ana é uma irmã gémea que descobri aqui, tem quase tudo o que eu tenho, desde a idade ao dia de nascimento, mas não matou a sua parte espiritual como eu matei depois de militar, muito nova, numa organização séria da coisa. Por isso quando a leio é como essa parte de mim cheia de deuses e teias místicas com o universo, nascesses algures naquele lugar em que a deixei. E há também essa coisa de ser um ser humano magnífico. Nunca fui dada a correntes, só mesmo a Ana para me fazer participar.

Se eu quisesse ser alguém nos blogues escolhia alguém nas antípodas de nós mas ainda assim também com alguma coisa de nós. Escolho-a pelo absoluto desassombro da escrita, pela coragem, por se estar nas tintas para os blogues e, em geral, para o que pensam dela. Escolhia esta Ana, que nem deve saber que existo, que existimos.

Por uma razão completamente diferente, designadamente por  ter sido a única pessoa dos blogues que conheci pessoalmente, pela persistência dos nossos contactos ao longo dos anos, pela paixão que nutre pela escrita, poesia e poetas, nomeadamente pelo José Gomes Ferreira que quase só ela costuma colocar por aqui, escolho a Deep do Letras são papéis. Ela, sim, sei que poderá dar continuidade a este desafio.

Nos cinco que faltam estão todos os laços, todos os outros que frequento, comento, gosto, que foram e vão entrando pela vidinha dentro, muitos já nomeados por outros. Não sou capaz de mais escolhas, fazer duas já foi muito difícil.

Perdoem-me que faça uma parte da coisa não fazendo outra, eu sou mesmo assim, quase só faço o que me apetece, sobretudo aqui.

~CC~