quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Ela (Her)



Imagino a tristeza profunda de Hillary Clinton. Estava com ela, claro. Mas como muitos, mais pelo que se lhe opunha do que por ela própria, penso que é nisto que a derrota começa.

É uma tristeza que nos varre a todos, à excepção de uma maioria que em silêncio votou e decidiu. O meu profundo respeito pela Democracia não permite que os insulte. Mas permite que me interrogue sobre as muitas falhas, algumas estão na Educação e na Cultura. Acreditar que o homem é contra o sistema, o homem vive dentro do sistema, apenas o discurso lhe foge para o popularucho, isso parece chegar para acreditar que é do "contra".

E a mulher. Queria muito gostar dela pela solidariedade feminina que corre no meu sangue. Mas tinha dificuldade, o meu afecto tolhia-se ao pensar nela. Como milhares de pessoas, sentia a falta de autenticidade. Dizia muitas vezes que ela tinha começado a perder no dia em que aceitou aquele marido, no seu perdão estava a fraqueza dela. Pensava muitas vezes em como é possível não ter virado a mesa, fechado a porta, começado nova vida. Tentava, contudo, fazer um exercício típico dos europeus: separar a vida privada da vida pública. Esta separação que nos é muito cara não tem qualquer eco na maior parte do mundo. Ela esforçou-se muito, merece a nossa consideração por isso. Contudo, o outro candidato do partido democrata teria sido infinitamente melhor. Não importa que fosse homem, aquilo que defendia era melhor, ele era melhor.

Já o tinha dito aqui, o século XXI avizinha-se mais difícil do que a segunda metade do século XX, vivemos alguns tempos de paz que nos trarão saudades. Os braços, contudo, não se podem baixar.

~CC~







terça-feira, 8 de novembro de 2016

19º dia


Os médicos são. às vezes, de uma precisão espantosa. Disseram que pelo 20º dia o cabelo começava a cair. Acordei várias vezes esta noite, incomodada, sem saber bem com quê. Pela madrugada olhei para o lençol, estava cheio de pequeninos cabelos (já estavam muito curtos). Sei-o desde o início, mesmo assim custou-me. Sei-o desde o início, mesmo assim esperei que não acontecesse. Não poderei passar desta semana a ida à máquina zero. Vou pensar em mim como uma árvore.

~CC~

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Laços



Ela escreveu: desculpa não estar próxima.
Ele disse: preciso de contacto corporal e encostou-se a mim docemente.

Mas eu já não sei bem o que é a proximidade. Já não sabia antes mas agora ainda menos.

Tenho um amigo da adolescência que passo anos sem ver. Telefona muito e passamos muito tempo ao telefone, sinto sempre que está próximo, no entanto, falta qualquer coisa. É o cheiro, o toque, saber como está agora o cabelo dele, se engordou, se continua magro, se se veste bem como vestia. Acho que precisava de o abraçar, embora a nossa relação nunca tenha sido muito efusiva desse ponto de vista. No entanto, tenho uma amiga que me abraça muito e tenho esgueirar-me de tanto contacto físico, não é por ali que me aproximo dela, outras coisas talvez.

O nascimento de duas crianças no Brasil, uma há dois anos e outra há um mês, sobrinhos netos, motivou aquela família (ele foi o meu primeiro sobrinho e como tal muito importante para mim) a criar uma aplicação que unisse os avós dos dois lados da família, uns na beira e outros no Algarve. Depois tudo se alargou, entraram tios, sobrinhos, primos...neste momento entre São Tomé, Brasil e Portugal chegam uma média de 20 mensagens por dia. Nunca quis entrar na onda até ao nascimento desta segunda criança. Sabia que não teria tempo para ver, muito menos para participar. Mas percebo agora que teria arranjado esse tempo se tivesse consciência do que estava a perder. Os vídeos, as fotos, os comentários, tudo nos permite estar muito mais próximos uns dos outros.

