terça-feira, 3 de outubro de 2023

Mergulho fora de pé

 

De vez em quando aventuro-me. Na água pouco, pelo que é de outros mergulhos que vos falo.

Decidi frequentar um lugar em que o tema central são fermentados, kombuchas, bebidas vegetais feitas em casa e coisas afins. Não enlouqueci, apenas quis saber como podia cozinhar os muitos vegetais que comecei a receber semanalmente  numa bonita caixa de cartão de uma courela próxima. Não imaginava que estava a entrar num culto, com todas as regras que os mesmos implicam. As duas primeiras aulas foram puro proselitismo, ia desistindo por ser incapaz de mexer a comida muito, muito lentamente, deixando nela amor, não acreditar que os produtos lácteos conduzem as mulheres à inveja umas das outras ou considerar que comer ananás é pecado por vir do outro extremo do mundo (curiosamente os cajus são permitidos, vá lá perceber-se). Felizmente depois das duas primeiras aulas vieram as receitas e algumas parecem-me bem interessantes. Mas chegou também o grupo de whatsapp cheio de bons dias repletos de corações, as fotografias de qualquer produção doméstica, as muitas fotos das sessões. Mas não era suposto sermos diferentes ou alternativos?!

Bom, descobri que aqui a alternativa não significa fazer ondas, despejar baldes de tinta por aí ou enrouquecer em manifestações avenida abaixo, aqui é só ficar quieto, pensar em paz e amor e sobretudo não tocar em carne.

Decididamente mergulhei fora de pé mas não me vou afogar, assim espero.

~CC~



sábado, 30 de setembro de 2023

Volto

 

Durante anos e anos fui leitora do Jornal Expresso, parecia que o café de sábado sem o jornal não fazia qualquer sentido. Depois mudaram a edição para sexta e quando o ia comprar ao sábado às vezes já não havia. Pouco a pouco deixei de comprar e não sinto falta alguma.

Não quero que o mesmo me aconteça com este blogue, abri-o agora e foi com espanto que percebi que tinha passado uma semana. Procuro as razões. Falta de tempo sempre a tive. Falta de vida na caixa de comentários também não pode ser razão, outras vezes aconteceu e nunca foi isso a desmotivar-me da escrita. Tristeza? Também já tive outros momentos tão ou mais tristes. Acho que é mais como o que aconteceu com o jornal Expresso, é deixar que o desábito se instale. Não posso deixar porque a escrita foi muitas vezes o meu porto de abrigo e de salvação, se deixo esse instrumento de comunicar comigo e com o mundo, não poderei voltar a ele com facilidade e mais adiante chorarei de algum modo a sua falta.

Do mesmo modo que as ruas onde não passamos, as casas em que não moramos, os blogues que se arrastam também definham. Volto aqui, voltarei aqui e é sempre como quem regressa a mim própria e ao que mora lá dentro.

~CC~



sábado, 23 de setembro de 2023

Só uma nota

 

Desta vez foi diferente. Não lhe ouvi a voz nem os parabéns que nos últimos anos fazia questão de entoar ao telefone. Logo ela que nunca falhou datas de aniversário. Se estivesse ausente, já em lugar incerto, se calhar não me custaria tanto, mas sabê-la ali presa à cama sem poder cumprir estes rituais que a agarraram tanto à vida. Se nas nossas mãos estivesse a decisão da nossa morte, não sei se ela a tomaria, ainda assim sei que não queria viver até este limite de impossibilidade e dependência. 

Fica aqui entre nós só essa nota triste para o resto poder ser alegria, a minha de estar aqui.

~CC~

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Cores de um país

 

Grécia (Ilhas de Tinos e Andros)

Deve haver poucos países em que as cores de um país estejam tão bem espelhadas na sua bandeira.

Mas devia haver um gato preto deitado naquelas listas, um daqueles com os olhos bem verdes. Ou um gato cinzento com olhos azuis. Ou uma deusa reclinada.

~CC~





sábado, 16 de setembro de 2023

Sobre o cheiro das goiabas

 

Nunca nos podemos livrar da nossa pele, das suas marcas, dos seus registos. O passado corre atrás de nós a querer apanhar-nos o futuro, mas domino a fórmula certa para que não me tolha e me roube alegria. É verdade que às vezes me apetece nunca mais voltar aqui. 

Os primeiros dias de chuva nesta terra de sol levam-me a luz do fazedor de gelados e trazem o sabor amargo-doce dos primeiros cappuccinos. Tenho a certeza que já nada me faz sofrer neste território que um dia se encheu de abraços colados. Já não é mau não entristecer. Mas tenho também a certeza de que já nada nesta cidade me trará alegria. Duas luzes antes brilhavam, daquelas que são pilares para o nosso amor próprio.

De uma e de outra luz nada quase nada veio até ao presente. Mas isto é só uma forma de olhar, pois decerto infiltrou-se em mim algo de sabedoria inerente a essas vivências, algo que se entranhou e já não sou capaz de descobrir, carne que se fez outra carne. Sobre o cheiro das goiabas, nem lhe posso chamar saudade, apenas nostalgia. 

~CC~