quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

A frase agarrada a mim

 

Não vos acontece uma frase, um título de um livro, uma palavra andar agarrada a vós, infiltrando-se em tudo?!

Está a acontecer-me com "O tempo, esse grande escultor". E creio que não é pela escritora, que li, sem me deslumbrar. A frase é que é magnifica.

Embora esse escultor que é o tempo teime em esmagar-me. Não pelas rugas, pela deformação do corpo, pelo esgotamento da energia...é mais por me faltar em horas e minutos a cada dia que finda. As longas listas de coisas em que só em metade marco um certo, a indicar que está feito. A vã promessa a cada ano que não será assim. Um dia conseguirei. E esta frase não andará agarrada a mim, será outra, mais leve.

~CC~


sábado, 5 de fevereiro de 2022

No escurinho do cinema

 

Tenho praticado pouco este bom escurinho.

Mas no último domingo passei a tarde num escurinho destes mesmo que não seja bem um cinema. Trata-se do ciclo: um pintor, um filme. O filme da matiné era "Seráphine".  Para quem acha que a arte só nasce em determinadas classes sociais e o estilo se adquire no trabalho com os mestres, esta mulher é um exemplo do contrário. Trata-se de uma mulher só, muito pobre, já na meia idade, uma criada a servir em casas de campo. Pinta talvez para não enlouquecer e falar com os anjos e depois enlouquece por pintar, pela pintura lhe ter derrubado os muros que a continham. A actriz é de uma excelência tão grande que para mim ela é aquela mulher, não a imagino a fazer outros papéis.

Para quem tem plataformas de filmes, pode encontrá-lo com facilidade e passar com ele uma bela tarde ou noite. 

Fiquei com muita vontade de usar finalmente os lápis que me deste, levá-los para o campo e traduzir estevas em telas.

~CC~




quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Tanta saudade

 

Aquela fase do cansaço extremo, trabalhando de sol a sol, como uma formiguinha. Tantas saudades do mar.


~CC~

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Talvez ler-te um poema...

 

Eras de Direita numa escola de Esquerda, eras Católico numa escola predominantemente Ateia. Disseram-me para não gostar de ti e disseram-te para não gostares de mim. E, contudo, como me recebeste bem, como me amparaste, ajudaste e me deslumbraste com o teu modo de ser e de dar aulas. Gostámos afinal um do outro, livres de estereótipos e de intrigas. Senti a tua falta quando pediste a reforma no tempo certo mas sei que não paraste, que andavas para lá e para cá entre Cabo Verde e Portugal, por certo cativando alunos.

Há cerca de um mês pedi o teu telefone, não cheguei a ligar e agora já não o posso fazer. 

Quando for à Meia Praia, mesmo sem saber rezar, hei-de falar contigo, talvez ler-te um poema. 

~CC~

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

As noites do Dragão

 

Não, não vou falar da noite eleitoral de ontem...para múltiplos significados, análises e opiniões há por aí blogues de sobra (mas também já houve mais...). E as sondagens? O povo português continua a ser surpreendente e a teimar em não alinhar com elas. E os comentadores pagos a peso de ouro que acertam tudo ao lado?!

Mas por causa da noite de ontem, hoje sinto-me a precisar de uma noite do Dragão, ou seja, de uma aula de Chi Kung.

Com o evoluir da pandemia e apesar da pena que sinto por tal alteração, as manhãs tornaram-se noites e o ar livre e depois o ginásio passaram a ser a janela online pela qual o professor espreita. A mudança foi-me difícil e demorei mais a conseguir, dentro de casa, desligar-me.

Na última aula finalmente fui onda do mar, bocadinho de espuma, gaivota planando. Finalmente deixei que o meu corpo se transformasse num bocado de natureza, parte de um universo maior, gota entre gotas. Abracem-se, pediu ele no fim. Mas não havia ninguém para abraçar. O esforço teve que ser maior.

~CC~