sábado, 14 de outubro de 2017

O lado lunar



Desde que a Susana escreveu isto sobre as lojas chinesas que ando a pensar no assunto. Mas nas últimas duas idas às ditas, a minha imagem sobre elas sofreu um forte abanão.

Tive durante muitos anos uns vizinhos chineses e havia entre nós cordialidade mas nada de confianças. Pedia-lhes para saltar da janela deles para a minha e assim entrar em casa quando me esquecia da chave, mesmo sendo um 6º andar (que loucura, penso hoje) eles acediam. As crianças e os jovens nunca vieram brincar connosco para o enorme terraço onde todos nos juntávamos, mas sorriamos e acenávamos e dizíamos sempre olá. Nunca lhes ouvi uma briga, uma discussão, um ralhete. Eram muitos mas tudo parecia funcionar na perfeição. Nesse tempo, nos anos 70 e 80 não havia ainda lojas chinesas, creio que o seu grande boom foi nos anos 90.

Rejeitei nos primeiros anos a entrada em qualquer loja do tipo, pensando que qualquer compra iria alimentar o trabalho infantil, coisa mais parva de se pensar uns anos depois, quando todos ficámos a saber que as grandes marcas (e caras) tinham as suas fábricas na china ou lá por perto. Depois de entrar foi a luta contra o cheiro a naftalina, agoniava com o cheiro e tinha de sair imediatamente. Certo é que agora cheiram muito menos. Como a Susana, tenho um companheiro que as frequenta amiúde, que gosta de se perder nas milhares de coisas que há por lá. Eu continuo a aguentar pouco tempo, mas vou sempre que é isso que se afigura o mais razoável e necessário. Sempre lhes admirei o silêncio, a cordialidade para com os clientes, o modo como toda a família se mobiliza para lá trabalhar e como as crianças são lá criadas até irem para a escola. 

Mas as duas últimas idas a estas lojas mostraram-me um outro lado ainda não visto e ou eles estão a aculturar-se ao pior do ocidente ou este lado mais escondido esteve oculto muito tempo. Numa delas ia jurar-vos que o empregado ou proprietário se estava a masturbar junto às meias e cuecas das senhoras, certo mesmo é que quando eu entrei o homem, meio estremunhado (a loja estava vazia) puxou o fecho das calças e abotoou o cinto. Parece coisa de filme, pois parece, mas acho que estava mesmo a acontecer. Fiquei à entrada a remexer numas coisas deixando-o compor-se, mas confesso que tive dificuldade em entrar e agir normalmente. Na outra, uma empregada ou proprietária estava simplesmente aos berros com um cliente, primeiro em português, depois quando ele saiu, ela continuou  em chinês com as outras colegas, tão mas tão alterada que pediu à outra para trocar de lugar com ela. Fiquei incrédula porque nunca tinha visto um homem chinês a gritar, quanto mais uma mulher. Se calhar não há povos que não sejam violentos e é verdade que há na literatura e na cinematografia chinesa alguma dessa violência. Se calhar eu era que não a conhecia, não a identificava, não a imaginava (as ideias que construímos dos outros). Ou então, como canta o Rui Veloso, temos todos um lado lunar, um vulcão adormecido, que a mim me apareceu assim de forma inesperada e mesmo inóspita no rosto de um povo.

~CC~








quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Mudar de pele



Já andam os dias a correr à minha frente, a fugir-me. Tantas reuniões para tão pouco proveito, deixá-las correr, não me importar em demasia o que não foi, o que podia ter sido, o que não consigo. Não é fácil, hoje disse ao colega que me pediu o texto que não o tinha conseguido fazer, que o melhor era não contar com ele. Mesmo assim ele disse: tu consegues. Rapidamente as pessoas se esquecem que já não somos as mesmas.

Já andam as noites a prolongar os dias, reclamando o direito a existirem como tempo de solidão e descanso. O dique a colocar entre mim e a inquietação. 

Uma pausa, a necessidade de respirar entre duas aulas, sentar-me a meio delas, mesmo que só um bocadinho. Nesses momento a plena consciência de que sou outro eu.

É o corpo, a sua sabedoria. Eu a escutá-lo, isso aprendi. Saber adiar, saber parar, deixar escapar coisas, cancelá-las se necessário. Aprender outra vez tudo quase como se tivesse nascido outra vez. Aprender o que posso e não posso comer e, sobretudo, como devo comer. Muitas vezes tem corrido mal. A dor, as dores, às vezes incompreensíveis.

