A vizinha desapareceu misteriosamente durante a pandemia. A varanda, antes tomada pelas amigas alemãs que bebiam madrugada dentro, falando em voz alta e soltando gargalhadas capazes de chegar ao outro lado da cidade, está agora tomada pelos pombos. Verão após Verão eu sabia que elas chegariam, que eu teria dificuldade em adormecer, que as vozes delas ficaram a ecoar na minha cabeça dentro dos sonhos. A vizinha parecia então outra pessoa, não baixava os olhos ao passar por nós, às vezes até sorria. Ora depois da morte do seu querido cão grande ela passou muito tempo sem sorrir.
A varanda está abandonada, suja e triste. Não sei o que fazer para saber dela sem ser intrusiva. Já pensei tocar à campainha, ligar para a administração do condomínio, perguntar ao vizinho que tal como eu e ela somos aqui os mais antigos. Nunca pedimos salsa uma à outra, nunca trocamos mais do que duas palavras, nunca nos ajudámos no que quer que fosse. Percebi, pelas suas ruidosas conversas na varanda, que muito me separava dela. Mas era também era uma mulher livre, senhora de si, disso eu gostava.
~CC~
