sábado, 11 de janeiro de 2020

Sábado



Sei que o mundo é hoje um lugar em perigo, inóspito, cheio de loucos que chegaram à política, de guerras tribais que voltaram em força, totalmente ameaçado pela ganância, dominado pelo capitalismo, em que surgem novas formas de entreter as pessoas para as distrair das suas pequenas ou grandes escravaturas.  

E, no entanto, ao acordar com saúde e ao ver a beleza deste sábado de sol de inverno, quase esqueço que este planeta é um leão ferido, sinto-me como uma borboleta que nasceu para poisar nas flores. Ganho assim coragem para deixar de lado o trabalho de lado, ao qual prometi dedicar-me. Vou  ali respirar azul.

~CC


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Nostalgia



Estive a contar e os anos de vida em Lisboa ainda ganham a todos os outros.

Houve a Lisboa da minha adolescência, quase desaparecida. O que não morreu, é hoje profundamente diferente. A baixa, Alfama, o Bairro Alto. Amei e vivi intensamente cada um destes lugares. 

Houve a Lisboa da minha idade adulta, que julgo ainda viva e por isso busco-a e ao buscá-la constato também que certos lugares, icónicos, se esfumaram. Acreditam que fui à livraria Buchholz no Campo Grande? A senhora do café olhava-me incrédula: mas minha senhora isso já desapareceu há uns anos. Ainda penso ir ao cinema Londres e tomar um café com um scone no Magnólia. É hoje um hiper china fantasmagórico. Sobra-me a livraria Barata, mas acho-a um bocadinho sombria, parece não ter o encanto de antes. E todos os cafés são agora padarias, cadeias de padarias, iguais em cada bairro, com os mesmos produtos e os empregados vestidos com os mesmos uniformes, mais uma mania que durará uns anos. E no Go Natural, essa primeira loja de produtos saudáveis, um sopro de ar fresco quando abriu, pedem-me agora o cartão continente, pelo que deve ter sido comprada pela Sonae.

Estas rugas não são visíveis ao espelho, são uma espécie de marcas interiores, um frio que nos chega quando sentimos perder os sítios que identificamos como parte da nossa vida. Sempre me disseram que eu tenho uma costela nostálgica, qualquer coisa de triste que me anda agarrada. Enfim, sobra-me a outra para rir.

~CC~





terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Parece que hoje é Natal



Liguei-lhe para dizer que não viesse, a casa tem estado vazia, não precisa de limpeza. Ficou feliz porque hoje é dia de Natal para ela e para os seus ia ligar-me pois havia festa toda a tarde e era capaz de durar até à noite. Gostei que me tivesse contado. Gostei que me recordasse que o mundo não gira todo da mesma maneira, à mesma velocidade e com os mesmos rituais. Somos etnocêntricos até à medula. Pensei nos seus dois meninos que já nasceram cá em Portugal, esperando que possam festejar todos os natais a que têm direito, sem nenhum conflito de identidade. Às vezes apetecia-me ir a esses natais de outras latitudes e orientações.

~CC~

sábado, 4 de janeiro de 2020

Acordar



Fiz a mala a 21 de dezembro e ainda não voltei a casa, nestes dias dormi em muitas casas diferentes e tive a minha aldeia como queria, tive mesmo duas. Acho que o meu ter vai ser sempre assim, volátil, temporário, errante. Voltarei para vos falar dessas aldeias em lugares tão diferentes, tão temporariamente minhas, sei que em nenhuma delas viveria. Cada dia que avança sei que de meu só terei mesmo o meu corpo e as marcas que fui deixando por aí, muitas coisas que o tempo apagará e outras que talvez não. Provavelmente ter não é a minha natureza, enraizar-me, fazer ninho. Um dia aceitarei talvez a minha natureza vagabunda, saltimbanca, desprendida de tudo quanto é material.

Por necessidade encostei aqui, talvez a terceira das minhas cidades, a número três.

Onde vocês cresceram e foram tão felizes, entre zangas monumentais, muita praia, portas a abrir e a fechar, fantasias de deixar qualquer um estupefacto. Pouco resta dos vossos risos, as casas são já outras, sobretudo uma delas, é agora bela como um museu pode ser belo, mas que saudade da desarrumação em que se arrumava. As duas casas estão agora mais tristes, embora o sol lhes continue a bater durante toda a tarde e a vista continue deslumbrante. 

A linha do horizonte mostra três camadas de um laranja a três tons sobre os vários braços da ria. A senhora que esta manhã vendia conquilhas na rua diz que as apanhou ali, quando o sol ainda raiava.  A ria, esta ria, talvez a primeira das coisas com que este país me encantou. É tão bom poder vê-la ao acordar.

~CC~





sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Vai demorar um bocadinho



Há momentos de grande desarrumação interior, sentimos que nada fica igual, as coisas próximas ficam distantes, como se estivessem noutra vida.

Creio que um desses momentos, provavelmente não só para mim, acontece quando temos que trocar fraldas à nossa mãe. Essa inversão de papéis é muito dolorosa e é uma dor que não se explica facilmente, penso que é vivida tanto pelas mães como pelos filhos e filhas.

Quando um novo ano começa difícil, deixa-nos ficar, contudo, com esperança, talvez acabe melhor.

Já a ausência, daqui, de outros lugares, e até da minha própria vida, é muito mais que falta de tempo, de oportunidade, de capacidade, é o desalento que toma o espaço de tudo. Também sei lutar contra ele, também saberei vencê-lo, às vezes demora um bocadinho, vai demorar um bocadinho.

~CC~