quinta-feira, 11 de abril de 2024

Deixo-te cravos

 

Vou a caminho e comprarei cravos para te deixar. 

Havia tantos no quintal do teu pai, meu avô. É verdade que nem todos eram vermelhos, eram sobretudo mesclados de várias cores, tu acreditavas que o teu pai é que os tinha inventado com misturas de corantes e que antes dele todos eram monocromáticos. Tinhas crenças assim, não valia a pena explicar-te.

Apesar do corte radical das nossas vidas que representou esse Abril de há cinquenta anos, nunca odiaste quem o fez, bem pelo contrário. Claro que lamentavas tudo o que tinha ficado para trás mas compreendias que tinha sido algo inevitável, ainda que te custasse usar a palavra justo.

Posso deixar-te cravos vermelhos porque sabes que são meus e por isso compreenderás a escolha. 

~CC~

terça-feira, 9 de abril de 2024

Apenas e só uma

  


Regresso ao escrutínio que após um ano anterior atípico em que teve carácter praticamente trimestral voltou a ser anual. Deu tempo para a visita se fazer a um novo edifício, ainda a cheirar a novo, pareceu-me excessivamente monumental e com menos verde. Ainda assim reconheceria sempre aquelas linhas tão consonantes com as do vizinho, não obstante a sua beleza senti-o outrora como uma prisão. O aperto de mão idêntico, assim como o meio sorriso, esforço máximo que o clinico consegue, mas após sete anos já lhe perdoei tudo e sei o que posso ou não esperar. 

Acho Abril um mês de esperança e por isso é bom que se mantenha este como aquele em que a visita se faz e que seja apenas e só essa.

~CC~






domingo, 7 de abril de 2024

Tamboril de caril

 

Almocei um tamboril de caril com arroz de coentros. Coloquei a mesa como deve ser. Sentei-me tranquila e com tempo. Ainda bebi meio copo de cerveja-sidra.

Pensarão portanto que cedi por completo à insignificância do que tenho para dizer ou que estou em transição para um blogue de culinária. Quanto ao blogue de culinária, não houvesse trezentos mil e talvez me aventurasse, às vezes a família pede. A sobrinha no dia de Páscoa pediu a receita da lasanha de camarão que acho que inventei. Quanto à insignificância da minha pessoa acho que já disse tudo no post anterior.

Quero dizer-vos da importância da dignidade das pessoas que vivem sozinhas. De como a construir a cada dia. Uma das coisas mais importantes é cozinhar uma refeição completa, não ceder aos cereais, ao pão com queijo, à eterna sopa. Comprar comida, ter comida em casa, fazer comida, colocar a mesa, sentar à mesa, saborear. É verdade que às vezes não apetece e o "só para mim não vale a pena" paira ali algures na cabeça. Eu nem ligo a televisão, fico ali no meu silêncio entre cada garfada, feliz por poder demorar-me. E não acho triste o que tantos acham triste. Talvez por não acontecer sempre, talvez por pensar que se quisesse teria alternativa, talvez por não ter morado bem sozinha e ter por aqui de quando em quando duas borboletas (o A e a A) que muita companhia fazem.

Tamboril de caril com arroz de coentros, ainda pensei arranjar os morangos, mas prefiro a fruta a meio da tarde. O lanche, esse terá amigas.

~CC~




sexta-feira, 5 de abril de 2024

Uma pessoa assim assim

 

Ontem perguntei a uma estudante se podia despedir-me dela com um abraço. Invulgar em mim, desconheço-me ou simplesmente modifico-me. 

Decidiu fazer luto após meses a tentar sobreviver, manter-se à tona. Em três meses perdeu a mãe para o bicho mau. Nunca pensei respeitar alguém que desiste, eu fui treinada para a sobrevivência a todo o custo, para seguir em frente, para empurrar com a barriga. Erros, falhas, fracassos, tudo isso tentei sempre limpar do meu horizonte, batalhar até ao limite do cansaço. Mas hoje tenho consciência de que fui tão longe quanto a minha origem humilde e a precaridade da condição financeira me permitiu e vejo com nitidez mas sem lamentar aqueles que foram mais longe e são mais capazes que eu em tantas coisas no campo profissional. Nunca aprendi línguas como deve ser, nunca fui um às nas tecnologias, sempre me aborreci com referências bibliográficas e manobrei plataformas e folhas de cálculo com alguma dificuldade. Mesmo no uso da língua portuguesa, tenho limitações. Todas estas falhas eram motivos de descontentamento e auto agressão, inaceitáveis.

Mas deixei de me importar, hoje sou capaz de ir ter com uma estudante para a ouvir e lhe dar um abraço, é essa a semente que quero deixar, na certeza que tal não me colocará nunca no topo da carreira.

Vejo no espelho uma pessoa assim-assim, antes seria assustador e agora é confortável. Talvez tenha passado de uma visão anticapitalista do mundo para essa visão aplicada à minha própria condição humana.

~CC~


quarta-feira, 3 de abril de 2024

Troco campos minados por campos de nuvens ou flores

 

Quando pisamos um terreno minado, é preciso avançar com audácia e cautela. E que difícil é o equilíbrio entre os dois. Vivo muitas vezes assim. São assim os campos profissionais em que muitos de nós se movem. 

E sonho que um dia, ainda em plena terra, poderei caminhar apenas entre nuvens. Ou entre campos de flores. E que não seja demasiado tarde, que ainda possa caminhar com vontade e segurança.

~CC~