terça-feira, 14 de outubro de 2025

Que a noite chegue mais cedo mas jamais nos engula

 

Olha só como a noite vem agora mais depressa, ainda assim tem chegado doce, em crepúsculos alaranjados e secos.

Permitiu-me um último banho de água em terras ainda banhadas pelo sol e brindes com sangria de champanhe, dotes desconhecidos da filha, nunca sabemos verdadeiramente tudo sobre eles, e o contrário também é verdadeiro.

Os retratos de família actualizam os laços que a dispersão geográfica torna difíceis e só a doses cada vez maiores de persistência permitem os momentos de partilha dentro dos anos que passam. 

Entre duas palmeiras houve festa, depois saímos de rompante para o dever cívico, concluímos que já todos os que ali estavam podiam votar, um deles pela primeira vez. É quase só o que nos resta, esse voto na e pela Democracia.

Que a noite chegue mais cedo mas jamais nos engula. 

~CC~



domingo, 12 de outubro de 2025

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Este dia que acordou cinzento

 

O dia está cinzento e isso diz quase tudo sobre as sombras que caminham dentro de mim na memória do dia em que te despediste, faz agora dois anos. Sei bem que tinha chegado a hora, que querias ir, tanto quanto eu o desejarei quando o meu espaço de vida for uma cama. Queria, contudo, que tivesses sofrido menos e também que eu própria tivesse sofrido menos. A solidão que vivi nos teus últimos anos, um buraco que se foi cavando no interior de uma rede de proximidade que se esvaziava e se distanciava, é talvez o que mais me marcou. 

Ainda assim esforço-me por te recordar alegre como te vi em certos momentos, trazendo mais esperança para romper estas nuvens, nem que seja com chuva, a água tudo lava e as lágrimas também nos limpam.

~CC~


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

A possibilidade infinita

 

Tu e eu ali no jardim, nos nossos 16 anos.

Mas ela tinha longos cabelos encaracolados presos e era muito magra. E ele, menos caracóis do que tu. Esperou-a no meio do jardim antes de darem as mãos e seguirem para a escola.

Ela disse: não tive tempo de lavar o cabelo hoje, trouxe-o atado.

Era um lamento.

Ele disse: eu tomei banho, lavei o cabelo e até coloquei creme, tudo para ti.

Estava obviamente orgulhoso.

Nunca diríamos estas coisas. Não eras tu, não era eu.

A única coisa igual eram aquelas mãos e o que por elas passava, a intensidade de agarrar o outro e com ele caminhar, todo o universo a desenhar-se em possibilidade infinita, por um momento invencíveis.