domingo, 15 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXII)

 



Este balancear que vem de um lugar tão perto.

A saudade pode ser um lugar impreciso onde apenas moram sabores e cheiros.


~CC~

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Nove anos

 

Há nove anos fazia uma malinha para a cirurgia, supostamente a dita duraria 8 horas e a minha estadia 3 ou 4 dias. Mas foi mais, muito mais, é o que acontece quando as coisas correm mal. Antes já tinha perdido a cor e o cabelo e trazia sempre comigo aquele odor a quimioterapia e o cheiro apurado que nos torna permanentemente enjoados. Mas ainda não era um farrapo humano, só um mês depois.

Não obstante a data não me merecer grande atenção, é mais uma fortemente canibalizada pelo comércio, não somos imunes, nunca somos. De tal modo que, pelo facto da cirurgia ter acontecido no dia dos namorados, fez com que nunca mais me esquecesse da data. Não consigo assim localizar nesse dia outro amor que não seja o de uma mão que se agarrava à minha e o da família que esperou horas a fio por notícias que não chegavam e depois debandou certa que tudo tinha corrido bem. Aparentemente sim, só depois descambou. 

A minha filha dormiu comigo naquela noite, já no hospital. Quando penso nela naquela altura, é ainda numa adolescente, apesar dela já não o ser. Tinha ainda aquela inocência de estudante de medicina, parecia inabalável a sua perspectiva de que tudo seria simples e positivo. 

A força que encontramos para lutar pela vida só a sabe quem está perto da morte e não é ainda tempo de morrer. Só mais tarde, muto mais tarde nos tornamos fracos, quando já nos autorizamos a chorar. 

~CC~



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Afinal era simples

 

Estava a vê-lo intrigada há um bom bocado. Um homem talvez da minha idade, talvez mais velho. Não consegui distinguir-lhe as feições pois mantinha o capuz colocado. Estava parado a olhar para a bancada dos bolos de aniversário, quase com o nariz colado à vitrine. Eram bonitos os bolos, com muitas cores,  texturas e brilhos, também fico sempre maravilhada com essa arte de quem os confecciona. Mas tanto tempo?! Quereria um e não teria dinheiro? Planeava fazer ir pelos ares aquela vitrine? Estava com algum problema e não era capaz de sair dali, nem de se sentar?

Acabei o café e já não tinha tempo de prolongar mais a minha observação e muito menos de obter resposta para as minhas questões. A chuva intensa (ainda me lembro de quando não se saia de casa por causa dela) tinha subitamente parado. Saí, já ia na rua e instantaneamente voltei-me para trás, ali estava, mesmo perto de mim, o homem da vitrine. 

Ri-me de mim própria, afinal era simples. 

~CC~

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XXI)

 


Tanto que gosto de Alcácer. Tanto que passeei naquela avenida com amores, amigos, sozinha. Impressionou-me tanto, não julguei possível. Na maior parte das vezes aquele caudal de rio preocupava-me, sempre a descer, às vezes parecia uma ribeira em vez do meu Sado. 

Mulheres de Alcácer, hoje uma das que tem um comércio na Avenida disse: está tudo estragado mas eu estou viva, para a semana haverá bolos. 

Hoje a homenagem possível, em formato de música, ao meu amado sul, olhar perdido em aves e arrozais.

~CC~




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Somos humanos, não deuses.

 

Uma docente competente, sempre pronta, sempre empenhada. Não lhe faltarão muitos anos para a reforma, não consigo exactamente calcular.

A reunião hoje era bem cedo, com entidades externas, eu uma delas, ainda que eu tenha (quase sempre) um estatuto hibrido. E ela não chegou. Não, ela chegou, cerca de uma hora e meia depois, aquela reunião em específico já tinha acabado. Um enorme desalento, uma tristeza na voz, mas sem desculpas tontas, simplesmente o despertador não tinha tocado e ela tinha adormecido, cansada. Penalizava-se, pedia perdão pela falha, estava inconsolável. Coloquei-lhe a mão no ombro e lembrei-a de que somos humanos, não deuses. Sorriu timidamente, agradeceu. Eu tenho receio é das pessoas que não falham ou que ocultam as suas falhas em mentiras e artifícios. 

