domingo, 11 de maio de 2025

Premir o botão

 


Quanta falta nos faz a insatisfação.

E uma pitada de humor...ai Onofre!

~CC~


sexta-feira, 9 de maio de 2025

Coração velho

 

O coração bate rápido, como aquele passarinho que a Primavera viu nascer. Mas com o passar dos dias, falta-lhe aquele alimento que permite ao passarinho ganhar asas e voar. Falta-lhe não só a segurança da mãe que traz o alimento, como a inocência de quem quer ver o mundo.

O meu coração é velho, assim é que eu sei. Demora a arrancar, têm êxtases momentâneos, encarquilha com a insegurança e desiste com facilidade. Ainda acende o que é uma constatação nova para a descrença que tinha nele. Mas um coração velho é parecido com esta Primavera, tão cheia de hesitações, de rasgos de sol logo afastados pela sombra e pela chuva, de uma temperatura que não se sustenta, de flores que tanto aparecem como se escondem. O meu coração é velho, da idade do meu corpo.

~CC~

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Tão como nós

 

Titia, que é para fazer agora?

Falam assim os meninos, uma boa parte dos meninos que encontramos nas nossas escolas. Depois dele me fazer esta pergunta, sendo a primeira vez que me via na sua sala de aula, perguntei-lhe mais coisas. Se tinha memória da Bahia que o viu nascer, ligação com os avós ou com outra família do outro lado do Atlântico. A tudo respondeu que não. Guardava apenas na fala aquele sotaque, aquele jeito doce. São estes meninos que querem colocar na fronteira, aqui e noutros lugares? Não quero simplificar aquilo que é complexo, mas algures, umas gerações atrás, eramos nós estas crianças em múltiplos lugares deste mundo, tão filhos de ilegais quanto muitos dos que connosco se cruzam.


~CC~

 


domingo, 4 de maio de 2025

Foi contigo que aprendi a derrubar certos muros

 

Falta-me ligar-te e saber a ordem pela qual eu tinha chegado. Registavas com afinco os deveres afetivos dos teus filhos e as falhas magoavam-te, embora com o tempo também relevasses quando, pela distância, não me era possível fazer-te chegar um presente, nessa altura bastava a voz e um beijo. 

Sinto muitas e muitas vezes a tua falta e sei que contigo aprendi a valorizar as pessoas comuns, presas de tradições, rituais e amantes das pequenas coisas. Nunca me leste histórias mas contaste muitas histórias, nunca me falaste sobre o universo ou discorreste sobre os sentidos do mundo, as guerras ou as problemáticas políticas que nos contornam as vidas, mas ensinaste-me a fazer ervilhas com ovos, a votar em todas as eleições e a apreciar um café e um bolo de pastelaria. Levei tempo mas não esqueço nem esquecerei que foste tu que me destes os meios para saber falar com uma infinidade de gente diferente e apreciar. Não era preciso que tivessem feito a faculdade, soubessem falar bem, dominassem ou gostassem de alguma arte, lessem ou viajassem...

Foi contigo que aprendi a derrubar certos muros. 

~CC~

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Esta Primavera

 

A Primavera não trouxe apenas aos meus olhos essa irritação vinda do pólen das ervas e das flores, ao meu coração chegaram estranhas borboletas, não consigo decifrar-lhe bem a cor, o rumo do voo, se irão pousar ou desaparecerão mal feche os olhos. Não sei dizer se este tremor que me abala o corpo e enfraquece as pernas não passará daquela ilusão que têm os mortos vivos, são descritas as melhoras da morte, ou seja a forma como aqueles que têm morte anunciada vivem dias antes um fulgor de vida como se tivessem renascido, dando a todos uma esperança de que estão regressados para afinal se despedirem. Creio que o amor também faz partidas destas, ameaça vir instalar-se para depois partir para sempre.


~CC~