terça-feira, 23 de julho de 2019

Sargaços



É o cheiro e a cor do mar do Norte.

E os amontoados de Sargaços junto à orla da espuma que exalam aquele odor forte.

A bruma cerrada das manhãs.

Outros horizontes para gostar.


~CC~


quinta-feira, 18 de julho de 2019

Coisa(s) pública(s)



Ela disse alto, ao telefone, em plena hora de ponta, no comboio: nós já não éramos felizes juntos. E continuou, explicitando, que contudo fora ele a terminar o casamento e que isso lhe tinha custado muito. Estava habituada a ser casada. Contudo, hoje, passado algum tempo, agradecia-lhe. Eu que tenho a convicção que são as mulheres a chegarem à ruptura, mesmo só porque sim, sem terceiros envolvidos, fiquei um bocadinho espantada. Mas ela não referiu se o marido teria ou não outra pessoa, talvez não fosse coisa que se pudesse dizer alto no comboio. Mas a conversa era íntima, pois ela manifestava estados de alma, anseios, angústias e vontades.

Fico espantada com as conversas íntimas que as pessoas têm em espaços públicos em que sabem que todos as ouvem, fazem-no sem pudor, sem qualquer preocupação. Sou incapaz de o fazer, nesses espaços o telefone é apenas para recados, informações, coisas triviais. Ainda sou daquelas que espero chegar a casa para ligar com tempo, no silêncio, sozinha e em paz, usando em público com o interlocutor(a) que ligou um: "já te ligo" ou "ligo mais tarde". É por estas coisas pequenas que se vai descobrindo o quanto pesa o século em que nascemos.

~CC~

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Ladaínha feliz



O que me apaixona é a cor deste mar.

Não, o que me apaixona é a cor deste céu.

Não, o que me apaixona é a cor desta areia, junto a este mar, debaixo deste céu.

Não, o que me apaixona é a tua presença na cor desta areia, junto a este mar, debaixo deste céu.

Existirmos vivas, juntas, faladoras, cúmplices, na cor desta areia, junto a este mar, debaixo deste céu.

~CC~

sábado, 13 de julho de 2019

Constatações matinais



É sem dúvida o melhor sítio para lavar o carro, no meu caso, uso-o no máximo duas vezes por ano. É longa a fila, logo às 9h da manhã de sábado. Na fila de dez carros, predomina a presença masculina, apenas eu e outra mulher. É a proporção inversa da fila do supermercado.

~CC~

terça-feira, 9 de julho de 2019

Não há B, nem C, nem D


Pouco a pouco os electromésticos foram avariando. 

E vieram os diagnósticos, pagos evidentemente. O valor da proposta de cada arranjo pouco abaixo do valor de uma máquina nova. Se adicionado o valor da deslocação, muito próximo mesmo. Diz o entendido que tenho sorte, cada um dos novos não durará metade do que estes duraram (cerca de 14 anos). Significa isto que apesar da tecnologia estar cada vez mais avançada, tudo durará cada vez menos. Já tinha percebido isto mesmo com os carros, lembram-se que duravam uma vida? Os miúdos que neles andavam a comer guloseimas eram os mesmos que neles aprendiam a conduzir. 

Olho para a mobília de quarto da minha filha comprada há meia dúzia de anos, também está toda estragada, os cantos descolaram e a pretensa madeira de faia ficou baça e feia.

As coisas são agora feitas para serem descartáveis, jogadas fora. Pergunto-me amiúde para onde irá todo este lixo. Pergunto-me como fazer diferente, sem conseguir arranjar solução. As máquinas estão ali paradas e ando a lavar roupa e loiça à mão, sei que não é sustentável para mim, mas adio, penso, repenso.

A vida moderna está cheia de paradoxos, de contradições, de dilemas. Fingir que é simples o caminho para um planeta sustentável é ilusório, com pequenas coisas até já consigo fazer o caminho, mas com outras tenho muita dificuldade. Mas a consciência essa está sempre lá: não há planeta B, nem C, nem D...


~CC~