quarta-feira, 26 de novembro de 2025

São fortes as correntes e arrastam tanto

O sabor de uma coisa é parcialmente desfeito quando uma parte de nós já tem que estar na coisa seguinte. 

Damos por nós a pensar que já a podemos riscar da lista e, ao fazê-lo, entendemos que já estamos na noutra e na outra e na seguinte. E há erros porque a velocidade é muita. E o corpo dói.

E sabemos tão bem que a vida não é para ser vivida em curto circuito, em emboscada, em apneia. Sabemos e não conseguimos, são fortes as correntes e arrastam tanto.

Valem as paragens, em cada uma delas abro bem a boca para sorver o oxigénio e continuar a respirar com alguma convicção e encanto. 

~CC~




6 comentários:

  1. É uma pena que só aprendamos a viver quando já temos pouco tempo para mostrar uma boa gestão da vida.
    Sou um apreciador das suas crónicas.
    Um abraço.

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    1. A sensação que é sempre demasiado tarde. Fico feliz por gostar de me visitar. Um abraço

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  2. A CC tem aquele "estilo" inconfundível que faz desejados os seus novos posts. Não é para todos.
    Julgo não ter vivido nesse assoberbamento que nos suga e isola do prazer inteiro de cada situação, muito embora reconheça na minha vida épocas esgotantes, de dias cronometrados por afazeres cuja única excepção eram as noites de sexta feira. Também reconheço esse fenómeno de já o pensamento morar na função seguinte, quando a presente estava já desenredada. Considerava isso normal, nada lhe roubava, na medida em que também esse presente beneficiara, regra geral, da antecipação, é como disse Anaximandro, "as coisas pagam umas às outras pena...". Ao invés de brancas nuvens negras, julgo que toda a vida é um aprendizado com muitas falhas. Mais velhos, não sabemos viver melhor (mas gostamos de pensar que sim). Bom, aceito que o saibamos no que toca a fenómenos passados que, eventualmente, possam repetir-se ou assemelhar-se; mas o presente é sempre novo. E, de alguma forma, também nós nele somos novos. Dir-me-á, então de que valeu o que aprendemos ao longo da vida?! Digo que nos ajuda a seguir um rumo (ou vários), não sei se nos prepara para ele, de tal forma chegamos impreparados ao futuro sempre novo - facto que, em grande parte, é um bem e ajuda a viver. Penso eu de que.
    Que as suas paragens signifiquem. Como até aqui. Porque respirar faz falta.
    Bom dia, CC

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    1. Vivi toda a vida assim. Parte é minha responsabilidade, mas há uma parte que não é, as organizações tornaram-se máquinas de torturar pessoas no atoleiro da burocracia, agora agravada pelas mil plataformas digitais onde temos que carregar novamente dados e dados, apesar da tão proclamada e elogiada IA. O que é nosso podemos ir aprendendo, se calhar, como diz, nunca totalmente porque no futuro o passado já foi. A parte que não é, já é mais difícil. E já é quinta feira?! Como aconteceu?

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  3. ...e porque a velocidade é muita, também deu erros, que, como não é costume, assumo propositados. Digo excelente e vai dizer de seguida que não foram pensados!

    Compreendo a sua frustração CC, tem com certeza competências desaproveitadas em trabalho burocrático.

    Sobre a querela, ambos têm razão, o caminho traz experiência ao caminhante, mas mais importante é o que se aprende por aqui, e como dizia Aristóteles, a cultura é o melhor conforto para a velhice.

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  4. Ah, ah...pois foi...não foi propositado não...escrevi no TM (numa breve pausa) e aí não vejo bem (velhice é o que é), além de que a maldita escrita automática decide acentuar o que não deve e no TM não controlo isso tão bem. Diga sempre, OK? Para mim cultura é conforto mas quando estou muito cansada, natureza ainda é mais.

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