Mudo agora de roupa quando chego a casa, como tu fazes. É como se com isso me obrigasse a um outro tempo, ao corte com o trabalho, a não voltar a ser o que era. Devia ser como um bicho e ter de vez mudado de pele.

~CC~




domingo, 8 de outubro de 2017

O factor P



Há um barzinho junto à partida dos barcos, junto ao rio. Foi lá que parei depois da caminhada, após semanas sem me mexer para além das lides domésticas e das aulas. Pedi um sumo de fruta natural que veio maravilhosamente apresentado num copo alto, com uma palhinha preta comprida e um pedaço de fruta seca por cima. Paguei dois euros e cinquenta pelo sumo, cuja quantidade era tanta, que tive que beber devagar.

No dia a seguir, numa das praias populares da região, também queria um sumo natural, mas o preço de quatro euros ou quatro euros e meio demoveu-me. Pedi um sumo de garrafa. Paguei por ele dois euros e cinquenta, o mesmo que tinha pago no dia anterior, pelo belíssimo sumo natural. Olhei para a praia de sempre, linda, para a Arrábida ao fundo, para o mar tão azul, pensei que a paisagem não devia ser cobrada no sumo, é um bem colectivo.

No dia a seguir, num jardim recentemente requalificado e num café também novo, bastante bonito e agora muito bem frequentado, o mesmo sumo de garrafa custou-me um euro e cinco, exactamente o valor que pago na cantina da escola. Não incluíram o lago e os cisnes brancos no preço, nem as crianças a brincar. 

Cobrar a beleza dos lugares de tal modo a torná-la inacessível ao cidadão comum, reservando-a para os com mais posses, para os turistas, para os afortunados da vida, é uma coisa que me repugna. E por ora isso depende apenas da moral de cada um, da pessoa que mora em cada empresário. O lucro fácil está em reedição.

~CC~







quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O dia e a noite



É de noite que os fantasmas voltam amiúde, aproveitando o meu ego desligado.

Duas noites de pesadelo. Numa, a morte a rondar, sempre a perseguir-me, a detonar em coisas tão concretas como os travões avariados, o cinto do carro cortado, o elevador sem freio. Sem nomes concretos de quem me queria tão mal, só as sombras, as suspeitas, esse irracional chamado mau olhado. Noutra, a traição sempre à espreita, um ente amado sempre rodeado de muitas amigas, a clarividência do que está à mostra mas o outro não vê ou não quer ver, essa atracção pelo abismo feminino que sempre o toca mais do que qualquer dor de outro ser mais próximo, às vezes do próprio sangue. Amizades que de dia são apenas incompreensíveis na sua estrutura relacional mas à noite se concretizam em traição efectiva. Seria demasiado simples pensar numa conversão do ciúme, é antes um mal estar pequenino que vem de muito longe e nunca morreu por completo, por mais que os dias difíceis o tenham quase apartado.

O que apagamos com tanto desvelo e cuidado à luz do dia, abafando sombras como quem tricota uma camisola, como é que a nós retorna em dor nocturna, desfazendo a malha feita.

~CC~

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Até gostei



Ri-me do que se desarrumou.

Esta tendência para a anarquia é crescente em mim. Ou talvez a capacidade de me rir das coisas.

Que bom foi ver a desorientação, o desnorte, a perplexidade de quem julga que todos os dados estão lançados e o povo é parvinho. 

A derrota do candidato do PS em Vila do Conde, da CDU em Almada, do PSD em Lisboa e no Porto.  

As proclamadas vitórias um bocadinho patéticas: meia dúzia de miúdos a gritarem pela Cristas em Lisboa, o tom zangado, quase justiceiro de Rui Moreira no Porto (era escusado), Salvaterra de Magos como uma miragem delirante do Bloco.

E todos a zurzirem no Isaltino que parece uma imagem desfocada de si próprio, que grande confusão há quando o aparelho partidário nada ordena. Todos a acharem inexplicável a vitória de um aldrabão como se não houvesse tantos assim na história, em sua defesa ele tem que cumpriu pena, outros (ai tantos) não.

Foi ainda a vez que votei com menor convicção, logo eu que acho mesmo piada é ao poder local. Sinal de que por aqui também um susto não tarda nada e vem mesmo a calhar. E nem um sinalzinho de um movimento de cidadãos, ai fosse eu mais jovem.

~CC~