domingo, 17 de março de 2024

Renúncia

 

Tão calado, tão reservado. Por isso demorei até te ver. E não me lembro do momento em que os teus olhos estavam a brilhar no encontro dos meus. Depois vi os teus lábios, esses sim, não esqueci. Por algum tempo o desejo de os beijar alumiava os meus dias e ocupava as minhas noites. E lembro aquele jogo em grupo em que cada um tinha que dizer o que tinha encontrado naquele espaço que nos juntava. E tu disseste muito baixinho: o amor. Alguém ficou espantado e perguntou mas não quiseste dizer mais nada, os olhos demoradamente fitos em mim.

E depois renunciámos, acho que primeiro tu, depois eu, ou talvez tenha sido cada um à vez. Às vezes é assim, congelamos o amor, sabemos que não o podemos viver. A impossibilidade reside apenas na certeza de que não poderemos ser felizes sabendo que o fazemos na sombra da tristeza de alguém. Tu e eu erámos assim. Escolhemos a terceira pessoa, a que estava no meio de nós.

~CC~

sábado, 16 de março de 2024

Resistir


Dizia Sebastião da Gama à morte que se ela o viesse buscar não lhe queria dar um morto mas alguém bem vivo para que ela se arrependesse de colher uma flor e uma esperança. Era a sua tentativa de chamar um Deus justo. 

Tento por estes dias lembrar-me disso,  que posso ser a papoila que nasce nos passeios mal a Primavera espreita.

Já as ouviste cantar?! Posso ensinar-te.

~CC~



quinta-feira, 14 de março de 2024

Caixa de bombons (X)

 

A mulher do fato amarelo, muito requintada, com o seu motorista fardado a oferecer-lhe um bombom que tirava do porta luvas. Há publicidades que ficam e esta atravessou os tempos. Não sabemos exactamente porque registamos estas coisas. Eu nunca quis ser como a mulher do fato amarelo e muito menos ter um motorista, a não ser quando as subidas são ingremes, os estacionamentos difíceis e a minha inabilidade me confronta e me incomoda. E no entanto aquele chocolate é todo um fascínio que se foi tornando banal pelas casas do mundo (e não lhe digo o nome, pois não me apetece fazer-lhe publicidade).

Preto por fora e bem no meio uma avelã crocante, algo semelhante ao que a senhora do fato amarelo provava com deleite. À partida a avelã bem disfarçada não parecia existir pelo que a surpresa foi agradável pois em geral adoro frutos secos. Nunca me esqueço de um filme que vi sobre uma tribo afegã que se alimentava praticamente só de nozes. São maravilhas da natureza mas em geral trabalhadas pelo homem que as coloca a secar, antigamente apenas à luz do sol, em grandes mantas ou tapetes colocados no solo. Alguns dão muito trabalho a conseguir, como as amêndoas ou pinhões e há em cada saquinho muito suor. É preciso dizer às crianças que não nascem nas prateleiras dos supermercados assim já prontos a comer.

Este ano falhei as amendoeiras algarvias, houve anos em que fui pela serra para beber da beleza desse branco. No Douro nunca as vi, mas gostava.

Estes bombons sugerem cada viagem...

~CC~



terça-feira, 12 de março de 2024

E agora o dia é teu...

 


Para a história dos momentos mais felizes: o teu nascimento. E nem parece já ter sido há tanto tempo, tal é  a memória viva.

E melhor, ainda hoje me trazes amiúde um sorriso.


~CC~

segunda-feira, 11 de março de 2024

Venha o dia seguinte

 

Ninguém como ela cunhou tão bem o nome do assombro. A banalidade do mal (1). 18% dessa banalidade.

É muito tempo de despolitização a falar e uma overdose de redes sociais.

É desde sempre o que me assusta, a única coisa que verdadeiramente me assusta, normalizar o que não é normal. De resto sempre estiveram aí, mas mais calados, a maltratar as mulheres e a maldizer se ter perdido as antigas colónias portuguesas, a clamar pela pena de morte e pela justiça popular. 

Haja poesia, sabedoria e dia seguinte. Afinal somos 82%

~CC~



(1) Hannat Arendt