domingo, 12 de novembro de 2017
Sul
O que é sul? O que é ser um poeta do sul?
Ecoava no ar esta pergunta quando entrei na galeria. Na mesa Nuno Judice, Gastão Cruz.
Já não sei se aquela cidade é a minha segunda ou terceira casa. Nasceu lá a minha mãe. Caminho para lá muitas e muitas vezes, é por ali que faço o meu segundo trabalho, são quase dez anos a tomar-lhe o pulso, depois de lá residir por breves meses, ainda criança.
Parece que já é o terceiro encontro internacional de poesia a sul, mas só ao terceiro dei por ele. Mais vale chegar um pouco tarde do que nunca.
A luz, a preguiça, a cal. Isso é sul, entra na poesia a sul.
Cigarras, o seu canto alucinado.
~CC~
sábado, 11 de novembro de 2017
Os lugares
É Marc Augé que nos traz na análise da sociedade contemporânea o conceito de não lugar. São sítios despidos de história, de singularidade, habitados pela transitoriedade dos momentos que lá passamos., pelo consumo do produto. Uma loja de roupa de uma marca mundial é igual em todo o mundo, tal como uma loja de uma cadeia de supermercados ou até de livros, até o modelo de disposição dos corredores e das prateleiras é idêntico. Os não lugares estão a engolir-nos a identidade a uma velocidade assustadora, entrando e penetrando nos sítios históricos mais significativos das cidades, despindo os centros das suas lojinhas particulares, pequenos cafés, velhos alfarrabistas, floristas, sapateiros. Por vezes os não lugares mascaram-se ligeiramente para respeitar identidades que lhes seriam conflituais, é o caso de uma conhecida cadeia de hambúrguers que não vende carne de vaca na Índia.
Se puder, se tiver ainda força hei-de habitar e defender tudo o que se lhes opõe. Por isso me deu especial prazer o concerto que fui ver a uma sociedade recreativa que tem quase dois séculos de vida. Olho para aqueles espelhos enormes, lindíssimos na parede e penso em quantas pessoas se olharam neles como eu agora me olho. As paredes contam histórias, é essa a marca dos lugares.
~CC~
domingo, 5 de novembro de 2017
Só por elas
Às vezes, a meio da noite, nos dias que passamos juntos, estamos nesse limbo entre o acordados e o adormecidos. Nisso somos muito semelhantes, raramente dormimos a noite toda, sem ou com sobressalto, acordamos muitas vezes. Ultimamente ele chega-se a mim e faz-me festas no cabelo, no rosto, no pescoço, usando muita ternura nas pontas dos dedos. É um aconchego, uma balada silenciosa para eu voltar a dormir, uma presença que se faz sentir com um toque sereno. O que nós já mudámos desde que nos conhecemos e como mudou o amor que nos temos. Ele não sabe, não ficará a saber, mas era capaz de permanecer com ele só por essas carícias com que serena a minha inquietude nocturna.
Também gosto dos pequenos trabalhos domésticos que faz, inventando o que não sabe e descobrindo o que quer saber. Com um simples elástico de cabelo arranjou a minha máquina de lavar, poupando-me um dinheirão. Uma vez que nos zangámos, a máquina avariou e paguei em arranjos para lá de 150 euros. Tenho a certeza que foi um pacto entre eles para provar a falta que ele me fazia.
E agora inventou aquele tocar doce para eu saber que gosto dele, para me lembrar disso quando acordo a cada manhã, amordaçando qualquer protesto que se insinue em mim por ele gostar tanto de sofás.
~CC~
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Mais uma vez
Volte, volte, volte.
Lá voltarei outro dia. Estou sempre à espera que seja o último. Talvez vá demorar para ser o último. Adiada a intervenção para daqui a quinze dias, o especialista teve que ver para crer no que se passa no meu interior.
Já nada me encanta naquele espaço tão aprazível, não me apetece o chá, o bolinho, o pão, tudo tão generosamente colocado à disposição do utente e das famílias (pelo que vejo, mais das famílias).
De vez em quando já me apetece fugir e não voltar. Como aquela doente, cuja história a minha filha me contou. Diagnosticaram-lhe um cancro e ela só voltou ao médico depois de três anos. O médico, incrédulo, perguntou-lhe as razões para tão grande demora (e loucura). E ela respondeu-lhe que tinha estado muito ocupada, tinha passeado muito com as amigas, feito viagens que há muito planeara, tinha visto nascer o neto, tinha vivido muito e bem. Como é que ele lhe poderia garantir que se tivesse feito logo a intervenção cirúrgica ela teria na mesma três anos tão bons e tão intensos?! Agora ele que fizesse o que bem entendesse, ela tinha a barriguinha cheia de coisas boas.
Mas eu não tenho tal coragem. Ou tal cobardia.
~CC~
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Resiliência - na própria pele
Comer uma maçã pela manhã foi a terapia certa para os primeiros enjoos da quimioterapia. Lembro-me de sair no Outono passado só para comprar as casanova, as minhas preferidas. Hoje não consegui comer uma maçã pela manhã, foi talvez a terceira tentativa para o fazer, sempre com evidente reclamação do esófago, não se desfaz ao ponto de passar por lá. É certo que na próxima sexta feira voltarei ao bloco para tentarem corrigir a situação, já que o estreitamento pós operatório não era taxativo. Prefiro, contudo, nesta como noutras coisas, imaginar que deixarei de comer maçãs cruas, tal como deixei de comer pão. A princípio a falta do pão era quase dolorosa e agora mal me lembro que existe. Consigo comê-lo transformado em migas ou torrado, nada mais. Também não posso beber café mas adoro cheirá-lo, há uma colega que passa por mim e me diz sempre para sentir o odor do café dela e é um gesto tão bonito, ela tem uns olhos verdes que sorriem quando o diz. Também beijo o meu amor depois dele beber café.
Ensinei muito o que era a resiliência aos outros, agora ensino-a a mim própria.
~CC~
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