Este ano podia nem haver Natal, eu nem daria por isso. Há anos em que sinto essa alegria da época, outros em que não. Foram bons os Natais na aldeia. Foram bons os anos em que inventávamos decorações que se completavam só com a chegada da família, tinham que pintar ou escrever ou montar...e das árvores alternativas que imaginávamos e eram parte desse cenário. E isso acontecia na tua casa, apesar de detestares esta comemoração.
Posso recuar a deslumbramos antigos, os dos espectáculos criados com as meninas, preparados com afinco e alinhamento ou a mais anteriores ainda, ao churrasco no quintal da minha infância. O meu coração já vibrou com a festa.
Este ano nada está nas minhas mãos, nem as comidas. E agradeço que assim seja e muito, não me sinto capaz. Este ano apenas me esforço.
Ainda assim, foi hoje ela a salvar-me, como quem me tira do fundo do poço. Ela, sempre a mais velha e, no entanto, que energia menina. Ela e o seu pudim de laranja, a sublinhar o lugar que as coisas devem ter, os patrimónios que a família constrói ano após ano, muito graças a estes encontros, a este em particular. E foi por ela que sempre fiz Natal, mesmo em anos não.
Pudim de laranja, esse que só o Natal traz. Uma espécie de resgate da inocência perdida entre anos e anos de incentivo ao consumo (o mar de prendas junto à árvore e a contagem de quem ganhava mais) e agora os testes à Covid e as restrições pandémicas.
A todos os que passam por esta rua desejo que encontrem também o seu sabor doce, qualquer que ele seja.
~CC~