quarta-feira, 7 de junho de 2017

Outra vez



Outra vez a aula de yoga centrada praticamente só no relaxamento.

Outra vez a viagem à infância, à felicidade do brincar. Consegui lembrar-me das bolas de sabão feitas em cana de mamão, das mangas sumarentas apanhadas no quintal, das comidas exóticas que as bonecas comiam, do tio da TAP que trazia magníficos chocolates...o problema é que também me lembrei dos carreiros de formigas desviados do seu caminho, dos objectos colocados no meio da rua e puxados pela linha de pesca assim que as pessoas os iam apanhar, dos duelos que o meu irmão fazia com o galo...pensamentos pouco zen, pouco adaptados à aula, ao lado. Não sei o que fazer comigo...

~CC~

terça-feira, 6 de junho de 2017

Um coração a correr à solta



Quase tudo igual, só eu estou diferente. Por fora comentam muito, é a magreza a que chamam elegância, a cor do cabelo que até perguntam se era igual àquela com que nasci. 

Por dentro não sabem, não se vê.

Nunca fui quieta nem calada, mas agora há uma revolução interior. Cansei-me de usar filtros. Apetece gritar e gritamos mesmo. Perdi o medo de me indignar em voz alta. Todos me dizem para não me irritar, que me fará mal. Descubro, contudo, que não é a irritação que me faz pior, é abafá-la. 

Devolvem-nos a vida e é isto, um coração a correr à solta.

~CC~


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Um selo?!



A Ana deu-me um selo, ou melhor, um selinho, estes selinhos costumam empreender a sua viagem a partir de um qualquer sítio de origem. A Ana é uma irmã gémea que descobri aqui, tem quase tudo o que eu tenho, desde a idade ao dia de nascimento, mas não matou a sua parte espiritual como eu matei depois de militar, muito nova, numa organização séria da coisa. Por isso quando a leio é como essa parte de mim cheia de deuses e teias místicas com o universo, nascesses algures naquele lugar em que a deixei. E há também essa coisa de ser um ser humano magnífico. Nunca fui dada a correntes, só mesmo a Ana para me fazer participar.

Se eu quisesse ser alguém nos blogues escolhia alguém nas antípodas de nós mas ainda assim também com alguma coisa de nós. Escolho-a pelo absoluto desassombro da escrita, pela coragem, por se estar nas tintas para os blogues e, em geral, para o que pensam dela. Escolhia esta Ana, que nem deve saber que existo, que existimos.

Por uma razão completamente diferente, designadamente por  ter sido a única pessoa dos blogues que conheci pessoalmente, pela persistência dos nossos contactos ao longo dos anos, pela paixão que nutre pela escrita, poesia e poetas, nomeadamente pelo José Gomes Ferreira que quase só ela costuma colocar por aqui, escolho a Deep do Letras são papéis. Ela, sim, sei que poderá dar continuidade a este desafio.

Nos cinco que faltam estão todos os laços, todos os outros que frequento, comento, gosto, que foram e vão entrando pela vidinha dentro, muitos já nomeados por outros. Não sou capaz de mais escolhas, fazer duas já foi muito difícil.

Perdoem-me que faça uma parte da coisa não fazendo outra, eu sou mesmo assim, quase só faço o que me apetece, sobretudo aqui.

~CC~


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Andorinhas



Voltam, elas voltam ao mesmo local onde colocaram o seu ninho. Insistem, mesmo quando lhes tentam desfazer os planos. Aqui fizeram-no num sítio altamente improvável, mesmo por cima da porta da entrada na cozinha, logo a porta que se abre mais. Pudemos assistir a tudo, ao depósito dos pequenos ovos, às cinco crias que abriam os bicos mal ouviam um barulho, num pedido estridente por comida, ao modo como cresciam e mal cabiam no ninho, ao modo como a mais frágil foi atirada para fora e morreu aqui no chão, mesmo ao pé de nós. Agora os pequenos já voam o dia todo e voltam para dormir à noite, enfiando as cabeças para dentro do ninho, já não cabem lá dentro. Os pais ainda vigiam, dormindo por perto, no telheiro. Como é que esta vida se passou a desenrolar em locais urbanos, na proximidade dos humanos, é coisa que me espanta mas me maravilha.

~CC~


sábado, 27 de maio de 2017

É o que verdadeiramente importa


É uma nota tão pouco usual que parei nela...na semana em revista, assinada por Pedro Cordeiro no Expresso, entre políticos, vedetas do futebol ou do cinema, aparece o seguinte:

Jacarandás
"Este foi o seu mês. Num ritual que compensa o seu carácter efémero com a promessa de se repetir ano após ano, encheram os céus de roxo e animaram o quotidiano de quem sabe olhar para eles"

Fico a imaginar um jornal assim, todo feito de poesia, iluminador e iluminado.

~CC~