segunda-feira, 14 de julho de 2014

Excluir, excluir...



A inscrição para a 2ª fase dos exames do ensino secundário custa 6 euros para quem não teve nota negativa, um recurso custa 25 euros cada um, estamos, claro, a falar da escola pública. Dois exames na 2ª fase, dois recursos perfazem o total de 62 euros, sejamos sinceros, muitos pais não têm este dinheiro extra. A exclusão por motivos económicos na escola pública é das coisas que mais me incomoda. Há apoio social para isto? Duvido...

Gostaria imenso de saber se pagam aos professores para examinar os exames de recurso, certo é que o ministério recebe. Isto será uma forma de desencorajar o que o ministro tanto aprecia? O esforço por querer fazer mais, a necessidade de justiça que acompanha tantas vezes o querer ver outro olhar sobre uma prova?

Valham-nos os professores bons, acho que deviam ganhar mais, deviam ter recompensas pelo seu extraordinário esforço (há muitos países que o fazem). Falo de uma professora de Físico-Química da escola Secundária da minha filha, assim que saíram os resultados dos exames, ela disponibilizou todas as manhãs da sua semana para dar aulas extra até à data ao exame. Nem sequer é professora dela, aceita qualquer aluno do liceu que apareça. Os outros não estão lá ou se estão, não estão a fazer o mesmo. Quem os reconhece? Os alunos certamente e os pais também, todos os alunos dela obtiveram as notas mais positivas da escola. Tenho dúvidas quanto aos colegas, já fui muito criticada por trabalhar de mais e nunca criticada por trabalhar de menos. A minha filha diz que está a perceber coisas que em três anos nunca percebeu, não serão certamente só estes dias a colmatar falhas tão antigas, mas é meritório o esforço de quem faz e de quem lá vai.

~CC~

Adenda: Para quem tem acompanhado...A Matématica teve 18,7, foi bom...mas continua a sonhar com o 20. Fisíco-Química, com 13,5 valores deita por terra (por ora) o sonho de entrar em Medicina. Mas há mais épocas, mais sonhos, mais vida. Cá estamos, lado a lado.


domingo, 13 de julho de 2014

A morte adiada


Os velhos não vivem, adiam a morte entre duas doenças, as pernas que já não obedecem, os olhos que foram deixando de ver, o ouvido que ficou a ouvir tudo mais longe. Adiar a morte é uma coisa triste, adiam-na entre as memórias do que já foram, o lamento profundo da solidão que os habita, a inutilidade de sentirem que a vida, a que têm, de pouco já vale. Tanto esforço para isto. Tanta droga inventada, tanta máquina de suporte de vida, fisioterapia, centros de dia. Hoje ajudei mais uma velhota a carregar no botão para abrir o comboio, outra a saber onde era a estação onde devia sair, a escolher o papel certo para dar ao revisor. Apenas uma viagem de comboio e tantos velhos desamparados, viajando sozinhos, cheios de medo de passarem a estação, descerem do comboio, abrirem a porta. O revisor diz que há um sistema de apoio que tem que ser accionado com alguma antecedência para estes apoios. Duvido de tal coisa. As estações ao Domingo estão quase totalmente encerradas e as bilheteiras que abrem, fazem-no por curtos períodos. Ainda me lembro de viajar na carris e haver sempre um revisor, sempre alguém para além do motorista. Agora é raro. 

As aldeias, as vilas, as cidades estão cheias de velhos sós, muitas vezes doentes. Estamos longe de avaliar, de perceber a dimensão real do problema. Se a ajuda chegasse mais cedo, talvez não se tornassem tão amargurados, tão difíceis. À distância a que vivo da minha mãe, tento dizer-lhe que não pode viver na sombra do que já foi, de que a velhice lhe roubou coisas e que tem que as aceitar, que deve viver pensado em quem é e no que pode ter. Não é fácil. 

~CC~

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Dias tão lentos, dias tão velozes



Ontem o Domingo foi tão grande e com tantas estações do ano. De manhã a chuva dificultou os teus trabalhos no jardim da nossa amiga que nos deixa deambular pelo Alentejo. Caminhei pela chuva de verão com alguma tristeza de ver que não iria à praia. À tarde já estava sol e consegui deitar-me na areia e serenar, totalmente em paz com o mundo. Ouvir as ondas do mar, olhar os desenhos das falésias, ter-te assim a meu lado, faz com que o mundo me pareça um lugar melhor. 

