sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Filhoses de Cabrela

 

Fui atrás de um pátio onde se falava de livros.

Descobri muito mais. Não se admirarão se vos disser que o Alentejo é o que de Portugal tem de mais parecido com Angola, a terra em que nasci. Bem sei, tão diferente. Mas é o horizonte largo, a vista inteira do céu, as estradas que parecem não acabar, a sensação de liberdade. Por isso é talvez o território para onde sempre quis ir, quando se escolhe a morada, aquele lugar que não achámos, não temos. Se, contudo, for muito interior, irá faltar-lhe o barulho do mar e secarei com a falta de água salgada. Se ficar muito no litoral, será inevitável que se oiça mais Inglês do que Português, perderá o encanto.

Há no Alentejo lugares muito bonitos, quase museus vivos. Cabrela não é nada disso, não tem casas caiadas com barras da mesma cor, não tem largos abertos e ruas cheias de laranjeiras amargas, não tem sequer um aspecto coeso e uniforme, tem palacetes e casas minúsculas. Apenas a Igreja é imponente. E tem o mural das letras, coisa recente e inventada para colocar uma vila no mapa trazendo escritores famosos. Não tem grande mal, faz acontecer, mesmo que venham mais pessoas de fora da vila, do que de dentro. Gosto de lugares imperfeitos e este é.

O que não esperava encontrar em Cabrela era a minha mãe. Pois, as filhoses de Cabrela são as mais parecidas que encontrei às da minha mãe, não no formato, mas sim no sabor. Não sei como, ela era Algarvia. São as maravilhas que a vida nos traz. Estou em Cabrela com as filhoses da minha mãe e os livros do meu pai. E se eles eram um casal improvável.

~CC~


8 comentários:

  1. Boa noite CC, diz que gosta de lugares imperfeitos, e de pessoas?

    PS - nunca mais é domingo...

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    1. Sim, também gosto de pessoas imperfeitas. Mas depende das imperfeições... Domingo está quase aí, não é?! Que veloz passa o tempo.

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  2. :) Pois, Cabrela é assim mesmo. Mais ou menos. O interior da igreja é pequeno, soa mais a capela que a igreja. Mas, por ter sido vila antiga e de senhores, a igreja tem um adro murado a toda a volta e uma torre sineira. E tem as filhós. Tentaremos escolher as melhores no próximo fds (amanhã?). Ainda que as não coma, há quem goste.

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    1. Quem me dera estar lá este sábado, mas não vou conseguir. Aquelas filhoses com café de cafeteira...oh que maravilha! A igreja estava fechada quando fui, talvez para a próxima...Desfrute do dia por mim, ainda por cima há música na Igreja...

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    2. Interessantes as memórias que lhe acordam as filhoses de Cabrela. O meu café preferido será sempre o delta platina de cafeteira, mas com leite. Ou, por exemplo, o capuccino dos cafés Portela e que raro bebo, mas acho uma delícia.
      Pena não poder ir. Lá estarei com o grupo de minha mana. Para tarde e noite:)
      Bom Fim de Semana, CC.

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    3. Cafés Portela...nem imagina o quanto significam para mim...que tal 11-27? É só decifrar...

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  3. Que crónica maravilhosa. Não conheço Cabrela, fiquei curioso.

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    1. Uma vez por mês há conversa sobre livros, às vezes com a presença dos escritores...isso torna a vila mais encantadora...mas só fui uma vez, convém estar atento porque o espaço é pequeno, se conduz ou tem quem o conduza, é simples, se não...não imagino chegar lá de transportes. Quanto às filhoses...estou curiosa em saber se existem todo o ano ou só agora. Obrigada por vir, por gostar, é sempre bom saber que há alguém aí desse lado à escuta.

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