terça-feira, 25 de julho de 2017

Um mapa sonoro



Caminhar é um ingrediente recomendado a par de uma boa dose de proteínas. Não sou uma adepta radical nem caminho desmesuradamente ou sequer em grupo. Vou quando posso, às vezes sozinha, outras com com companhia, mais vezes sozinha. Gostava mais de caminhar em trilhos pelo campo mas isso é mais raro, normalmente vou pela cidade, sempre a caminho do rio, já que a água exerce em mim um fascínio terapêutico.

Esta manhã cruzei-me com muitas pessoas que caminham sem som, ou melhor, com a sua música encaixada nos ouvidos. Uma delas até cantava o que ouvia. Olho-as com estranheza, não sei como será, mas palpita-me que não iria gostar. O que levo destas caminhadas nem é tanto o que vejo, é mais o que oiço. As vozes dos homens do mar no porto, o piar das gaivotas, o som dos aspiradores nos restaurantes, o vento nas folhas, um carro que trava mais vigorosamente, em certos lugares os risos e os gritinhos das crianças. É uma cidade inteira que tem ruído e cujo som dominante muda de lugar para lugar, é como se ao escutá-la pudesse um dia fazer dela um mapa sonoro.

~CC~

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Sonhava que chegava o Verão, que eu chegava ao Verão



Sonhava muito com o Verão quando estava no hospital. Com todas as coisas que faria, com o sol a dourar-me a pele, com aquela luminosidade dos fins de tarde, com viagens longas aos lugares aos quais queria ir, ou tão só com vestir roupa mais leve. Esses sonhos deram-me energia, força, ânimo, creio ser essa a função dos sonhos. Sonhava que chegava o Verão, que eu chegava ao Verão.

Ontem mergulhei os pés na água fria mas transparente de Tróia. E tive tanta sorte que apareceram golfinhos perto do barco. E comi novamente um gelado da maravilhosa casa de gelados que há por lá. Essas coisas pequenas dão-me, a cada dia, força, levam as sombras. Nunca me farto do que é bom, do que é belo, nunca me ocorre dizer; já fui, já fiz, e pensar essa coisa boa como um assunto encerrado, gasto. Gosto muito de coisas novas mas também de repetir o que é bom, é como se cada uma dessas vezes permitisse guardar mais e mais na memória o cheiro, o sabor, a sensação.

Outros sonhos estão ainda distantes, tantos destinos onde queria ir, alguns que sei impossíveis, outros que ainda me parecem possíveis de lá chegar. Para o que não cumprirei falta-me o dinheiro ou a companhia ou a saúde. Tento, ao deparar-me com as barreiras, entristecer sem me deixar derrotar. Contornar as dificuldades, encontrar pequenas soluções. O por do sol em Monsaraz não será igual ao das Ilhas Gregas mas será ainda assim um alento para um coração que quer viver.

~CC~






quinta-feira, 20 de julho de 2017

Talvez o seu nome seja morte, talvez o seu nome seja monstro



Não sei se ganhei medo em estar sozinha, mas acho que não, há por vezes só alguma sensação de vazio, outras, uma ligeira ansiedade, traduzida por uma inédita alergia ao silêncio, qualquer coisa que uma televisão ou uma rádio não anulam. Trata-se de uma espécie de buraco negro no qual fico suspensa com uma tristeza sem sentido, quanto mais o buraco me absorve, mais o pânico acontece. Talvez o seu nome seja morte, talvez o seu nome seja monstro.

E o buraco negro apanha-me mais quando estou sozinha, como se estivesse ali, tal qual bicho papão à espera de me agarrar. Os outros não são sempre protectores nem o são todos, já fui apanhada mesmo na presença de outro alguém.

Mas são protectores sobretudo aqueles que têm colo para dar, que sabem que também os adultos precisam de um lugar onde esconder o rosto, de quem grite aos monstros, esvazie os buracos negros, amanse as feras, em síntese, de quem sabe o que é ser terno, dar ternura. 

~CC~

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Combinações


Não é raro, contudo nem sempre acontece esta combinação meteorológica, o tempo exterior a combinar com o tempo interior, numa conjugação de nuvens. A culpa talvez resida nesta pequena dor que antes nada seria e agora é assustadora, ou no cansaço que se tem vindo a acumular por força da energia interior, essa sim, já não combinar com o que o corpo deixa. 

~CC~

sábado, 15 de julho de 2017

Educação emocional



A criança, cerca de cinco anos, vinha no comboio com os avós e o pai. Não foi clara para mim a situação conjugal dos pais, pareciam estar separados e a mãe já tinha outra criança, uma vez que o pai disse-lhe: pergunta à mãe pela tua irmã. Ele perguntou e a mãe respondeu, pelo que a criança informou o pai: ela esta a mamar. E o pai num tom de voz claramente educativo e assertivo disse-lhe: não é mamar que se diz, é beber o leite. E a criança: isso pai, beber o leite.

Assim se preparam as pessoas para se distanciarem do seu lado bicho, mesmo que esse seja essencial à vida humana. Pela vida fora saberão que não é bonito dizer coisas que são afinal lindas.

~CC~