E acordar segunda noutro lugar é muito bom, mesmo que venha a correr para trabalhar, ansiosa porque tenho trabalho de tarde e à noite. Acordei no Alentejo hoje e terminei a noite no Barreiro, acordei no silêncio e terminei a noite ruidosamente, entre 50 jovens dos 15 aos 18 anos. Pediram-nos que fizéssemos uma noite de quebra gelo mas sabíamos que há muito o gelo estaria quebrado e programámos antes desafio, incentivo à criatividade. Os jovens são sempre surpreendidos por estas propostas, primeiro ainda tentam esparvoar mas depois rendem-se e mostram as suas enormes capacidades, a criatividade é como um novelo, parece ser pequeno mas depois de desatado há fio e mais fio. Contudo, raramente é desatado, a escola prefere enchê-los de coisas como se fossem recipientes.

Eu era claramente a pessoa mais velha da sala mas senti-me confortável, bem com a minha pele. 

~CC~

terça-feira, 1 de julho de 2014

Essa coisa do amor



Às vezes quero ficar sem o meu amor, às vezes o meu amor quer ficar sem mim. Eu e o meu amor já ficámos um sem o outro. Pensámos que era bom, pensamos sempre que será bom, mas depois não é nada. O vazio um do outro é tão grande que não resistimos a procurar-nos. Não é pela solidão, é pelo vazio do outro.

Damos muito trabalho um ao outro. Eu só quero andar na rua, viajar, ir à praia. Crio redes e laços por aí e estou sempre a ir aqui e acolá fazer formações, comunicações, workhops e coisas dessas. O meu amor às vezes vai ver-me, outras tira fotos e de outras fica em casa. A minha sede de viver cansa o meu amor. O meu amor gosta de casa, de ler, de tocar viola, de passar muito tempo no computador, de plantar umas coisas no seu quintal pequenino, o meu amor inventa viveiros de pimentas e pimentinhas. O meu amor é desses que tem muitos amigos no FB e fala com eles e eles chegam de todo o lado, até da sua meninice. Eu não tenho amigos nenhuns virtuais, nem FB nem estou nada interessada no meu passado, estou sempre a voltar-me para o futuro. Eu dou muito trabalho ao meu amor porque ando sempre de um lado para o outro e ele fica cansado de vir atrás de mim e às vezes não vem e só quer ficar quieto. A minha cabeça está cheia de todos os lugares onde não fui e se criasse asas ninguém me apanhava, riscava o céu todo com o meu voo. O meu amor não tem essa vontade de viajar nem de ver lugares e pede-me que fique ao lado dele ao Domingo a ver um filme ou a dormitar e eu tento ser feliz nessa felicidade dele. O meu amor zanga-se às vezes muito e eu só me zango raramente mas a zanga dele passa muito depressa e a minha é funda, grande e demora a passar.

E entre as nossas diferenças tão grandes que obrigam o outro a sair de si mesmo, comemos comida picante, vamos ao teatro, passeamos na cidade à noite, vamos comer petiscos, contamos um ao outro as dificuldades que a vida nos põe pela frente e as coisas boas que descobrimos. O meu amor às vezes é calado e eu sou faladora, eu às vezes sou calada e o meu amor é falador. E são mais as vezes que somos as duas coisas, ouvindo o outro, falando ao outro.

Eu acho que o meu amor às vezes quer ficar sem mim e pensa que eu quero ficar sem ele. Nós já ficámos um sem o outro e eu só pensava nele e ele também pensava em mim. O vazio um do outro criou uma saudade imensa do nosso abraço coladinho. Eu às vezes penso que não gosto dele e que ele não gosta de mim. E depois ele vem de tão longe só para passar uma noite comigo no meio do Alentejo e eu  percebo o seu esforço e vejo que ele é mesmo o meu amor.

~CC~




Apontamentos de Loulé






Valeu a pena o esforço de lhe comprar a máquina, é tão bom ver o prazer com que fotografa. Finalmente um pouco de festa, o doce sabor de vos ter por perto. O arroz árabe, o prato fantástico dos queijos, os brincos azuis que me deste, por um bocadinho vencer a timidez e entrar na dança. Muito mais do que a música (o cartaz MED já teve melhores dias), o perfume do Verão a encher-me o peito.

~CC~