sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Espantos

 

Desde a adolescência que não voava assim...em sonhos, claro.

Acordei a meio da noite espantada com a sensação, aquela vertigem de ver tudo lá do alto e planar. Mas também me adverti quanto a este regresso aos meus 14 anos. Resultado: continuei a sonhar o resto da noite que voava...mas de avião. Ainda dizem que o super-ego é só uma invenção do Freud.

~CC~


sábado, 5 de novembro de 2022

Cabo Verde no mapa do mundo

 

As lágrimas ocorreram em determinados momentos do documentário. Cesária Évora, tudo a fadava à miséria, nada a estrela da música mundial, coisa que alcançou já depois dos 50 anos e após 11 sem sair de casa, fechada no seu mundo, na sua cabeça. Uma mulher que não suportava sapatos por ter os pés cheios de cravos desde pequena (não, não era uma questão de estilo). Uma voz que vem da terra e é o mar inteiro.

O seu Mindelo pequenino do tamanho do mundo inteiro, Cabo Verde finalmente um país que deixou de ser mudo e invisível.

Obrigada Cesária, por no teu regresso à terra, estar à tua espera uma cachupa e não qualquer outra coisa trazida da cozinha francesa, lugar primordial que te deu guarida (nem disso nos podemos nós gabar).

~CC~

domingo, 30 de outubro de 2022

Casa

 

As minhas memórias da escola são muito raras, às vezes penso que só iniciei a escolaridade no Ensino Secundário, pois desse período as lembranças são vivas e intensas. 

Não recordo aulas, professores ou matérias. Não me lembro de nada do que aprendi. Tenho a ideia de que escrevia num diário. Tenho a ideia vaga de que uma vez a professora de Português me deu os parabéns por um texto e o li em aula. 

Dos pré fabricados em que estudei do 7º ao 9º ano lembro, porém, um dia de chuva. Eu e a minha amiga, direi mesmo grande amiga, decidimos que a deixaríamos cair sobre nós numa dança irreverente. Dançamos assim patinhando nas poças do pátio e abrindo os braços, rindo. Eu acho que também chorei. Os colegas chamavam-nos loucas, os professores pouco se importavam, à excepção de uma professora que nos chamava para dentro. Acho mesmo que foi depois desse dia de água a cair e a sair por todos os poros que voltei a ter memória. Foi o meu primeiro corte com a mágoa, a tristeza profunda em que sozinha vagueava. Talvez tenha aprendido a dizer casa e tenha sido esse o milagre.

~CC~


quinta-feira, 27 de outubro de 2022

À tona e à toa

 

Esta sala de yoga é pequena, bem cheirosa, completamente feminina.

Oiço a professora falar sobre as deusas, os equinócios, o valor da saudação ao sol e à lua, o modo como ela põe um acento vagoroso e emocionado em cada coisa que invoca. E tenho vergonha da minha infinita descrença, de estar ali tão só e apenas para sentir partes do meu corpo que já me esqueci que existiam. Por isso sou apenas uma aluna medíocre, ontem mesmo, incapaz de me concentrar como devia, troquei várias vezes a direita e a esquerda, virando ao contrário do que toda a gente virava. Apeteceu-me, pela primeira vez, desistir. Contudo, não o farei. Incapaz de ir ao fundo de um fundo de que não conheço, tentarei nadar à tona, respirando e sobrevivendo.

~CC~


domingo, 23 de outubro de 2022

Palavricas

 


Gosto desta flor, em particular desta canção. Um pescador capaz de pescar as nossas dores com palavricas de amor, que bonito Edith.

Ideal para um domingo em que o sol espreitou um bocadinho.

~CC~