sexta-feira, 14 de junho de 2019

Errar



Os erros dos outros causam-me alguma zanga, os meus uma insuportável dor. Em vez de me perdoar, considerando que o erro foi tudo menos deliberado, volto a esse momento em que fui tudo menos o que quero e julgo ser e sinto-o como se fosse um punhal a cortar-me por dentro. Compreendo assim que a ferida que causo a mim própria é mais difícil de sarar do que aquela que é causada por outros. Consegui muito ao longo dos anos, sem livros de auto-ajuda e sem divãs de psicanálise, mas nunca me consegui livrar deste alto nível de exigência, do qual sou, sem dúvida, a primeira vítima.

~CC~

quinta-feira, 13 de junho de 2019

A lista



Não escrevi a lista no papel.

Mas tenho-a vindo a escrever na minha cabeça.

São aquelas coisas. As coisas que precisamos de fazer antes que a morte nos leve, talvez se as tivermos ela seja piedosa e espere. E podemos sempre acrescentar mais coisas, piscando-lhe o olho: olha esta tinha-me esquecido, mas preciso de a fazer...espera lá aí mais um bocado!

É verdade que foi a sua aproximação em tempos recentes que me fez criar a lista. Mas agora acho que faz sentido por si própria, mesmo sem termos a morte à espreita (se bem que de certa forma está sempre aí à espera e à espreita de todos nós, afinal só um bocadinho mais do uns do que de outros).

E depois dos 50 até me dou ao luxo de integrar na lista coisas menos preciosas, menos interessantes e mais tontas. Foi assim que comprei o bilhete do Maré Vivas para ir ver o Sting (bem sei que vem imensas vezes a Portugal mas o que querem, passei mais de metade da vida só a estudar e a trabalhar).

~CC~

terça-feira, 11 de junho de 2019

Um cabelo fora do lugar



Talvez seja eu que não a estou a ver bem.

Todos os produtos que procura promover com o seu sorriso perfeito são biológicos e saudáveis. As receitas um menu de cores que pauta pelo equilíbrio, conduzindo-nos a acreditar que se as fizermos, o nosso sangue se tornará mais vivo, mais puro, respiraremos enfim melhor. Fala de modo suave.

E é por isso que reparo naquele pormenor das pestanas postiças. Aquele bocadinho de negro que lhe prolonga o olhar mas a coloca no lugar do fútil e do acessório. Já não a imagino a vir da horta sem luvas. E nada do que apresenta me parece realmente verdadeiro, falta-lhe um bocadinho de sujidade, um dente mais torto, um cabelo fora do lugar. A natureza é bela mas não é perfeita. 

~CC~

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Liberdade



Foi ontem, na biblioteca da Assembleia da República. Nunca tinha entrado na biblioteca e é bastante bonita. Não era uma homenagem à Natália Correia mas o lançamento de uma revista em que ela é a personagem escolhida (Faces de Eva). Acho que ela, que acreditava em Deus e não sei se na vida para além da morte mas acho que foi ela quem enviou a chuva que inundou a tarde. Nunca poderia ter sido uma vulgar tarde de Junho, com sol de Verão e cheiro a sardinha. Foi uma tarde molhada, caótica, com o que resta do cheiro a terra no interior de uma cidade. Tive uma genuína vontade de chorar que consegui conter pois não me apetecia fazê-lo ali, entre tantos estranhos. 

A tristeza e a revolta da Natália tornaram-se matéria ainda mais verdadeira e mais humana no interior do táxi. É fácil, falávamos sobre Lisboa. E o condutor contou as histórias, as dele e as de quem se senta naquele banco. As histórias das pessoas que perdem os bens por deverem à banca menos de 80 mil euros que não conseguem pagar e que vêm negadas todas as hipóteses de negociação, assistindo assim a vendas em hasta pública que rapidamente são tomadas por grandes fundos imobiliários previamente avisados. As histórias das pessoas acossadas pelos proprietários das casas que alugam, não poderei esquecer a da velhota que o senhorio deslocou de Alfama para uma casa minúscula em Chelas, dizendo-lhe que era em Lisboa e numa zona muito mais calma. 

Natália Correia teria escrito sobre isto poemas de farpas e sangue. E teria cantado, como a ouvi ontem fazer com Amália,  quem se não ela não teria medo de cantar a meias com a fadista...

Hei-de requisitar na biblioteca mais próxima o Botequim da Liberdade.

~CC~










quinta-feira, 6 de junho de 2019

Identidade(s)



A paisagem molda-me.

Por isso fico quieta com o coração a bater suave junto ao chaparro e ao monte de pequenas roseiras bravas vermelhas, com os olhos presos em tudo o que dali avisto e é apenas o céu, as árvores, algumas aves.

Sinto a relatividade de todas as coisas como se cada uma ficasse mais pequena e nenhuma importasse assim tanto. Isso traz-me paz e a paz faz com que o meu sangue circule devagar e os meus olhos se fechem na indolência, saboreando o sol. Nestas alturas sei que preciso de uma aldeia e de uma casa no campo para que a minha vida possa seguir um outro rumo.

Depois volto.

E tudo acelera e se torna numa vertigem.

Qual delas sou mais eu?!

~CC~