quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

As 12 passas

Nascida nos anos e nos dias pares, sempre preferi os ímpares. Mas analisando os anos ímpares foram afinal dos mais tormentosos e os pares mais cheios de acontecimentos felizes. Tudo isso me mostra a irracionalidade das coisas e a minha própria. E só essa pequena dose de irracionalidade que em mim mora me permite perceber como ela é capaz de dominar as pessoas. Esperam ganhar o Euromilhões para concretizar os seus sonhos, fazem conjecturas de vida a partir de folhas de chá, acreditam na justiça divina e até que organizar um simples esquema de vacinação coletiva as torna competentes para presidirem ao destino de um país.

E se antes esta dose de irracionalidade tinha tendência a combinar-se com falta de instrução, vulnerabilidades pessoais ou sociais, credos e estilos alternativos que apenas levavam alguns consigo, parece agora que a irracionalidade alastra alegremente como se tudo fosse possível de dizer e permitido de ser.

Somos todos presas fáceis da magia, afinal comemos 12 passas, colocando em cada uma um desejo. Só a admissão de que somos todos um pouco tontos nos permite perceber a tontice que em todos reside. Ainda assim é bom mantê-la numa dose pequenina.

Desejo-vos assim que se mantenham lúcidos e de olhos bem abertos, os tempos estão difíceis. Mas não se tornem amargurados, também é preciso saber rir.

~CC~


15 comentários:

  1. O texto transmite uma mensagem sensata e equilibrada. Encoraja a manter a clareza mental e a vigilância num contexto difícil, sem perder o humor. O tom é sóbrio, com espaço para a resiliência e a leveza, o que é adequado em Portugal.

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    1. Obrigada Teresa, em Portugal e pelo menos no resto do mundo "Ocidental", isto porque do Oriente não entendo o suficiente...Um abraço

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  2. Actualmente não tenho quem me ajude nas limpezas, mas a penúltima empregada que tive (há quanto tempo que isso foi) dizia-me com ar sério senhor Joaquim não confio nada nessas coisas de astrologia e signos, é tudo uma fantochada, só acredito no que a minha cartomante me diz...
    Boa noite CC.

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    1. se houvesse possibilidade de sabermos quantos recorrem a tais coisas e quem, talvez ficássemos espantados...mais "Cascais" do que pode imaginar...até eu guardei o santinho cientista da minha mãe e tenho-o ao pé de mim e fui lá levar flores muitas vezes em nome dela e por ela...se pensar friamente, um disparate. Felizmente tenho aquela dose pequenina...mas avisem-me todos se ela crescer, costumo pedir isso à minha filha...

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  3. Comemos doze passas, ponto e vírgula. Estou certa de que nem metade dos portugueses o faz e quem a isso se dispõe não acredita nem um mínimo na força do desejo para concretizar doze sonhos (não sei onde iria eu buscar tanto sonho). É apenas um hábito desses mesmos. Mas pronto, entendi a ideia. Como entendo que um pouco de magia - como a CC reconhece - não prejudica e antes ajuda a viver.
    Estou algo curiosa para ver até onde chega a crença dos portugueses. O resultado das eleições falará por si mesmo e por eles (nós). Se bem que a racionalidade ande um tanto arredia do mundo mental, e não apenas no nosso país. Vamos ver.
    Entretanto. mesmo em tempos difíceis, há-de haver alguma coisa que nos disponha a alma e empreste, ainda que fugazmente, algum bem estar. Afinal, estamos vivos e "não há mal que sempre dure, nem bem que não acabe". Digo eu que sou povo do que lava no rio e já bebi um café.
    Um dia bom, CC.

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    1. Não tenho meios para aferir isso das doze passas, (quase) toda a gente que conheço o faz e os que dizem não fazer invocam ou a preguiça de as comer, ou a falta de sonhos que cheguem a 12 ou apenas que preferem beber:)))
      Sem café é difícil viver, também fui proibida o fazer e desobedeço alegremente todos os dias...Dia bom e com boas leituras Bea.

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  4. Pois é CC, tive de fazer uma segunda leitura...
    Ia tão embalado nas 12 passas, que me passou completamente ao lado a sua alusão ao almirante, por isso vou ter de deixar mais uma notinha.

    A minha amiga de esquerda, só para se meter comigo, disse-me é pá ó Joaquim viste o debate entre o anão e o capitão Iglo? Os dela têm nome, os demais alcunha. E eu pergunto-lhe e tu achas que o Seguro é seguro? Sabendo de antemão que ela só encontra segurança na extrema, no candidato comunista ou na CM. A CM devia ser um caso de estudo, que é o mesmo que o meu dentista me diz quando vê a chapa com os meus dentes inclusos. A mulher aparece sempre que há notícia, tem apresentação, fala de uma forma populista, mas tem tão pouca expressão nas urnas que para mim não deixa de ser estranho. Os jornalistas adoram-na e acho que a classe dos professores e dos artistas também.
    Quanto ao almirante é uma cartada no escuro, não vem do meio político, com tudo o que de bom e de mau isso acarreta e é fraco nos debates. Como já tinha dito à Bea, também me interrogo porque é que ele decidiu querer continuar a fazer história? Porque é que não se deixou ficar lá pelo almirantado, bem acomodado e à espera que o tempo passasse? Que espírito de missão ou sentimento religioso é esse?

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    1. Nem missão, nem sentimento religioso...penso que é um espelho mesmo grande onde ele se amplia, como acontece às pessoas que têm um grande ego...simples vaidade. Esqueceu-se, talvez, que os heróis da pandemia são os profissionais de saúde, enfermeiros/as e médicos/as, foram esses que aturaram as filas, as horas em pé, deram conselhos e animaram os mais velhos e os mais pequeninos, com sabedoria e muita calma. Que ele tenha cavalgado esse acontecimento tão trágico, desola-me e indigna-me. O que traz de diferente para além de não ter partido político? Não vejo nada. Pelo contrário serve para aumentar a onda de descrédito nos partidos políticos que é apanágio do populismo. De resto não comento, nenhum me entusiasma verdadeiramente, mas lá estarei.

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  5. sabendo que encaixo nalguma dessa irracionalidade :) e que também como as passas à meia-noite da passagem de ano :), aliás encho a boca com as ditas e engulo quase inteiras, pois na hora de formular desejos, resumem-se sempre a 2 ou 3 ... bem... o que quero mesmo é desejar um ano bom, amigo, pacífico e alegre, com muita saúde.
    Abraço, CC :)

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  6. Encaixamos todos um bocadinho querida Ana...para si e para os seus meninos grandes também! Abracinho

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  7. caminhamos por tempos difíceis, de hipocrisia e malvadez.
    resta-nos resistir e obrigado por mais uma belíssima prosa

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    1. Resistimos melhor quando nos sabemos colectivo, mesmo que seja pequeno. Um abraço e obrigada eu.

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  8. acho que todos os anos desejo mais ou menos o mesmo, mas este ano dediquei uma uva às minhas joias, a ver se alguma delas resolve ficar choca e me dá mais pintos. Agora que penso nisto, também devia ter comido uma passa pelas couves:)
    Também comi uma passa pela paz no mundo, que foi um desperdício está mais que visto... mas se calhar nã devia partilhar os desejos, como é que isto funciona mesmo?!

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    1. Ah, ah...funciona assim mesmo, com o máximo secretismo:)))
      Paz no mundo, parece que nem com as 12 passas lá chegamos e, como de nós depende tão pouco, fez muito bem em gastar só uma...

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