quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Vizinhança

 

A vizinha desapareceu misteriosamente durante a pandemia. A varanda, antes tomada pelas amigas alemãs que bebiam madrugada dentro, falando em voz alta e soltando gargalhadas capazes de chegar ao outro lado da cidade, está agora tomada pelos pombos. Verão após Verão eu sabia que elas chegariam, que eu teria dificuldade em adormecer, que as vozes delas ficaram a ecoar na minha cabeça dentro dos sonhos. A vizinha parecia então outra pessoa, não baixava os olhos ao passar por nós, às vezes até sorria. Ora depois da morte do seu querido cão grande ela passou muito tempo sem sorrir.

A varanda está abandonada, suja e triste. Não sei o que fazer para saber dela sem ser intrusiva. Já pensei tocar à campainha, ligar para a administração do condomínio, perguntar ao vizinho que tal como eu e ela somos aqui os mais antigos. Nunca pedimos salsa uma à outra, nunca trocamos mais do que duas palavras, nunca nos ajudámos no que quer que fosse. Percebi, pelas suas ruidosas conversas na varanda, que muito me separava dela. Mas era também era uma mulher livre, senhora de si, disso eu gostava.

~CC~


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

E tu, o que aprendeste nas férias?

 

Gosto muito das perguntas que a Ana faz a si própria.

O que aprendeste nas férias? É essa a pergunta subjacente ao seu texto. É bom pensar com os nossos botões.

Mas a minha resposta poderia ser quase oposta à dela pois a minha vida não se faz com três rapazes em casa, por isso ela aprendeu a estar só e eu aprendi novamente a estar rodeada de gente.

E mesmo antes das férias, no primeiro período de desconfinamento, quando começamos lentamente a sair. E não foi fácil. Ao contrário de muitos, custou-me o bulício da cidade, os restaurantes e as praias cheios, as vozes, as gargalhadas, os guinchos e os gritos.

A primeira vez que reuni uma manhã inteira com dois colegas de trabalho dos quais gosto muito e há muito ultrapassaram a barreira de serem apenas uma relação de trabalho fiquei emocionalmente exausta. Precisava urgentemente de silêncio, de não ouvir vozes, de não ter que prestar atenção a alguém, no final já praticamente não conseguia responder. Foi um bálsamo chegar a casa e estar sozinha.

Estar com crianças, vê-las brincar, interagir, suportar os gritos, as gargalhadas, o ruído, tudo isso tive que reaprender. Só aí tive a plena consciência da bolha em que vivi entre Fevereiro e Junho, do efeito do teletrabalho, da modificação das relações sociais e profissionais.

Eu, nas férias, aprendi o que era estar de manhã à noite, dias e dias, sem estar sozinha. E tudo o que a relação com outros implica: cedências, atenção, negociação, entrega, descentração. Tinha, em parte, desaprendido. 

~CC~


domingo, 6 de setembro de 2020

Pó de estrelas

 

Escolho o caminho mais longo para regressar a casa apenas porque por ele posso espreitar como está a luz sobre o rio agora que o Verão começa a declinar.

Escolho o café pela beleza da esplanada e comecei a ir a um apenas porque a proprietária a cercou de flores e tenho a ilusão de estar dentro de um jardim. Interrogo-me como faz para estarem sempre floridas.

Deito fora objectos úteis se estão velhos ou partidos mas guardo outros inúteis por serem bonitos ou me contarem coisas do passado. 

Ia aos castelos de todas as terras e terríolas para ver o mundo de cima e respirar o odor das pedras antigas que contam histórias e por isso escolhi esta casa, tinha vista para dois castelos.

Uso receitas mas nunca as sigo completamente, mudo ingredientes e dosagem. Às vezes resulta, outras é desastroso.

Não sou totalmente isenta de racionalidade e sentido prático, sei o que são, aplico-os algumas vezes,  sei aliás que foi isso que me deu rumo e me tornou auto-sustentável, a única coisa para que me serviram os pés na terra.

Mas a maior parte do tempo o meu norte é só pó de estrelas. Talvez por isso me custe a compreender as pessoas sem sonhos.

~CC~



quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Turismo de corredor

 

Todos os dias a conversa do corredor para o Reino Unido. Serei eu a única farta desta conversa? 

Não pode ser um corredor para o Japão? Parece que também por lá há gente rica, com possibilidades de  animar o turismo do Algarve e da Madeira, sobretudo aquele que não se soube reconverter e consiste em colocar as pessoas meia dúzia de dias empilhadas numa torre cheia de quartos, as faz passar o dia em torno de uma piscina e os serões nocturnos em joguinhos de bingo e afins. Há uns anos num desses resorts uma estudante que apoiava num estágio tentou por tudo fazer uma feira de sabores locais, projecto que acabou no lixo, a administração dizia que os turistas procuravam os mesmos produtos que tinham em casa. 

Em Sagres, o proprietário de uma das cervejarias mais conhecidas disse-me que desde o início do Verão que estava sempre tudo cheio ao almoço e ao jantar. Pela primeira vez, a maioria eram portugueses. Mas segundo ele, comem tanto ou mais do que os outros...e nem pedem peixe com batatas fritas...

~CC~


terça-feira, 1 de setembro de 2020

Setembro, meu querido mês

 

Setembro, um pouco adiante, é mês de nascer.

Por isso, Alexandra, não me importava mesmo de nascer com uma cabeleira afro, mais morena do que loura, se possível.

Por métodos naturais, o melhor que consigo é o que está na foto.


~CC~