domingo, 29 de outubro de 2017

Os poetas



Ele disse muita coisa. A viagem demora 3 horas e ele tinha oitenta e um anos e meio, por isso muito para contar a uma desconhecida à qual tinha roubado o lugar à janela mas que insistiu em devolver.

De tudo o que disse registei sobretudo o momento em que relatou que há dois ou três anos ainda fazia a viagem mais vezes de carro do que de comboio. Era noite cerrada, já passava da meia noite e o carro avariou em plena auto-estrada. Ele, tal como ainda hoje, sem telemóvel (não lhe faz falta), acenava aos carros sem que nenhum parasse. Mas não teve medo, pelo contrário, era Verão, sentia a aragem da noite e ouvia os bichos pela calada da noite. Ficou ali a fruir do momento, a ver a lua, a sentir a brisa ligeira, a ouvir as cigarras e os grilos e outros animais cujo som só vinha da sua passagem pelas folhas. E depois lá parou alguém, passado algum tempo, muito tempo. 

Mas o que ele guardou não foi a mudez do seu carro vintage que ainda hoje usa para as voltinhas na cidade mas a poesia da noite de Verão. Há por aí tantos poetas escondidos no interior das pessoas.

~CC~

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Tanta solidão



A médica de família desabafou, entre a tristeza e a indignação:

- Hoje atendi uma velhota que veio cá só para me dizer que comprou um soutien novo.


Das coisas que mais me impressiona é a solidão dos mais velhos, os dias e dias que passam sem falar com ninguém, a televisão sempre ligada, a tentação de fazer a chamada para o programa de televisão onde sorteiam qualquer coisa, por vezes com a única intenção de interagir com o mundo, saber-se vivo. Soubessem, sentissem os mais novos que também chegarão lá, a esse lugar tão difícil, e correriam a ligar aos avós.

É tanta, tanta a solidão.

~CC~

domingo, 22 de outubro de 2017

Cansaço feliz



Fico espantada comigo própria e com a forma como mudei a minha exigência, quer para comigo, quer para com os outros. Dizem-nos que ter a fasquia muito alta é positivo mas a mim sempre me trouxe grande insatisfação. Foram raras as vezes que apreciei em pleno um congresso, saí contente de uma reunião, realizada de uma aula. Alguma coisa estava sempre em falta: em rigor, em qualidade, em organização, em feedback, na avaliação. Muitas vezes nos outros, mas também em mim e comigo. É verdade que durante muito tempo isso foi o motor para me procurar superar e incentivar os outros a que se superassem. Mas hoje sinto que cheguei ao fim desse caminho, que já não é assim, que agora valorizo outras coisas.

Depois destes três dias de congresso sinto-me bem, realizada e feliz. E não é que este tenha sido melhor do que os outros em termos de qualidade, possuiu exactamente os mesmos defeitos, os mesmos problemas, as insuficiências conhecidas em termos de contributos para a comunidade de saberes e para os profissionais ao qual se destinava. Poderia dizer que fazer parte da organização do princípio ao fim também muda a perspectiva das coisas, por dentro as falhas são muito mais compreensíveis. Mas não é só isso, não é bem isso. É mais o centro onde se foca a nossa atenção. E no meu caso ela está nos laços, na rede que estas coisas permitem construir. Está em cada momento informal em que rimos, dançamos e nos abraçamos, naqueles minutos em que nos esquecemos que uns éramos professores, outros alunos, uns professores doutores e outros profissionais acabadinhos de formar, na forma como despimos pergaminhos, estatutos, papéis. Nos abraços dados a quem já não via há tanto tempo. No coro de velhotes alentejanos que veio partilhar connosco o jantar antes de cantar para nós e connosco, na moça do acordeão que nos pôs a dançar, no espanto que foi ver os alunos a fazer pequenas peças de teatro, em ver que não estão lá só os mais afoitos mas também os mais reservados, os que mal acabaram de chegar. Dizem-me que me canso e canso é certo. Dizem que não devo, não posso. Mas este já não é o mesmo cansaço que era, um cansaço tantas vezes recheado de desgosto do mundo, este é agora um cansaço feliz.


~CC~






quarta-feira, 18 de outubro de 2017

E não andam a ler-me...



Os miúdos...não é que não andam a ler-me mas ouviram de alguma forma os meus lamentos, leram a minha tristeza...e viram umas notícias?

No final da aula, a pergunta...podemos colocar uma questão à turma? E queríamos que a professora ficasse também. A proposta é de angariação de fundos para as populações vítimas dos incêndios. Não sabem bem como, para onde, que coisas...não estão por um lado habituados a organizar-se, por outro é mesmo difícil pensar nas formas viáveis e justas de chegar às pessoas. Mas a vontade está lá. Não são os mesmos do outro dia, é outro curso, outra gente, outra sensibilidade. Afinal não há "os jovens", há muitos jovens, alguns mostram uma face generosa perante a brutidão do mundo. Agradeço-lhes a esperança.

~CC~

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

De pernas para o ar



O mundo, sabemos, anda de pernas para o ar e às vezes parece-nos completamente incompreensível.

Ontem foi um desses dias, um país a arder em Outubro.

Não consegui dormir e não estava perto de nenhum incêndio. A dor dos outros mexe muito comigo, perturba-me. Quero proteger-me mas nem sempre consigo. 

Esta manhã havia uma grande discussão em pleno bar, eram alunos aos gritos, exaltados uns com os outros. Pensei que discutiam alguma coisa da actualidade, talvez mesmo o dia negro de ontem. Mas não, era apenas uns que diziam que Messi fumava charros e outros que o diziam absolutamente limpo de qualquer mácula. Atónita, não consegui compreendê-los, ouvia o que diziam, mas não percebia de todo a importância do assunto. Só pensava nos mortos de ontem, nesse modo estúpido de se perder vidas. E no alheamento deles a tudo, no modo como conseguem, como tanta gente consegue. Sei que se lhes perguntasse diriam que não podem fazer nada, não podem e como tal não é com eles. Tenho vontade de chorar, já não sei se pelas mortes de ontem, se por uma parte significativa destes jovens alheados de tudo com os quais lido.

~CC~