Depois os congressos, bem sei que é um salto tremendo, da família e dos amigos para os congressos. A maior parte deles não tem história, não faz história. Em muitos deles, criei, no entanto, contactos que ficaram. Não sei se chamo amigos aos que por aí entraram, talvez sim. Recebi um mail da organização de um congresso, mais concretamente de alguém que faz desde sempre parte da organização de um congresso. Faltei desta vez, avisei claro, mais que isso, uma colega foi por mim. O mail dela tocou-me, era simpático, mais que isso, carinhoso. Dizia que tinham sentido a minha falta. Ora não esperamos tal coisa dos organizadores dos congressos, a minha tendência sempre foi pensar naquilo como numa indústria; mecânica, organizada, funcional. Claro que aquele é um congresso que se realiza todos os anos, vamos sabendo quem vai, é como um encontro que está marcado com os que vão sempre. Esses talvez sejam, estejam próximos.

E os que passam por aqui repetidamente, os que deixam e não deixam sinal? Sempre tive uma relação muito desprendida com este blogue, no fundo sempre achei que estava aqui sozinha a escrever, para muito poucos, quase ninguém. Mais que isso: sempre li blogues sem pensar muito nas pessoas que estavam por trás deles e apenas no início desta vida tive algum interesse por saber quem eram. Mas até isso tem estado a mudar. E tenho a certeza de que não é por agora me sentir mais sozinha, nunca tive tanta gente a escrever-me, a contactar-me, a ligar-me. Tudo tem a ver com a forma como olhamos para a vida, com o que valorizamos e não valorizamos.

~CC~

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A santa solidária



No Verão, na serra de Montemuro, tomei os pequenos almoços mais demorados da minha vida. Ficávamos entre uma hora a hora e meia sentados à mesa. Não era a comida, embora o sumo de melão fosse delicioso. Eram as histórias da dona da casa.

Sempre gostei das manifestações da religiosidade popular porque estão impregnadas do mais profano que há. Por isso gostei de saber da santa, daquela santa. Se formos à Igreja tristes, ela chora connosco. Se formos à Igreja alegres, ela sorri-nos. Assume as nossas dores, é solidária, amiga. Isto sim é uma santa a sério, não promete milagres, não vende banha da cobra, modifica apenas o seu rosto, a sua expressão, adaptando-a aos sentimentos que trazemos.

Só me fez mais confusão a história de não se deixar despir perante a presença masculina, se há um homem na igreja, os seus braços ficam hirtos e ninguém lhe consegue mudar as vestes. Foi assim que descobriram uns assaltantes que por por lá se esconderam. Mas pronto, é uma santa, só os gregos as deixavam nuas (ou quase) e as chamavam deusas.


~CC~

terça-feira, 1 de novembro de 2016

(Do meu) Corpo



No filme "Virgem Prometida" assistimos a dois processos de transformação do corpo sexuado, uma rapariga torna-se num rapaz, mais tarde, esse rapaz, já adulto, quer voltar a ser uma mulher. O bisturi não entra aqui, é apenas a postura, a roupa, o olhar. Qualquer uma das buscas é impressionante na exposição de um eu dorido, em busca, em permanentemente insegurança. Gostei muito.

Também eu sinto a parte direita do meu corpo meio amputada. Perdi peso e não me fica mal, há muito que o queria. Mas o cateter permanente instalado na veia cava tirou-me a força desse lado, sinto formigueiros ao longo do braço e às vezes dor. Tenho dificuldade em conduzir. Não posso vestir tudo o que quero, anulei os vestidos e as camisas compridas. E se eu gostava de vestidos. Mas mais importante que isso é mesmo este sentimento de ter deixado em parte de ser uma mulher e passar a ser apenas um corpo, parte dele sequestrado, quase máquina. E o cabelo não caiu ainda, daqui a pouco isso acontecerá e já marquei na minha cabeça o dia para o corte de 2cm. A imagem é uma parte importante da nossa identidade, só o sabemos quanto, quando alguma coisa em nós se quebra, emigra, desaparece.

Como a rapariga do filme creio que terei que depois aprender a ser um corpo sexuado, uma mulher. Não é que aos 50 anos os rostos se voltem quando passamos mas ainda me sentia um corpo feminino íntegro, ajudada pelo facto de ter sempre gostado de ser uma mulher. Penso em coisas que nunca pensei antes para não perder totalmente a minha imagem, como, por exemplo, usar maquilhagem. Depois rejeito a ideia, não me ficaria bem. Hei-de encontrar-me de alguma forma.

~CC~