Pensei em quanto tempo eu demorei a saber perdoar-me pelas minhas falhas, muitos anos certamente. Talvez ainda mais do que a perdoar as falhas dos outros. 

~CC~

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Entre flores

O homem das tatuagens de aspeto muito másculo, sempre de T-shirt, move-se entre flores. Tenho ideia de já o ter visto lá muitas vezes, mas só hoje reparei bem. Trata-se de um maravilhoso contraste.

Na pequena banca no meio do centro comercial mais periférico e pobre da cidade aquela banca está sempre colorida e com  flores que não parecem de estufa. 

Esta manhã escolheu três gérberas amarelas para o velhote de boina, mas não ficou contente, armou-as com três rosas vermelhas mescladas de amarelo e uns raminhos verdes. Era um ramo de encher o olho, exótico, muito vivo e tão contrastante com aquele a quem o vendia, que por momentos pensei que o recusasse. Mas o velhote fez um pequeno sorriso e levou-o. Não consegui visualizar a destinatária daquelas flores. Estou certa, porém, que para ela, por momentos, a chuva parou.

~CC~



domingo, 1 de fevereiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XX)

 




Até à Primavera os Domingos terão música, depois abrirei as janelas e salto por uma baixinha para as manhãs verdes. Espero trazer nos bolsos vestígios de flores a despontar.

Deixo-vos com estes murmúrios, vozes inspiradoras enchem as igrejas do calor que elas deviam sempre ter. 

~CC~




sábado, 31 de janeiro de 2026

Os choros de perto ecoam mais alto

 

O cansaço silencia a voz e toma-me o corpo como se fosse um boneco preso entre as suas mãos, não abre um espaço e é preciso a custo escavá-lo para que entre a música. Faltar ao Clube de Leitura quando estava a gostar do livro, custa-me. 

Mais me custa o silêncio das árvores tombadas pelas ruas e jardins, elas que não têm voz para nos apelar. Já as pessoas, a essas ouvimos os choros, os lamentos, os gemidos e ficamos ora tristes, ora inquietos, ora revoltados. Agora é aqui perto que choram, os choros de perto ecoam mais alto, cortam mais o coração.

Esta é uma ténue faixa de terra à beira do mar, a consciência que disso temos é diminuta, estamos tão mais impreparados quanto mais deixarmos crescer as palavras de grandiosidade que insuflam os egos do povo.

Volto a mim para absorver este pequeno risco de sol que entrou agora pela janela, talvez seja o único que vem visitar-me nestes próximos dias. 

~CC~


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Tricotar janelas

 O que se faz com um dia menos bom? Ou devo dizer mau? 

Embrulha-se devagar, rolando-o na sua sombra para o dia seguinte. Talvez o cinzento não largue ainda o dia seguinte, ainda te lembrarás por mais alguns de que a notícia má te atingiu no cerne do teu orgulho profissional. 

Mas virá uma pequena luz e sabes que a deves beber, afinal não é tao importante assim e ficará cada vez menos se souberes deslocar o peso para fora do teu coração. Sabes, em segredo, que só há três ou quatro coisas na vida realmente más. O que te custará realmente são as condolências, sobretudo se chegarem disfarçadas de sorrisos e terás que lhes dizer que ganhar e perder são coisas que a vida tem. E que há dia adiante e já estás a tricotar janelas.

~CC~

domingo, 25 de janeiro de 2026

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Da Botânica da paixão e do amor (II)

 

Há amor que nasce sem paixão.

Os nossos amigos são como um tapete de malmequeres, uma rede de apoio e conforto. Por vezes não conseguimos destacar nenhum deles. Mas por vezes há alguém que se evidencia. Aproxima-se mais, passamos mais tempo, sentimos que precisamos mais. Dessa necessidade maior, surge aqui e ali um toque mais prolongado, uma pele que parece precisar da outra, é uma mão que se dá, um abraço que se aperta e sentimos o corpo do outro. Às vezes duvidamos, hesitamos, temos medo de estragar aquela amizade. Mas aquele malmequer já não é igual, ganhou outra cor. E já não podemos mais ignorá-lo. Não houve paixão mas a transformação da amizade em amor. E o desejo chega com uma roupagem diferente da paixão, vem com a luz das coisas conhecidas, não com a incandescência das desconhecidas. Há amor sem incêndio, há amor que é lume e fica muito tempo a arder até termos a certeza que aquela temperatura é boa, é a do clima ameno das ilhas.

