quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O bicho mau



Chegou aos 42, após dois anos de intenso cansaço sem saber o que fazer da vida, calores, sufocos. A filha nascida um ano antes com uma ligeira deficiência mental, uma loirinha linda de olhos cor de mel a que deu o nome de flor. Tinha nome de bicho ruim - linfoma. Seguiram-se dois anos de tratamentos e muita indisposição, muita tristeza, o salão de cabeleiro vendido, a vida virada do avesso, incapaz de segurar o secador de cabelo e o calor que dele emanava, sendo aí que residia o pão de cada dia. A pobreza a ameaçar como a doença. Coisas que valeram: o cabelo sempre muito rente depois de começar a crescer, os olhos pintados, manter o sorriso, a doçura. Agora outra vez o bicho ruim a querer casar-se com os cinquenta, a voltar novamente, a começar tudo outra vez. Aquele caroço no espelho, bicho mau que entra na maçã quando ela está bonita, madurinha. Estava eu com calores, estava eu faltar-me o ar, estava eu neste pré pranto que gosta de rondar-me os fins de tarde. Olhei-a, com o seu cabelo curto, quase da minha idade, o seu bicho mau muito pior que o meu, que eu saiba a minha lagartinha é qualquer coisa que eu hei-de domesticar. 

~CC~

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Este país é para velhos ricos



Estranhei que num fim de semana de Setembro a lotação estivesse esgotada em alojamento hoteleiro alentejano. Sabemos como o Alentejo é belo e eu perco-me pela sua luz, mas não faz propriamente o estilo do turismo de massas, sobretudo se não for mesmo à beira mar. Uma festa, imaginei. Casais com filhos desejosos de esquecer que começaram as aulas. Um evento por perto, por certo um congresso. Afinal pude constatar da casinha que a muito custo consegui que eram casais sexagenários ou mais ainda, a gozar o sol e chuva de um Outono tropical. Um pormenor: eram todos estrangeiros...do norte da Europa é claro. Este país é tão bom para velhotes ricos.

~CC~

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Dançar à chuva



A chuva apanhou-me na saída do dia e finalmente levou o calor que senti toda a manhã, toda a tarde. Pingos grossos, fortes. Eis o regresso à terra natal em pleno Setembro, já há quem lhe chame Setembro tropical. Mas há toda uma diferença difícil de explicar...tentando ser simples, eles parecem ter nascido felizes e nós tristes. Os velhos lá cozinham, fumam e dançam e aqui andam adormecidos a xanax, atrirados para cadeirões de centros de dia ou hipnotizados pelos programas de TV que parecem durar tempos infinitos. Nasci lá, vivo cá, já vivi aqui muito mais tempo. Mas ainda sinto, juro-vos que ainda sinto o chamamento, curiosamente não tanto para Angola mas para Moçambique, Brasil, Cabo Verde, S. Tomé. Dançar na chuva é diferente se sabemos que a seguir vem o sol, lava tudo e a seguir rimos e comemos galinha picante. Nada desta chuva que parece anunciar um longo e cinzento Inverno. 

~CC~

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Outra vez a escola



O meu regresso fez-se com dificuldade. Desligo a agulha, vou para muito longe, às vezes lugares tão felizes que não quero voltar, outras lugares menos felizes de que não sei como sair.

Regressei em dose dupla, eu à minha escola, a minha filha na universidade pela primeira vez. O meu regresso fez-se pautado por uma clara luta anti praxe, eu e alguns colegas fizemos um panfleto e um manifesto em que apontamos a degradação de entrar assim numa nova etapa da vida, incentivamos sem medo a recusa, assumimos. Muitos colegas não nos apoiaram mas não importa, quebrámos anos de marasmo, anos em que nenhum professor disse nada, acho que esses anos de conivência muda foram decisivos para a situação ter piorado cada vez mais. Os pais em casa a dizerem que a opção era deles e sem assumir uma posição, os professores mudos. Adultos demissionários geram jovens perdidos.

A minha filha está em casa sem fazer nada, em não querendo ir às praxes, não há mais nada, a escola paralisa porque os a favor da praxe estão na cerimónia  e os contra não põem lá os pés. Ficam, contudo, sem nenhuma informação, no limbo. Na Faculdade dela seria bom ter os sete resistentes que o ano passado, sendo alunos do 2º ano, foram às minhas aulas, tiveram essa coragem. Não a proibi de nada, assumi a minha posição, deixando que assumisse a dela, ia custar-me se ela fosse mas não a coagia a não ir porque estas coisas têm que se fazer em liberdade. Nada disto deve ser proibido, mas deve ser denunciado, apontado, discutido.

Por acaso acho que foi para mim um começo mais feliz, senti que tinha voz e falava.

~CC~




sábado, 13 de setembro de 2014

As noites brancas



Passei a noite com o nevoeiro, sem sono, atónita com este Setembro tão virado do avesso quanto eu. Aguento bem noites sem dormir mas aguento mal noites sem fazer dormir os outros. O meu mal é-me relativamente pacífico, aguento o sofrimento, mas muito mal o sofrimento que causo aos outros. Haverá por aí quem tenha insónias e resista a medicamentos para dormir? Agora o sol já espreita, assim a querer entrar dentro de mim, timidamente. E eu bem quero enrolar-me nele, pode vir sem o vigor do Verão, um céu mesmo pintado com algumas nuvens, mas que chegue doce para que me possa abraçar. 

~CC~