domingo, 5 de abril de 2026

Passeio de Domingo (III)

 

É uma terra estranha esta a de Mira d´Aire.

Já foi um ponto forte do turismo por causa das suas grutas, vieram excursões e fizeram-se parques de estacionamento junto a cada entrada, agora quase sempre a menos de metade da sua capacidade de ocupação. O interesse pelas grutas foi passando, ainda que se mantenham abertas e ainda venha gente curiosa. Nunca lá entrei, não obstante as muitas vezes que vim, tiram-me a possibilidade de ver o céu e a rejeição nasce.

Já foi um lugar de indústria forte, aqui se teciam tapetes e mantas e havia uma fábrica em cada esquina, a maior parte estão abandonadas e os edifícios devolutos ou  tornados outra coisa. Não resistiram à invasão da mercadoria muito mais barata, ao decréscimo dos rebanhos, à mão de obra emigrada para paragens onde se pagava melhor. Guardo com muita ternura a visita a uma pequena fábrica que ainda há uns anos estava em funcionamento, os teares são arquiteturas magníficas de sentido e engenho humano, gostava de saber tecer.

A vila em si é pouco atrativa, na esteira do desenvolvimento dessas épocas áureas vieram os prédios de má qualidade e derrubaram-se as casinhas de pedra. Mas há, sobretudo entre a serra e dentro do concelho de Porto de Mós (a serra está dividida em dois concelhos), aldeias ainda bonitas, revitalizadas e reconstruídas, algumas por estrangeiros. 

E há o céu grande lá em cima, cortado por grandes aves, muitas de rapina. E há sempre algo que não tinha visto antes, na visita anterior. Desta vez foi o curioso miradouro da Azelha. Fosse só um miradouro e eu já gostaria. Mas tem uma seta que diz a que distância estou do lugar em que nasci. E distâncias de outros lugares. Fiquei ali algum tempo a observar as setas, os países e as direcções. Mas nada constava sobre a ideia subjacente. Só pesquisando soube. Trata-se de uma homenagem e que bonita. S. Bento é uma comunidade espalhada pelo mundo e a sinalética aponta para os 14 destinos com gente da terra e a respetiva distância. 

É preciso persistir nessa memória, também nós partimos em busca de melhores condições de vida, talvez isso se nos indigne mais quando ouvimos alguém a dizer a um outro que vá para a sua terra.

~CC~








12 comentários:

  1. Obrigado por compartilhar connosco, obrigado por tomar do seu tempo em prol do outro, obrigado.
    Tenha uma boa Páscoa CC.

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    1. Ora essa, digo do mundo e digo-te. É tempo roubado à falta de tempo. Obrigada por vir.

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  2. Num passeio escolar - teria 12, 13 anos - fui às grutas de Mira D'Aire. Penso que foi a primeira maravilha natural com que deparei, ou para que fiquei alerta. A minha alma abismou das estalactites e estalagmites uma mais linda que a outra. Não fazia ideia de que coisas de tal natureza pudessem existir. Passeei nelas mudamente, com respeito e veneração como quem entra na casa de um Deus.
    Não me impressiona não ver o céu. Mas a CC recordou-me uma frase do livro "O meu nome é Lucy Barton" quando a mãe de Lucy um dia lhe pergunta com estranheza (Lucy vive em Nova Iorque e a mãe no campo), "Lucy, como é que tu podes viver sem céu?".
    Acompanhei a sua viagem com gosto CC, embora desconheça de todo o lugar. Ficaram-me apenas as grutas, são o milagre que a memória, ressalvou.
    Boa semana

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    1. Pouco ou nada tive esses passeios de escola. Há muita gente que goste de grutas e de lá sai encantado. Pode ser que um dia eu consiga, nunca se sabe...mas é difícil, gosto mesmo de céu. Um abraço e boa semana

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  3. esse é um dos reais problemas que atravessa a sociedade portuguesa.
    nós, que sempre procurámos destinos que nos melhorassem as condições de vida que o espaço em que nascemos nos ofertava, hoje recusamos ser procurados por outras gentes que têm dentro de si os mesmos anseios.
    Camões tinha razão quando escreveu "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,..." e José Mário Branco tão brilhantemente cantou num arranjo seu sobre a poesia de Camões.
    boa semana

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    1. Obrigada por ter vindo aqui captar essa essência. Para mim um bom passeio, não só nos enche a alma e nos faz respirar, também nos ensina sempre alguma coisa. Dói o esquecimento do que fomos...no modo como muitos se comportam.

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  4. A indignação que sente é o sinal de que a sua bússola ética está a funcionar.
    Essa memória histórica é, muitas vezes, o que nos falta para humanizar o presente.

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  5. Já lá fui faz algum tempo, e fiquei fascinada pelas grutas.
    Mas sou sincera, hoje, já não entrava, com o passar dos anos, faz-me confusão, e ansiedade estar em ambientes fechados e principalmente em grutas.
    Gostei do texto.
    Boa semana com saúde e paz.
    Beijo
    :)

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    1. Pois é Piedade, difícil explicar isto que nos acontece com a idade...mas há que aceitar e integrar, o tempo muda-nos. Beijinhos

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