E se não correr bem, pode ficar menos um malmequer no nossa verde manta, isso pode custar, mas também custa não arriscar.

~CC~



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Da Botânica da paixão e do amor (I)

 

Fomos com a Bea e pela mão de Gonçalo M. Tavares à Grécia antiga, na verdade um tempo tão reduzido na história da civilização, quanto marcante. Forjando-se entre deuses e filósofos era genuína a sua sede de explicar o universo, o mundo e os homens. E do tanto que já se explicou, está tudo ainda por explicar.

A paixão.

A paixão é a flor do maracujá. Hipnotizante nas suas matizes e formas complexas, podemos ficar presos lá dentro como numa armadilha. Também é designada como a Flor da Paixão ou Passiflora, dizem que atordoa pelo cheiro  e que a sua morfologia simboliza o martírio de jesus.

É uma luz incandescente que ao vir do outro na nossa direcção nos impele e nos atrai sem que saibamos explicar porquê, queremos só ir e mergulhar. E fazemo-lo vezes sem conta, numa bebedeira feita de pele e sucos. Pode durar dias, pode duras meses, até mais. Mas um dia tudo o que nos parecia só luz mostra uma pequena sombra. Ou a sede que parecia inesgotável mata-se mais rápido. Ou a vida cava um fosso pela distância ou por projetos que não se conciliam. Ou surge uma zanga que não se consegue sanar. E de repente tudo acaba sem remédio, sem modo de voltar ao início, de conseguir evoluir para outra coisa, amor ou amizade, com sorte não acaba em ódio. É o pássaro que esbarrou contra o vidro, a borboleta que se colou à planta, a mosca que entrou na garrafa. Morreu, é já nada, passou. E é assim que para muitos se transita de paixão em paixão, presos da força de Eros, do impulso que gera entusiasmo. Até pode haver paixões em simultâneo já que ela não se faz de compromisso mas de fome.

Mas pode acontecer que essa luz, a princípio incandescente, se torne mais ténue, mais consonante com o crepúsculo e essa transição, se não apaga o fogo dos corpos, deixa que ardam mais lentamente, está-se a caminho do amor. O amor é lúcido, é já casa em construção. Alimentá-lo em simultâneo com luz e com sombra, com desejo e com compromisso, com cuidado e com exigência, saber caminhar em todas as cores do arco-íris sem cair, é algo muito difícil e muito belo. Entramos na dinâmica do Girassol, saber virar o caule para beber a luz que mantém o amarelo da flor.

~CC~

(cont)


domingo, 18 de janeiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XVII)

 


Imaginem quando foi gravado?!

Quando tínhamos muito medo...e não é que ele volta, pouco a pouco, o bicho papão anda à solta e já não se denomina vírus. A vacina é bem mais difícil de criar.

~CC~




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Alguns também são poetas

 

Um raio de sol matinal espreitou no meio das nuvens, tornando o céu numa mescla mais bonita de azul e branco.

Creio que uma parte dele entrou dentro das dores persistentes na parte lombar da coluna que há cerca de um mês se decidiram instalar e não me deixam dormir uma noite plena, atrapalham a condução e os dias e até, por vezes, me secam a voz. Não que tenham passado, mas creio que esta promessa de Primavera será um factor fortemente adjuvante da medicação e talvez atenuante do retrato fiel que o instrumento científico trará em breve. Imagino um neurocirurgião que receitará caminhadas, leituras e banhos de mar ou mesmo termas com piscinas de água quente, talvez tocado por aquela pequena dose de magia que faz com que alguns médicos também sejam poetas. Mas há uns que não: olham direito nos olhos, com o bisturi bem perto de entrar na nossa pele, apontando a solução que consideram ser a certa, desprezando a nossa relação com o universo e os factores adjuvantes do clima. 

