É uma terra estranha esta a de Mira d´Aire.
Já foi um ponto forte do turismo por causa das suas grutas, vieram excursões e fizeram-se parques de estacionamento junto a cada entrada, agora quase sempre a menos de metade da sua capacidade de ocupação. O interesse pelas grutas foi passando, ainda que se mantenham abertas e ainda venha gente curiosa. Nunca lá entrei, não obstante as muitas vezes que vim, tiram-me a possibilidade de ver o céu e a rejeição nasce.
Já foi um lugar de indústria forte, aqui se teciam tapetes e mantas e havia uma fábrica em cada esquina, a maior parte estão abandonadas e os edifícios devolutos ou tornados outra coisa. Não resistiram à invasão da mercadoria muito mais barata, ao decréscimo dos rebanhos, à mão de obra emigrada para paragens onde se pagava melhor. Guardo com muita ternura a visita a uma pequena fábrica que ainda há uns anos estava em funcionamento, os teares são arquiteturas magníficas de sentido e engenho humano, gostava de saber tecer.
A vila em si é pouco atrativa, na esteira do desenvolvimento dessas épocas áureas vieram os prédios de má qualidade e derrubaram-se as casinhas de pedra. Mas há, sobretudo entre a serra e dentro do concelho de Porto de Mós (a serra está dividida em dois concelhos), aldeias ainda bonitas, revitalizadas e reconstruídas, algumas por estrangeiros.
E há o céu grande lá em cima, cortado por grandes aves, muitas de rapina. E há sempre algo que não tinha visto antes, na visita anterior. Desta vez foi o curioso miradouro da Azelha. Fosse só um miradouro e eu já gostaria. Mas tem uma seta que diz a que distância estou do lugar em que nasci. E distâncias de outros lugares. Fiquei ali algum tempo a observar as setas, os países e as direcções. Mas nada constava sobre a ideia subjacente. Só pesquisando soube. Trata-se de uma homenagem e que bonita. S. Bento é uma comunidade espalhada pelo mundo e a sinalética aponta para os 14 destinos com gente da terra e a respetiva distância.
É preciso persistir nessa memória, também nós partimos em busca de melhores condições de vida, talvez isso se nos indigne mais quando ouvimos alguém a dizer a um outro que vá para a sua terra.
~CC~


É uma zona muito bonita.
ResponderEliminarUm abraço.
Tem o seu encanto próprio sim. Um abraço
EliminarObrigado por compartilhar connosco, obrigado por tomar do seu tempo em prol do outro, obrigado.
ResponderEliminarTenha uma boa Páscoa CC.
Ora essa, digo do mundo e digo-te. É tempo roubado à falta de tempo. Obrigada por vir.
EliminarNum passeio escolar - teria 12, 13 anos - fui às grutas de Mira D'Aire. Penso que foi a primeira maravilha natural com que deparei, ou para que fiquei alerta. A minha alma abismou das estalactites e estalagmites uma mais linda que a outra. Não fazia ideia de que coisas de tal natureza pudessem existir. Passeei nelas mudamente, com respeito e veneração como quem entra na casa de um Deus.
ResponderEliminarNão me impressiona não ver o céu. Mas a CC recordou-me uma frase do livro "O meu nome é Lucy Barton" quando a mãe de Lucy um dia lhe pergunta com estranheza (Lucy vive em Nova Iorque e a mãe no campo), "Lucy, como é que tu podes viver sem céu?".
Acompanhei a sua viagem com gosto CC, embora desconheça de todo o lugar. Ficaram-me apenas as grutas, são o milagre que a memória, ressalvou.
Boa semana
Pouco ou nada tive esses passeios de escola. Há muita gente que goste de grutas e de lá sai encantado. Pode ser que um dia eu consiga, nunca se sabe...mas é difícil, gosto mesmo de céu. Um abraço e boa semana
Eliminaresse é um dos reais problemas que atravessa a sociedade portuguesa.
ResponderEliminarnós, que sempre procurámos destinos que nos melhorassem as condições de vida que o espaço em que nascemos nos ofertava, hoje recusamos ser procurados por outras gentes que têm dentro de si os mesmos anseios.
Camões tinha razão quando escreveu "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,..." e José Mário Branco tão brilhantemente cantou num arranjo seu sobre a poesia de Camões.
boa semana
Obrigada por ter vindo aqui captar essa essência. Para mim um bom passeio, não só nos enche a alma e nos faz respirar, também nos ensina sempre alguma coisa. Dói o esquecimento do que fomos...no modo como muitos se comportam.
EliminarA indignação que sente é o sinal de que a sua bússola ética está a funcionar.
ResponderEliminarEssa memória histórica é, muitas vezes, o que nos falta para humanizar o presente.
Mesmo, esquecemos demasiado rápido...um abraço!
EliminarJá lá fui faz algum tempo, e fiquei fascinada pelas grutas.
ResponderEliminarMas sou sincera, hoje, já não entrava, com o passar dos anos, faz-me confusão, e ansiedade estar em ambientes fechados e principalmente em grutas.
Gostei do texto.
Boa semana com saúde e paz.
Beijo
:)
Pois é Piedade, difícil explicar isto que nos acontece com a idade...mas há que aceitar e integrar, o tempo muda-nos. Beijinhos
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