Lembro-me com precisão do tempo em que não comprava roupa feita na China, na Malásia, na Indonésia... Também mal entrava em lojas de chineses. Depois cedi pouco a pouco por várias razões, entre elas a complexidade que é a de saber onde reside o mal e a injustiça no mundo de hoje. A clara noção de que bem pior do que a loja dos chineses é a marca fina que compra a preços ínfimos para vender muito caro, apenas pela etiqueta. Dantes disfarçam o made in, agora não sei se alguém se importa.
Comecei a frequentar lojas de chineses e lojas baratas de marca também por questões económicas, a comparação entre os preços de certos materiais na loja dos chineses e numa retrosaria ou papelaria, deixa-nos arrasados e com os valores todos baralhados. E há a carteira e o fim do mês.
Quando somos apanhados pela gripe, a tristeza tem certa tendência para se colar à pele e há que fazer alguma coisa para além de tomar remédios. Eu saio de casa mesmo que não deva fazê-lo, mas se cá fico tenha a sensação de chocar o vírus, de estar a dar-lhe colo. Preciso de o chocalhar, de o enviar pelo vento, mesmo que seja uma saída curta, pois constato que depois não me sinto bem.
O vírus também tem o condão de nos deixar feias, a pele vermelha, o nariz a pingar, o cabelo impossível de pentear. Apetecia-me ter alguma coisa que me pusesse mais bonita. Como tal, decidi entrar numa loja de roupa considerada barata, talvez a que se diz ter os preços mais baratos do mercado. Ora as calças que queria comprar custavam 40 euros e tinham sido feitas na China. Não consegui, de repente assaltou-me a imagem de quanto na realidade aquelas calças teriam custado em termos de fabrico, de quanto teriam ganho aqueles que as confeccionaram, mesmo que tenha sido só uma ou duas pessoas a manipularem uma máquina automática. Mais revoltante que a venda barata é que alguém compre barato para vender caro ou muito caro. Gostava de criar um critério de justiça para estas coisas mas não é fácil quando não se vive numa quinta e nos dedicamos à permacultura. Confusos que estamos e somos, cidadãos imersos na sociedade de consumo, muito facilmente a coerência descamba em incoerência. Mas ainda sinto revolta muitas vezes, incomodo-me, com a consciência de quão pouco isso é.
~CC~