~CC~



 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Musiquinha de Domingo (XVI)

 



"Onde houver amor, o mal não pode acontecer"


(como a Márcia, sempre fui dos pequenos brilhos, nunca dos incandescentes, sempre a sonhar manhãs belas)

~CC~

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

De tirar da própria terra

 

Trata-se de um espaço amplo, uma casa antiga que a autarquia recuperou e abriu ao público, com uma bonita esplanada interior. Duas mulheres entraram com duas jovens, estava eu a tentar beber do pouco sol que o dia tinha. Uma das mulheres apontou a parede pintada de motivos marinhos ao fundo, considerando que era bonita. Mas a outra mulher retorquiu que nada ali tinha grande interesse, que as miúdas queriam era ver lojas. E as jovens riram, abanaram a cabeça em concordância, ao que as mulher retorquiu alegremente: vamos, vamos!

E assim se enchem os centros comerciais e se compram mais e mais coisas das quais pouco ou nada precisamos. E eu que cada vez gosto menos de comprar, até comida, coisa que por muitos anos comprei em abundância e atafulhei o armário, perdoei-me muitas vezes desse excesso pela exiguidade de alimento na infância e na adolescência. Consciente dos meus mecanismos de compensação, fui procurando corrigi-los. Ainda assim não estou curada, quando um recipiente de detergente vai a meio, se não tiver outro comprado, sinto-me desconfortável. Gostava de saber viver com menos ainda e, sobretudo, de tirar da própria terra uma parte do meu alimento.

~CC~

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Guardo todos os meus gestos

 

A minha mão é um pássaro que se quer aninhar no teu cabelo. Mas mal levanta voo percebe que tem que iniciar o trajecto de volta e assim faz, recolhe-se. Sei que me agradeces pelo gesto que queria fazer e não fiz, pelo que não seremos, por todos aqueles que não magoaremos. Não voltemos às lágrimas que um dia conhecemos tão bem nos olhos um do outro. A renúncia do amor é ainda o amor, diz-se é de outra forma, escolho morar com a luz doce dos Invernos amenos, por isso guardo todos os meus gestos que incendeiam. Arrefeço a mão com o gelo destes dias e assim morna ela é já só o carinho que te tenho. Quero-te, ainda assim, por perto, para poder beber do brilho dos teus olhos que tanto tempo esteve oculto, isso basta-me.

~CC~

domingo, 4 de janeiro de 2026

Musiquinha de Domingo(XV)


 Pelos homens bons que sabem o que é a dignidade humana. É só uma cancão, é mais do que uma canção.

~CC~



quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

As 12 passas

Nascida nos anos e nos dias pares, sempre preferi os ímpares. Mas analisando os anos ímpares foram afinal dos mais tormentosos e os pares mais cheios de acontecimentos felizes. Tudo isso me mostra a irracionalidade das coisas e a minha própria. E só essa pequena dose de irracionalidade que em mim mora me permite perceber como ela é capaz de dominar as pessoas. Esperam ganhar o Euromilhões para concretizar os seus sonhos, fazem conjecturas de vida a partir de folhas de chá, acreditam na justiça divina e até que organizar um simples esquema de vacinação coletiva as torna competentes para presidirem ao destino de um país.

E se antes esta dose de irracionalidade tinha tendência a combinar-se com falta de instrução, vulnerabilidades pessoais ou sociais, credos e estilos alternativos que apenas levavam alguns consigo, parece agora que a irracionalidade alastra alegremente como se tudo fosse possível de dizer e permitido de ser.

Somos todos presas fáceis da magia, afinal comemos 12 passas, colocando em cada uma um desejo. Só a admissão de que somos todos um pouco tontos nos permite perceber a tontice que em todos reside. Ainda assim é bom mantê-la numa dose pequenina.

Desejo-vos assim que se mantenham lúcidos e de olhos bem abertos, os tempos estão difíceis. Mas não se tornem amargurados, também é preciso saber rir.

~CC~