Oiço-os com frequência: estás tão elegante! Quase sempre sorrio, tranquila nos meus 44 quilos, sem dizer nada. Que tenha passado do M/L ao S e passado a encarar com alguma estranheza o meu próprio corpo não lhes diz respeito. Não sofria muito antes com uns quilinhos a mais, não sofro agora muito com uns quilinhos a menos. O corpo é importante mas é muito mais o que vive lá dentro.
Hoje, contudo, um colega foi longe de mais, afirmou; nunca estiveste tão elegante, olha que há males que vêm por bem! Não pude deixar passar em branco tal disparate. E respondi-lhe que preferia não ter tido a doença e ter os quilinhos a mais. Mas fiquei a pensar neste enaltecimento constante da magreza, tão paradoxal com os milhares de páginas ocupados a falar de comida, os canais dedicados à gastronomia e o índice de peso da parte ocidental da humanidade sempre a crescer. E a pensar no sofrimento, não só dos muito gordos mas mesmo dos mais gordinhos e gordinhas, e sabemos que parte da responsabilidade nem sempre é deles, há pessoas a comer o mesmo com resultados muito diferentes.
O meu corpo está magro mas não está bonito e disso tenho plena consciência, foi com esforço, talvez muito mais esforço que este ano me enfiei num fato de banho para ir à praia. Aliás não sei se os corpos magros são, só por isso, belos. Também não são necessariamente saudáveis os corpos magros, sei agora o quão difícil é estar sentada muito tempo, como dói esbarrar nas coisas, como custa pegar num saco mais pesado. Sinto os meus ossos à flor da pele, sobretudo os das costelas e das clavículas e gostava, como antes, de os sentir mais resguardados por uma camada protectora. Que sabendo a razão pela qual eu perdi peso as pessoas possam elogiar-me como se eu tivesse feito uma dieta maravilhosa é espantoso. Algumas moderam-se e dizem simplesmente que estou bem assim, que não me preocupe, que tenho bom aspecto, é uma nuance que faz toda a diferença.
~CC~