domingo, 27 de agosto de 2023

Grécia(I)

 Em Atenas há pedras que falam e gatos silenciosos que por todo o lado se infiltram e aparecem em lugares inusitados olhando-nos, estou quase certa que vivem dentro deles todos estes deuses e deusas amargurados expulsos da Acrópole. 




quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Ainda a lista

 

A lista era feita das coisas que me fariam feliz.

Concretizar cada uma delas é mais do que elas em si, trata-se da capacidade de alcançar o que sonhamos, em vez de marinar eternamente no que desejamos.

Só me esqueci de um pormenor, quando chegamos ao sonho, podemos não conseguir estar nas condições de o usufruir em pleno. É o que me tem acontecido. Não planei esta viagem à Grécia como desejaria ter feito, não tive as condições para o fazer, nem consegui voltar ao livro da Sophia. Ainda assim talvez a Ágora me faça bem, a civilização helénica foi um banho de criatividade humana, inventores da melhor e do pior que ainda hoje transportamos. Também eles afogados neste calor, não vivem o seu melhor momento.

Se a mais velha que hoje cumpriu os seus 95 anos de olhos fechados, acamada, certamente triste, mas ainda assim resiliente, ainda está na luta, também nós temos que lutar por nós, aspirar de tudo o que pudermos ver no mundo, espero assim que o azul grego seja um mergulho que me ajude a encontrar o Verão.

~CC~




terça-feira, 15 de agosto de 2023

Biblioterapia

Este livro tem sido a ajuda possível neste Verão atípico, com a minha atenção dispersa e inconstante só consigo pegar nele por ser tão bem escrito, tão apelativo, mesmo sendo um ensaio.


 Em Faro e em Setúbal, duas incríveis mulheres lutam pela vida. Uma tem 94 anos, quase 95, a outra apenas 57. 

O coração com elas.

~CC~



quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Poética (III)



Moram aqui neste hotel *almas imortais que deambulam pelos quartos e se sentam invisíveis a tomar o pequeno almoço comigo na varanda debruada sobre o rio. Só eu sei que não estou só. Dizem-me ao ouvido pedaços de versos e por isso demoro muito tempo a finalizar o café, saboreando as palavras e soletrando que "o nosso dever é falar.** "e que é "urgente o amor"***, nada tem tal emergência, tal eclodir. 

Em todo o lado as paredes têm poemas escritos, dentro e fora deste espaço. Mas não há ninguém que pare a ler, acho que nem sabem que esta praça é dos poetas, mais adiante é a poética dos mergulhos fluviais de famílias inteiras que se desenha no meu olhar, é bonito também.

Mas estou certa que alguém um dia se sentou aqui e sentiu a respiração cortada pela beleza do lugar, algo só semelhante à vibração interior de um verso. Poderia ficar muito tempo e nunca estaria verdadeiramente só. "Ama como a estrada começa****", também, como o poeta,  não sei o que quer dizer, mas sei que traduz a intensidade com qual sempre senti a vida.

 


Notas:


*E assim cumpri mais um desejo dos dez da lista.
**  e ****Versos de Mário Cesariny cujo centenário de nascimento se comemora hoje.
*** Verso de Eugénio de Andrade.

terça-feira, 8 de agosto de 2023

Balança

Paraíso e inferno em doses proporcionalmente equivalentes. Só espero que não ocorra um desequilíbrio de forças e, se ocorrer, que eu me aguente. Quando perdi o meu pai que amava em dose moderada tive que nadar para vir à tona, quanto mais esta força da natureza de nome minha mãe.

~CC~