A miúda teve cinco negativas e por isso é preciso cortar alguma coisa, acabaram assim as séries e a autorização para as dormidas ao sábado à noite na casa das amigas. Encontro amiúde isto, um castigo não só deslocado do problema como sem nenhuma análise do mesmo.
Mas devia espantar-me pouco, se os os adultos poderosos no topo do mundo são incapazes de analisar problemas e pensar em estratégias adequadas para os resolver, como poderá fazê-lo aquela mãe, a educar uma filha sozinha, a sair às 7h todos os dias no comboio Fertagus e a regressar às 19h.
A racionalidade é decididamente uma coisa fora de moda, como se todos tivéssemos deixado de saber que 2 + 2 são quatro e todos estivéssemos autorizados a dizer que a soma dá qualquer outro número, a verdade é uma coisa relativa e a mentira afinal não existe, tudo é uma coisa que pode ser afinal uma outra.
Moldada no paradigma positivista da Psicologia que tanto trabalho me deu a desmontar e a criticar, nunca pensei ter disso alguma saudade. O caos que tanto me pareceu fascinante em tempos, agora só me parece sombrio, e tenho vontade da ordem, não como limite da liberdade, mas no que ela permite explicar e iluminar caminhos e dizer coisas inteligíveis.
~CC~
De facto, vivemos numa era onde a pós-verdade, o apelo emocional e a polarização muitas vezes atropelam o raciocínio lógico e a análise baseada em factos.
ResponderEliminarO pior é o "Sem nenhuma análise do mesmo". Proibir só para mostrar a insatisfação própria não resolve o problema do outro que, no caso, é uma filha. Ordem e inteligibilidade, poderiam resolver a questão.
ResponderEliminarÉ um facto, o caos, para os gregos, era o desconhecido não ordenado.
Boa noite, CC
A insanidade do castigo é terrível, pior que isso só mesmo a indiferença que é também prática de pais ausentes e/ou cansados. No poder tudo ainda mais perigoso. O caos no sentido filosófico até pode ser aliciante, os gregos sabiam muito. Bom sábado!
Eliminarhoje caminha-se pelo mais fácil, sem que se procure a raiz do problema.
ResponderEliminaro castigo, tantas vezes desadequado, é panaceia para todos os males
É a medida fácil da punição sem tentar entender e colocar o outro a ver, a analisar, a corrigir. Mas é outra vez a linguagem da força a que está a imperar e vemos traços disso em todo o lado. Eu vejo até onde não esperava ver.
EliminarEssa "vontade da ordem" pode ser perigosa. Se calhar é disso que tanta gente tem vontade quando segue "salvadores", "profetas" e outros vigaristas... Depois parece fácil e 2+2 é igual a 5 sem que ninguém se importe com isso. Orwell sabia isso há mais de 70 anos.
ResponderEliminarEstava a escrever e a pensar o mesmo, no perigo que era escrever ordem e racionalidade e no modo como essas palavras já serviram a criação de regimes totalitários. Por isso tentei conjugá-las com inteligível. Mas entendo o que dizes. Contudo, não quero viver num mundo que não distingue verdade de mentira e em que podemos dizer tudo sem qualquer necessidade de prova dos factos, creio que isso será uma regressão brutal.
ResponderEliminarO que se passa é que está a ser montado, à descarada, uma nova forma de escravatura. Como podem os escravos saber criar um filho, apreciar um acontecimento artístico, fazer uma viagem de férias, tornar confortável a sua casa, etc.?
ResponderEliminarUm abraço.