sábado, 22 de outubro de 2022

À escuta

 

É talvez das minhas melhores estudantes. Gosto genuinamente da sua honestidade.

Vejo-a do outro lado do écran mais de uma hora, pediu-me para a ouvir. Limpa frequentemente as lágrimas enquanto fala. Sinto a cada momento que era preciso desfazer um por um todos os mitos que a fazem sofrer. A pressão tremenda do sucesso escolar, a lógica do trabalho ter que inspirar felicidade, essa ideia de realização profissional com a qual todos crescemos, a trágica fantasia de que queremos de alguma forma marcar o mundo e não nos diluirmos na massa anónima (algures, por ali o célebre empreendedorismo), tudo acompanhado por não conseguir escolher, por não saber o caminho. Tudo o que eu digo tem os anos e anos que ela não tem, por isso temos dificuldade em compreender-nos. Repetidamente lhe digo que só tem 23 anos e o mundo ainda terá múltiplos caminhos, múltiplas escolhas e raramente poderá saber se fez a certa, mais vale aprender a gostar da que fez. Digo-lhe que é bom gostar de tantas coisas, poder simplesmente ter caminhos, há quem não veja nenhum. Tento sobretudo diminuir-lhe o sofrimento.

Como terminamos sem que lhe veja aparecer um sorriso e me sinto extremamente cansada por ter tido uma jornada longa, eu própria duvido que tenha tido algo êxito. Ainda assim, sinto o conforto da sopa quente e de ter tentado. Afinal talvez seja isso que me diferencie dela, chega-me perfeitamente o consolo das coisas pequenas que os dias me trazem. Já não sofro por ser apenas alguém na massa anónima, aceito-o e tento ver nos meus semelhantes, sobretudo nos mais simples, nos mais desprotegidos, a grande companhia de quem com eles atravessa a jornada. E é nesse laço que encontro grandeza.

~CC~




quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Cinzento-amarelo

 

Tento habituar o corpo à humidade, dizendo-lhe para não se manifestar assim com dor, a água é um bem precioso. Falo com ele para lhe dizer que não tarda volta o sol e como choveu poderemos depois beber dele sem remorso. Estes diálogos entre o cinzento necessário e o amarelo amado não são fáceis.

~CC~


sábado, 15 de outubro de 2022

Aproveitá-lo

 

Entrei na papelaria do bairro e o senhor conversava com a senhora que estava antes de mim. Perguntava-lhe se já tinha ido ao cabeleireiro agora renovado, e ela que sim, que os clientes sempre esperam e voltam. É uma questão de apoio, disse ela. A seguir entrou alguém com voz forte: preciso de moedas! Rimos todos, e eu comentei-lhe a voz, recomendando-lhe um coro. Também rimos, e o senhor da papelaria disse: tem que ir lá à frutaria deste senhor, não há melhor. Agora rimos eu e o senhor da frutaria pois sou há muito cliente. Apareceu a mulher do senhor da papelaria e pediu-lhe que lhe guardasse um bom melão pele de sapo. Passe lá antes da uma, respondeu ele. Talvez consiga lá passar também, disse eu. E ali ficámos a conversar sobre fruta entre jornais e raspadinhas.

Talvez esta seja a única coisa que agradeço à pandemia, mostrou-me que morava num bairro e devia aproveitá-lo.

~CC~

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Sim, o que queriam?

 

A determinada altura o moderador, depois de ter interrogado brilhantemente os autores sobre como convivem com um poder inútil (a poesia) e ter lido um poema de cada um dos presentes, desfez-se do seu tom (mais) intelectual e colocou-lhes as perguntas que as filhas lá em casa gostam de fazer à hora do jantar. O que salvavas de uma casa em chamas? Se tivesses um superpoder, qual escolhias? Também gosto de me divertir com essas coisas.

E então, qual seria o vosso superpoder?

É que ele fez batota e disse que seria a liberdade, a mais humana das construções.

Ora, superpoder é algo inatingível que o ser humano não consegue por si próprio obter. Sim, sim, o que queriam?

~CC~

domingo, 9 de outubro de 2022

Vertigem e pausa

 

As horas fogem e fogem e não consigo agarrá-las para lhes encaixar tudo o que preciso. 

Ainda assim, houve lugar a encontros comovidos com pessoas, cidades e aldeias. Nessas alturas esqueço-me, deixo-me ficar, respiro. É o coração que bate em cada pausa.




~CC~